Feeds:
Posts
Comentários

foto 5

A negra magrinha de cabelos curtos chegou em casa toda puta largando o pacote do açougue em cima da mesa e brigando comigo e me dando tapas de leve na nuca e perguntando sem querer saber a resposta por que eu havia saído descalça daquele jeito bem no dia do fim do mundo?!. Eu disse ´desculpa preta mas perdi meus sapatos pr´uma gota que caiu bem em cima deles, aqui ó, tá vendo?´, e ergui o pé direito até a altura do ventre da preta que já quase me lembro como se chama, quase me lembro, sim!, se chama Cida a negra magrinha de cabelos curtos e toda espigadinha como dizia minha avó. Cida pegou meu pé como se ele fosse um cacho de uvas muito delicado e o aparou por baixo com a mão em concha cuidando pra que nenhum movimento brusco terminasse de arrancar a pele que estava toda desbeiçada pendendo do calcanhar feito casca de tomate cozido. A gota de sol teve efeito de napalm e o estrago só não foi maior porque a bota ortopédica branca que eu usava no dia estava dois números acima do meu e foi justo naqueles dois números extras na ponta que a lava caiu primeiro me dando três milésimos de sorte pr´eu tirar as botas antes que a lava comesse meus pés de uma vez. Eu nunca tinha visto a Cida chorar até aquele dia. Ela só ralhava comigo de brincadeira  e ria das minhas cagadas e de uma cagada em especial de quando comi escondida atrás da porta do quarto uns cinco ou seis batons vinte-e-quatro-horas de uma caixa com dez que meu pai trouxe do Paraguai pra minha mãe e a Cida adorava relembrar isso e me dar tapas na bochecha e me chamar de praga sempre que terminava de recontar a história mais pra si mesma do que pra mim. Eu nunca tinha visto a Cida chorar e isso aconteceu quando ela pegou meus pés queimados e viu de perto que eles nunca mais seriam os mesmos e que sempre haveria uma cicatriz neles a me lembrar que o mundo tinha acabado bem antes  d´eu poder conhecê-lo. Cida ficou muito compenetrada quando chorou. O tórax dela estremecia pra dentro, sufocado, querendo represar o manancial de tristeza que se formava e ela não sabia onde desaguar. Depois de um suspiro muito profundo Cida voltou a ser Cida de um jeito que eu entendia: me deu um tapa de leve no rosto me chamou de praga e foi até a cozinha pegar azeite e vinho e pano de prato pra apaziguar minha ferida do jeito que ela tinha aprendido com o bom samaritano na bíblia que lia todos os dias enquanto esperava a água do arroz secar. Só quando a Cida entrou na cozinha e eu olhei pra ela de costas é que vi que da ponta da cabeça até a cintura ela estava completamente queimada e sem pele, como se a lava, em vez de gota, fosse uma língua que lambeu a Cida de cima até embaixo arrancando dela todo o negrume da pele preta. Cida estava cor-de-rosa. E devia arder infinitamente. Mas ela não deu um pio sobre seu azar. Ungiu meus pés com azeite e vinho, enrolou os dois  em panos de prato com água fria e voltou pra cozinha a preparar os peitos de frango que comprou pra me fazer grelhados com arroz feijão purê de batata farinha e banana. A preta que me azeitava a infância nunca mais saiu de lá.

Quando acordei no chão do circo eu já não tinha cinco anos de idade, mas trinta. Meus pés estavam intactos, mas o mudo lá fora não. A Cida é a quinta foto de um sonho que não se revela.

