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em sentido horário, os músicos Daniel Galli, Filipe Trielli, Diego Gomes e Edu Santana

em sentido horário, os músicos Daniel Galli, Filipe Trielli, Diego Gomes e Edu Santana

Quem não acredita que um álbum com 10 músicas pode ser gravado em um único dia, leia o texto abaixo e tire a prova (e há prova). A seguir, nada mais que a verdade no dia mundial da mentira

Era primeiro de abril de 2009, mas os fatos narrados no início daquele dia não eram mentira (embora a mentira se parecessem) porque todos eles apareceram impressos nos jornais recém saídos das rotativas: um francês corria nu pelas ruas de Paris com uma vara de salto na mão; na Brasilândia, zona norte de São Paulo, um garoto de 5 anos se perdeu na floresta ao sair em busca de Princesa, sua cadela; também na capital, a octogenária Hebe Camargo tascou um beijo na boca do patrão Sílvio, que, por sua vez, estava interessado em incorporar à sua empresa as ações de um gigante dos eletromésticos cujo símbolo é um pinguim gigante; em Itajaí, Santa Catarina, uma geladeira dentro de um bar não abrigava comida nem bebida, mas a entrada de uma casa clandestina de jogos caça-níquel.

E parecia mentira – mas também não era, porque a repórter aqui acordou às cinco e meia da manhã daquele 1º. de abril só pra tirar a prova – que quatro músicos haviam se reunido às 7 da manhã num estúdio na Vila Madalena, na capital paulista, para fazer um disco completo – letra, melodia, arranjos e mixagem – em apenas 24 horas, sem levar grana por isso, sem patrocínio, sem glamour, sem tempo, mas com um tesão por compor dos mais arraigados. Filipe Trielli, Daniel Galli, Diego Gomes e Edu Santana, donos da Panela Produtora, reuniram-se no ano passado para realizar a primeira edição do Disco em um Dia e, assim, divulgar a produtora recém-criada. Deu certo – terminaram as gravações com três horas de antecedência, inclusive –, divertiram-se o quanto quiseram e decidiram repetir o feito esse ano: os quatro moveram músicos, técnicos de som e vídeo, fotógrafo, ilustradora, jornalistas e amigos que, assim como eles, estavam dispostos a realizar a tarefa com cara de mentira de gravar em 1440 minutos um álbum completo.

Fora os instrumentos musicais e o aparato técnico do estúdio, nada mais estava pronto para a epopéia. Quer dizer, também estavam prontas as notícias dos jornais daquele dia (Folha de S. Paulo, Diário, Estado de S. Paulo, Valor, O Globo) que serviriam de inspiração para as letras. Das notícias vieram as composições sobre o homem correndo nu, sobre o garoto e sua Princesa, sobre Hebe, Sílvio e outros fatos do dia. Estavam prontos os artistas convidados que, ao longo das 24 horas seguintes, iriam se alternar no estúdio para compor e gravar – sem saber o quê, exatamente – algumas das dez faixas do disco.

O violinista Ricardo Herz foi o primeiro a chegar – por Skype, já que vive em Paris –, depois o cantor e instrumentista Maurício Pereira, o MC Emicida, o repentista Franklin Roolsvelt, Rhaissa Bittar, Max de Castro e outros convidados que até a meia-noite do dia dois de abril apareceram no estúdio. Até João Gilberto, pessoa difícil que é, baixou na Vila Madalena pra meter a mão geniosa na panela dos meninos.

Non stop

Às nove da manhã em ponto os músicos saíram pra comprar os jornais do dia. Às 9.15 todos os periódicos de São Paulo estavam espalhados sobre a mesa com os quatro caras debruçados sobre eles caçando o que fosse um lampejo de letra; às dez os músicos já estavam no estúdio dedilhando violões e rabiscando as primeiras frases no papel. Às 11 o cheiro do tempero da dona Neide, responsável pela comida da Panela de todos os dias, já preenchia cada rincão da casa, tanto quanto os sons dispersos que vinham de alguém cantarolando aqui e ali uma melodia nascente. Antes do meio-dia, Bruna, 8 anos, filha do músico Daniel Galli, ligou pra ele perguntando se o homem laranja (Maurício Pereira, que vestia camisa laranja no dia primeiro de abril) era o mesmo que cantava a música Responde Visconde (sim, era Maurício o autor e intérprete da música). Bruna, e qualquer brasileiro naquele primeiro de abril, podiam ver Maurício, Daniel, Filipe, Diego e Edu ao vivo, pela internet, em imagens captadas em tempo real pelas duas câmeras da produtora Colméia TV, que registrou, non stop, as 24 horas criativas.