foto 4

A criação aniquilada merecia uma metáfora: uma lona azul e branca, vagabunda, cobrindo bichos vivos do lado de dentro e exilando domadores mortos do lado de fora. O circo permaneceu em pé, mas os circenses não. Público não havia – era segunda-feira quando o mundo acabou, dia de folga no Super Trupe Imperador. Nenhum bicho se manifestou quando entrei na ala das jaulas. Eram dezenas, com macacos, elefantes, tigres, cachorros e cavalos, todos em silêncio. Irmanamo-nos à custa da misericórdia filha da puta que nos manteve vivos. Àquela altura éramos imortais, já que nem o fim tinha sido bastante pra destruir nossa carne dura. Atrás de uma das jaulas anunciava-se um pé humano, inteiro, de um corpo deitado de bruços. Aproximei-me. Pela bunda e coxas lisas, era mulher. Fora poupada da gota de sol, mas morrera, sei lá como. Virei o corpo de barriga pra cima. Era mulher mesmo, com barba e bigode postiços, e já fedia. Os cabelos estavam empastados, tinha uma franja à altura da sobrancelha, e uma boca entreaberta, carnosa, os dentes secos e os olhos arregalados. A barba descolava pelas costeletas. Um macaco levantou-se e caminhou de uma ponta à outra da jaula. Me olhava como se implorasse. Pela mulher ou por mim? Pedia. Fome? Coloquei a cabeça da mulher no meu colo e encostei a minha cabeça numa pilastra de madeira. O mundo poderia acabar repetidas vezes, infinitamente, que nada seria mais forte do que o primeiro cagaço de fim absoluto que eu acabava de sentir. Era tão forte que eu já estava morta antes de morrer. Um ruído escapou da boca da mulher. Um arroto mínimo. Os gases que ainda estavam nela saíam pelo orifício maior. Aproximei meu ouvido pra perceber melhor o ranger de tripas. O macaco que me olhava mais de perto gritou, agarrou-se à jaula e a chacoalhou ferozmente. Os outros dez ou quinze símios fizeram o mesmo, e dispararam uma rebelião encarcerada. De repente, o Super Trupe Imperador reviveu aos gritos, safanões de grades, rugidos e exasperações da fauna remanescente. Fiquei atordoada. Um frio paralisante na barriga, pernas e braços. Amoleci e enrijeci num segundo. Lembrei-me da criação em estado natural, e viva, minha família e amigos. Mas já era tarde. Colei minha boca na boca da morta, com força. O bigode dela entrava no meu nariz. Meu corpo sem roupa colou, na horizontal, no corpo dela, em maiô violeta. Os macacos atiravam serragem em mim. Meu corpo cada vez mais teso, igualando-se ao da morta, queria entrar no dela. Mordi sua boca, o nariz, a bochecha, apertei seus seios, as coxas. Encontrei um vão na cava do maiô esgarçado, entre as pernas, e meti a mão lá. Estava seco e refratário. Meti assim mesmo. Meu peso sobre seu ventre fez a mulher expelir os gases também pelo nariz. Os gritos dos bichos só cresciam. Fúria deles e minha. Comi a mulher. Comi a mulher com a mão. No fundo, eu queria gozar, não o corpo, mas a morte dela. Eu tinha inveja da morte dela. Programei a câmera pra disparar em 15 segundos a quarta foto. Voltei ao chão, na horizontal, minha cabeça entre as pernas da mulher barbada. A criação aniquilada merecia aquela metáfora: eu, imortal, bebendo a morte em violeta.

foto 3

Me excitava a ideia de ser um bicho. Sem banho. Amoral. Ignorante. Revirar casas e lixos e os corpos das pessoas nas ruas em busca de alento físico. Eu começava a sentir fome, sede e muito calor. Não havia explicação pra tara insurgente a não ser o puro instinto de sobrevivência que cada homem e mulher carrega dentro dos ossos. Diante do desalento material e da ausência de meios, eu era inimputável. O centro da cidade estava quase deserto. Restaram uma papelaria e um boteco. Só me cabia comer e beber do que havia nas prateleiras cheias de sebo do bar. Deixei a bicicleta e a máquina fotográfica à porta. Entrei. Moscas patinavam sobre finas películas de gordura espalhadas pelo balcão. Copos meio cheios e cadeiras caídas indicavam que os clientes saíram de lá às pressas, sem tempo de dar o último trago. Encontrei uma só compota de batata ao vinagrete em todo o bar. Tive ânsia quando senti o bodum azedo que saía dela. O paladar treinado me traía. Foda-se!, gritei. Era o que havia. Mastiguei a batata e fiz a pasta descer com água. Vomitei em seguida. Porra! Porra! Senti pela comida desperdiçada. Tirei a roupa toda pra baixar a temperatura. Eu estava mole. Fui até o salão de jogos no andar de cima, abri a janela e estirei meu corpo sobre uma mesa de bilhar. Meti a mão numa das caçapas e encontrei três bolas de um jogo não finalizado. Mirei num anúncio de refrigerante na parede e atirei duas bolas nele, insolente, uma depois da outra. Pensava onde poderia haver comida e secava o suor que escorria pela nuca. Ao erguer a terceira bola, ouvi um estrondo de garrafas se espatifando no bar. Rolei da mesa ao chão num segundo, desci as escadas aos pulos e corri derrubando cadeiras, mesas e copos até chegar à saída. Minha roupa ficara sobre o balcão. Pulei sobre a bicicleta em movimento, o selim ofendendo a xoxota nua, a câmera pendendo do guidão e quase enroscando no aro dianteiro. Pedalei em linha reta por uns dez minutos. Parei quando já não enxergava o centro da cidade atrás de mim. Estava num lugar ermo, destruído. Exausta. Só então reparei que sangrava bicas no joelho direito. O corte era profundo. Sem nenhum tecido pra limpar o sangue, meti a boca na fenda. O instinto mesmo parecia ter providenciado aquele talho pra me fazer ser o que devia ser: um bicho. Me alimentei com meu próprio sangue. A terceira foto não poderia ser outra senão a da minha boca derretida em vermelho.

foto 2

Apaguei o Cohiba pela metade pro caso de me fazer falta à noite se ainda estivesse viva. A merda é que tabaco forte – ou em demasia – me irrita a garganta e eu esqueci disso. Passei as primeiras horas do fim do mundo com um ardor que subia até a metade do céu da boca. Fiz gargarejo com água do mar. Gosto estranho. Qualquer coisa de decomposição na água. Não aliviou nada, mas pelo menos o ardor me dava uma singular posse da normalidade: o mundo já não existia como antes, mas a irritação de praxe sinalizava que algumas coisas deviam estar intactas naquele cenário decomposto. A segunda foto foi capturada diante de uma casa à beira da praia, no fim da orla. Cinco porções de uma famíla encarvoada em fila, como se estivessem tentado entrar em casa quando foram atingidos à soleira da porta, um por um. Não tiveram tempo de meter a chave no trinco. Eu tive, e era só nisso que pensava enquanto registrava com a câmera a procissão dos cinco montes de cinzas. Por que raios eu tive tempo de entrar em casa e chegar ao porão antes de a gota cair no jardim bem onde eu havia passado? Alguém me desejava viva no meio dos mortos. Se isso fosse verdade, estavam expandidas minhas possibilidades de ser feliz: tudo o que me restava era continuar existindo fisicamente, respirando, e isso era mais fácil do que qualquer busca metafísica. Naquele novo contexto, os cabelos úmidos de maresia, os pés cheios de areia e a garganta em brasa me definiam mais do que a profissão que eu exercia, os livros que li ou as pessoas que amava dois dias antes de o sol derreter e reduzir a carvão todos os sonhos. Eu já não tinha sonhos. Eu era matéria e pura potência pra ser um bicho que vive do que é necessário. O fim do mundo simplificou minha existência ao me deixar como herança apenas um charuto, uma bicicleta e uma câmera fotográfica. Estava livre. Carregava minha vida junto ao meu corpo.

foto 1

Eu me enganei quanto à forma como tudo aconteceria. O sol não se desprendeu de repente arruinando a criação num átimo. Lento e seletivo, o fim deu-se em pequenas gotas que se desprenderam do sol parecendo chuva, mas eram fogo puro endereçado a cada criatura: bicho, planta, gente e coisa, um por um atingido sem desperdício de lava. Do porão, eu ouvia um som crescente como o de lenha crepitando e engolindo buzinas, sirenes e os gritos de quem ainda buscava um lugar para se esconder. Em uma hora, havia apenas a lenha crepitando. Em dois dias, o silêncio seria quase absoluto não fosse o barulho das ondas do que restava de mar a duzentos metros dali. Até onde minha visão alcançava, havia sobrado a praia com sua areia cinza e achatada, havia sobrado uma bicicleta ainda nova no porão, uma réstia de café no bule, uma máquina fotográfica com filme e um charuto Cohiba. Do fim, sobrei eu, e talvez alguém mais entre toda aquela gente transformada em carvão que, ao contrário de mim, já estava morta para contemplar o fim quase absoluto da criação. Com odores de peixe, a brisa marítima amainava o cheiro de queimado que eu já havia sentido pelas frestas do porão logo que a chuva de sol começou. Talvez ainda existissem peixes vivos, ou talvez fossem reminiscências de oceanos intactos – era impossível saber onde mais o sol havia pingado e o quanto havia consumido do mundo. Subi até a saída do porão e abri a porta devagar. A sensação era a de um torpor de ressaca, como se eu tivesse destilado no corpo a pinga do mundo. Talvez por isso a consciência da solitude tenha entrado em mim sem doer. Esperando o desespero, o que encontrei foi uma fisgada de gostosa completude assim que o branco do céu entrou rasgando nos meus olhos. Um grito não diria do fim tanto quanto disse o suspiro que eu dei, único esboço de quando entendi, subitamente, que a realidade até então conhecida havia acabado de uma vez por todas, e o que restava ali adiante era outra coisa – um mistério, acima de tudo. Bebi o resto de café frio do bule, calcei meus chinelos, acendi o Cohiba e fui à praia com minha bicicleta e a máquina fotográfica pendurada no ombro. Pedalei ao longo da orla como fiz em todas as manhãs de verão como aquela. O cereja das unhas dos meus pés e mãos era o máximo de cor que meus olhos varriam por onde eu passava. Apesar de toda a negação cinzenta estendida ao longo da areia, não havia morte, não havia tragédia, não havia dor por perdas nem amores embargados que me fizessem sentir o fim como um fim. Pelo contrário, quanto mais desolada, tanto menos eu ficava de luto pela civilização perdida. Então a resposta não está fora – pensei. Por uma deferência ao que desconhecia, decidi registrar, até onde o filme durasse, as primeiras imagens do fim do mundo. No primeiro quadro, meu Cohiba, eu e as unhas cereja recortados diante do mar mais vazio. A criação era ainda mais bonita desfeita.

PERFEIÇÕES POSSÍVEIS

A gênese deste pequeno livro de perfeições é a que segue: no início era o nada. O tudo, puto de inveja com tamanha presença do vazio, resolveu aparecer de repente e por inteiro. Veio cheio de gás, arrebentando. Para evitar que a criação nascente explodisse, alguém disse: ´´faça-se o alprazolam´´, e o alprazolam se fez em drágeas de 2 miligramas. Era forte esse calmante, de abater cavalo. A criação, melindrada, tomou logo 8 unidades para evitar maiores desastres. Isso foi numa sexta-feira. No sábado, tomou outras 5. Foram dois dias de apagão quase absoluto. A criação ficou semi-morta, e, ao despertar no domingo pela manhã, foi atualizada por flashes involuntários – viu-se cortando o cabelo sabe-se lá em que salão, comprando roupas feito um robô, comendo empada com a boca mole, dormindo profundamente, riscando a pele, quebrando copos, babando, bebendo água com a ajuda de outrem, pegando ônibus à esmo sem chegar a lugar algum, pedindo a quem amava que lhe perdoasse e recebendo uma porta trancada na cara como resposta. A criação rodopiou, caiu, levantou, debruçou-se no parapeito e, prestes a saltar da janela, iluminou-se: decidiu viajar ao lugar de suas melhores lembranças – Tupaciguara, em Minas Gerais. Lá, a criação instalou-se numa casa abandonada, a casa de sua infância branca, a casa já carcomida por traças e pela decomposição que acomete as coisas vivas. Achou lindo tudo aquilo e encontrou na morte a confirmação da vida ao revés. A criação viveu dois dias a sol, laranja e cigarro, tomou banho de caneca, dormiu em cama rota e aspirou, com ácaros e saudade, o passado que era um doce sépia. A criação andou nua pelo jardim da casa à caça de bichos, musgo, terra e outras gratuidades orgânicas para compor a obra que aqui se apresenta: sete histórias, sete pessoas, sete Perfeições Possíveis de uma existência. Por causa delas, a criação quebrantada foi capaz de se redimir. Por agora.

PERFEIÇÕES POSSÍVEIS

EUGÊNIA

– Faremos outro?

– Não.

– E se este não vingar?

– Então faremos outro.

Como não vingaria se estava tão vivo? Eugênia se virou de bruços e adormeceu ao lado do pai do bebê. Sonhou que os próprios pais, cirurgiões à paisana, tiravam-lhe a criança por entre as pernas com garfo e faca. Acordou com o primogênito morto e a cama cheia de sangue da cintura para baixo. Não sabe, até hoje, se os pais tiveram culpa nisso – era tudo tão real, sentia o cheiro do éter e o frio do garfo a lhe roçar as coxas –, ou se, por um desejo secreto e impronunciável, o destino mesmo se encarregara de lhe tirar o filho que ela talvez ainda não soubesse manejar, ou, ainda, se o mesmo destino, valendo-se de humor negro, tentasse lhe confirmar a vida do filho (sim, vingará) usando o contraste da morte.

Eugênia despertou naquele dia, lavou-se e vestiu as roupas da mãe, mais alta que ela, para que as mangas e barras sobressalentes lhe cobrissem o frio que sentia nas extremidades depois da morte de sua própria maternidade. Permaneceu o dia inteiro no quarto, só, desenhando perfeições possíveis nas paredes – mulheres sem seios, casas sem janelas, crianças com um dedo a mais em cada mão ou um terceiro olho na testa. Conforme o frio ia cedendo, ela cortava alguns centímetros das extremidades da roupa. À noite, Eugênia já não vestia nada, e saiu à rua, outono, desmãe de outrem, desfilha dos pais, mãe de si mesma. Não precisou fazer outro. Eugênia mesma vingou.

MODESTO

De segunda a sexta, Modesto levantava muros e aplainava pisos. Gostava. Aos sábados, odiando, varava a noite vivendo para o que nasceu sem querer: dar a conhecer ao mundo o mundo além da física. A contragosto, vestia sua melhor camisa de viscose, sapatos de camurça, regalava-se um púlpito imaginário e o erguia num canto do bar da estação de trem, onde, entre uma cerveja e uma porção de tremoço, cimentava na consciência dos ouvintes as perfeições – ou verdades sem rebarbas, como as definia – que trazia bem engendradas na cabeça. Eram muitas as perfeições que anunciava, tanto mais as místicas. Uma das últimas reveladas foi a da carambola como seminal e subliminar símbolo do judaísmo. ´´Corta ela no meio e tá lá: seis pontas, estrela de Davi!´´. Modesto não procurava as perfeições, eram elas que o encontravam entre um reboco e outro, com o sol lhe crestando a cabeça e o cal pesando nos cílios. E uma vez pego pelo calcanhar por uma dessas diabas (era assim que ele as chamava), Modesto não a abarcava, só a aceitava como lhe vinha, imperativa. Eram tão súbitas e grandes e avassaladoras as perfeições que o assaltavam que ele sentia que se não as desaguasse no sábado seguinte à descoberta seria invadido, à primeira luz do domingo, por um gás de potência infinita entrando-lhe direto pelo reto e alguém, com as mãos muito fortes e muito grandes, tapando-lhe todos os demais orifícios até ele…

Cansado da eleição à qual não se candidatara, Modesto venceu os escrúpulos e resolveu fazer o teste num sábado de Finados. Mais que o direito de apenas erguer muros, ele requeria, rebeldemente, o unguento da mediocridade. A perfeição a ser revelada naquele sábado de Finados dizia respeito à morte, precisamente. Comeu tremoço sem casca, com casca, pediu a terceira garrafa de cerveja, a quarta, a quinta, pediu salaminho, ganhou tempo apertando entre as coxas o escroto envolto num cilício improvisado com arame farpado – a dor era para lembrá-lo de que, se não rompesse com o compulsório anúncio da perfeição naquele sábado, jamais teria forças para fazê-lo outra vez, e o temor do gás infinito a lhe violar o reto iria persegui-lo até seus últimos dias tremulamente vividos. Uma drosófila, que nada tinha a ver com as perfeições de Modesto, batia asas há meia hora no fundinho de cerveja choca que ele não bebia para avantajar o tempo e pensar num escape infalível caso alguém se aproximasse dele, de fato, com um cilindro de gás e uma mangueira. Drosófila petulante. Seguia lutando pela vida cinquenta, setenta, noventa minutos depois que Modesto iniciara a introdução sobre a perfeição daquele sábado: a morte. O sábado, porém, já era passado há mais de cinco horas, a drosófila que Modesto via no copo não era a primeira, mas a oitava candidata a defunta que, incauta, juntou-se às sete antecessoras – e o copo, aliás, não era o dele; a garrafa que Modesto e seus ouivintes secavam já era a trigésima quarta e o estoque de tremoço, salaminho e ovinhos de codorna em conserva do bar da estação já estavam virando bolo alimentar e gases no ventre daquela gente. Gases, lembrou-se Modesto, profeta inebriado pelo medo às perfeições. Suou frio, apertou o escroto entre as coxas e sentiu a dor incrível do cilício transpassando a carne. Lembrou-se do futuro. Os primeiros raios da manhã de domingo tocaram as garrafas de pinga na prateleira do bar, e chamaram a atenção de uma meia dúzia que ainda mantinha os olhos abertos. Modesto, então, anunciou, todo molenga: ´´a perfeição de hoje, meus amigos, é que o sol nascendo é sempre belo, mesmo quando decide repousar seus primeiros raios nesse bar, que, na anatomia do mundo, corresponde ao cu´´. No copo de Modesto, a primeira drosófila a morrer não durou nem três minutos viva.

LÁZARA

Terrosa e farelenta, Lázara nunca está onde a colocamos. Dispersa-se. Está em um segundo, e, se bate um vento, já não mais a vemos… ou a vemos, aqui, ali, ali, ali e aqui de novo. ´´Não permaneço, desintegro-me e escapo por todas as frestas´´, ela diz. ´´Se estou, aborreço-me´´, completa Lázara, migalhando-se outra vez. Lázara jamais estará, e se um dia estiver, consistente e palpável, morrerá. Logo, Lázara, para estar, deve ser o que não é, inteiriça, o que significa, no contexto de sua vida, que a morte é seu único modo de permanecer.

FLAMENON

Flamenon Soares é o nome de um homem que nasceu na época em que chamar-se Flamenon, ou Eudóxia, ou Mixórdia da Silva não era uma afronta, mas uma possibilidade a mais de ser evocado pelo mundo. Flamenon tem bigodes, mãos, cabelos negros e uma série de casualidades que nada dizem dele, a não ser que é homem, que tem bigodes, mãos, cabelos, etc, etc. O que diz de Flamenon é o que ele não é, ou melhor, o que ele não se chama. Ele descobriu tarde, aos 60 anos, que chamar-se Flamenon, um dia, poderia se transformar num problema existencial. Ele tem vivido os últimos dez anos temendo que o evoquem pelo nome – e o evocam sempre, para seu desespero. E tudo porque alguém, um dia, perguntou-lhe o nome, ele respondeu e recebeu em troca: ´´Flamenon? Flamenon? Fla-me-non? Flaaaa-meeee-noooon??????????´´.

Com tantas interrogações a respeito da certeza mais encalacrada que tinha – o fato de se chamar Flamenon –, ele passou a duvidar de quem era, como era e se, de fato, seria possível existir alguém no mundo com uma credencial cuja propriedade mais saliente era, justamente, o oposto de todas as credenciais: em vez de trazer a gente para mais perto de si ao dizer seu nome, Flamenon, com apenas três sílabas, empurra-as dois passos para trás. Mas o grande mal de Flamenon não é seu nome, e sim a cidade onde vive, uma qualquer, dessas ideais. Se vivesse em Perfeições, onde tudo é furta-cor e mal passado, onde amor e rechaço são eletivos e onde, por lei, só está permitida a manutenção de uma única angústia existencial por pessoa, Flamenon seria o ser com mais ser de todos os seres. Isso porque, em Perfeições, as pessoas não se estafam tentando se perder de quem não são. Preferem, inclusive, não saber o que seriam se não fossem o que são, porque, se soubessem, certamente prefeririam, insaciáveis que são todos os dessa espécie, ser o que não são, e aí as angústias existenciais já seriam duas, o que está proibido por lei.

É evidente que Flamenon poderia ter sido registrado em cartório como Pedro Soares, mas também poderia ter sido nomeado Esdrúxulo Flamenon Soares, e sua angústia seria ainda maior. Então, em Perfeições, Flamenon simplesmente seria, sem angústias nem prospecções inócuas. Quando as leis específicas de Perfeições foram criadas, a miséria humana já estava prevista e foi contemplada. Por isso, nesta cidade, todo cidadão têm diretio à ignorância, e não há quem não faça uso dela para angariar muitas benesses existenciais.

GILSEMINA

´´Ai, que gozo incrível esse teu, Gilsemina! ! Você perde a fluência, entorta a boca e urra sufocado de um jeito que acho tão lindo… Gilsemina, você me comove porque goza como quem sofre um derrame´´. A última vez que sussurrou essas palavras ao ouvido de Gilsemina, Aristides ainda conjugava os verbos nas frases, tinha a boca firme ao falar e seu lado direito do corpo se movia com naturalidade, em compasso com o lado esquerdo. E Gilsemina, nessa última vez, ainda gozava com Aristides e amava que ele amasse suas incongruências sexuais.

Foi quando decidiram passar um fim de semana às margens da cachoeira Dasbenesses, no interior da cidade. Aristides, mortalmente apaixonado, achou que fosse um bom galanteio presentear Gilsemina com o exemplar único de orquídea que encontrou no alto da cachoeira, isolado, a um passo da queda d´água de 80 metros. Assim que dobrou o joelho direito para alcançar a flor, uma pedra sob o pé de Aristides cedeu, e ele caiu como se amasse, fulminantemente e para sempre, os 80 metros. Voltou à vida um mês mais tarde. Gilsemina esperava por ele em casa. Na primeira noite em que se amaram depois do acidente, foi a vez de Aristides entortar-se todo ao gozar. Ele guinchava, não urrava, e a boca toda dura parecia querer encontrar a nuca pela esquerda. ´´Gozo, Gilsemina, teu, sufocado, lindo´´, disse Aristides, babando pelos cantos da boca na orelha da esposa. Amava-a tanto. Ela o deixou dois meses depois. Na carta de despedida para Aristides, Gilsemina escreveu que era doloroso demais para ela amar alguém que não conjugasse verbos.

EXPEDITO

´´A melhor realidade que existe é a que está posta, porque o presente é o único tempo possível´´. Expedito acenou com a mão direita, desceu do coreto e passou entre a gente. Houve quem anotasse a frase, houve quem o tocasse, quem tentasse lhe roubar um fio de cabelo por relíquia ou pedisse à mãe de Expedito que lhe desse um fiapo de sua roupa para usar de amuleto. Houve também quem lhe atirasse um tomate na nuca e o chamasse de impostor: ´´um moleque de dez anos não pode ter nascido pronto! Impostor! É um anão adulto!´´, gritou o homem septuagenário, pronto a atirar o segundo tomate.

ASSUNTA

No santinho pela causa de beatificação da irmã Assunta, contavam que em vida ela não fez outra coisa que não penitenciar-se para atingir a perfeição de Cristo. ´´Despertava sempre antes do alvorecer, rezava as preces previstas pela ordem, assistia à Santa Missa de joelhos, comungava, fazia ação de graças e permanecia em jejum da manhã até o início da noite pelo menos quatro vezes na semana, sem água sequer. Com um látego feito de cizal endurecido com rebites cortantes nas pontas, ela se penitenciava nas coxas e nádegas durante o tempo de três Adoro Te Devote cantado em gregoriano perfeito. Sangrava deveras´´.

O que não estava dito no santinho, porém, é que irmã Assunta penitenciava-se com intenções de escárnio, e não de devoção, a fim de confundir a apreciação do povo besta que me toma por santa – assim fora escrito por ela na primeira página de um diário enterrado num rincão de sua cela (o diário foi descoberto cinco meses antes de a causa para a beatificação ser suspensa). Irmã Assunta profanava propositalmente as coisas de Deus para ser acolhida por Cristo na sua miséria mais pura. ´´A admiração alheia me enche duma sincera soberba, e a dissimulação consciente revela a mim mesma quão suja sou. E é por esta soberba e sujidade, assumidas como defeitos irrevogáveis e amados por mim, que Cristo estenderá sua maca divina para me resgatar´´, escreveu a religiosa.

Irmã Assunta era uma leviana, de fato, soberba, mentirosa e avarenta, destemperada, egoísta e lasciva, mas não menos santa, porque a perfeição da qual se valia era ao revés. Era ela quem dava a Cristo a honra de acolher mais uma enferma nos céus.

lama

Os seios dos quais era devoto estavam mais rijos nas mãos. Desobedeciam a gravidade e a pudicícia, macios pêssegos, galhardas cerejas pendentes que só se rendiam ao calor da língua que as degustava. Ele a olhou entre os olhos com um fulgor inédito, sorriu-lhe e disse: su-a-va-ga-bun-da. Em seguida, deu-lhe um murro no meio da boca, fazendo voar seus dois incisivos centrais. As mãos e a língua não eram as dele.