em busca das notícias do dia

em busca das notícias do dia

em busca das letras nos fatos do dia

caçando ideias para letras

Pouco antes das duas da tarde a mesa estava posta para o almoço. Era farta. Dona Neide calculou o tamanho da fome de quase 20 pessoas (maioria homem) e mais a energia necessária para que os músicos trabalhassem sem parar até o sol firmar-se às 9 da manhã do dia seguinte. Não podia faltar energia, de maneira alguma, não podia faltar. Não? Mas faltou, não nos músicos, mas no sistema elétrico da casa inteira. Isso foi um pouco depois das duas da tarde. Tudo apagou de repente, puf!; uma música quase pronta foi parar no limbo dos arquivos de computador não salvos; outra música, feita naquele início de tarde pelo violinista Ricardo Herz, na França, ficou parada em algum lugar do cyberespaço e não conseguiu chegar à caixa de email dos músicos da Panela. A luz voltou, mas foi-se em seguida; voltou outra vez, ficou trinta minutos e puf!, de novo caiu. Até parecia um desafio desses pra fazer a missão de produzir o disco mais emocionante. Eliminando os períodos nos quais a luz voltou sem se firmar, o apagão durou quase uma hora e afetou o andamento dos trabalhos, os humores, e só não fez um estrago irreparável graças ao engenho de Janjão, engenheiro de som da Panela que tentou, e conseguiu, remediar o problema com um tanto de fios e cérebro.  

o músico Maurício Pereira: homem laranja em ação

o músico Maurício Pereira: “homem laranja” em ação

Non sense

Pombo correio a serviço do tráfico em ritmo de voz e violão, atleta nu pelas ruas parisienses ao som de violino; menino buscando cadela perdida na floresta embalado por um folk, geladeira-esconderijo de jogos de azar vira tema de marchinha de carnaval. Muitas letras e viagens melódicas surgiram em vinte e quatro horas de criação. Às seis e meia da noite, por exemplo, o MC Emicida, com caneta e papel nas mãos, admirava-se com a notícia que lhe deram para servir de base a uma letra. “Motorista para o carro em avenida no Rio de Janeiro pra gambá atravessar. Putz, essa é a letra mais estranha que to tendo que fazer”, disse, com a mão na cabeça como se tateasse uma ideia ali dentro. A música brotou tão logo Emicida encontrou uma sala silenciosa pra compor. Foi rápido e limpo, nenhum rabisco corretivo no único papel que usou para escrever a música. Em estúdio, Emicida cantou: “o bom samaritano nem ligou pro tempo passando/freou assim que viu o gambá atravessando/paciência da manhã, pro bixinho ter uma manhã/cumpriu seu papel, vai pro céu, com louvor, se pã”. Do outro lado do aquário, onde estavam os músicos e técnicos acompanhando a gravação, alguém pediu: “Emicida, quando terminar de cantar tua letra, faz um freestyle aí!” E ele fez, pra deleite dos ouvintes. Foram quase dois minutos de improvisação caudalosa, sem pausa e irrepetível. Gambás e platéia são capazes de coisas incríveis na cabeça de um Emicida movido a desafio.

de boné, EMICIDA, o cara das palavras imediatas

de boné, EMICIDA, o cara das palavras imediatas

brainstorm

brainstorm

Nove e meia da noite e a casa onde funciona a Panela Produtora virou quase um bar como os outros tantos que salpicam as ruas da Vila Madalena. Aos músicos juntaram-se suas namoradas, amigos, convidados e cervejas que proliferavam aqui e ali. Pssst, psssst, abriam-se as latinhas e garrafas. Max de Castro chamou todo mundo – todo mundo mesmo – pra gravar, ao vivo, a música que lhe incumbiram. Virou uma jam session cheia de ritmo, esoterismo, um pouco de álcool e uma disposição tal que fez a canção durar eternos 8 minutos e 26 segundos.

Depois da jam session, o papo seguiu até duas da manhã, quando o gás do povo começou a faltar. Pudera, já estavam há 17 horas em trabalho de parto pra dar à luz 10 criaturas inéditas e completas, letra, melodia, arranjo e mixagem. Os olhos de músicos e técnicos começavam a ficar apertados e arenosos, os movimentos mais lentos. Diego Gomes foi o primeiro a cair: encostou na poltrona e por lá ficou; depois foi Janjão, que parou pra tomar um banho e recompor as energias. Filipe Trielli foi o último abatido e o que mais durou estendido no sofá. Levantou por volta das cinco da manhã para compor mais uma das 10 músicas. O músico Franklin Roolsvelt, que já havia gravado seu repente high-tech no estúdio, não se deu por vencido pela hora avançada e saiu, literalmente, limpando a casa toda às cinco da manhã: recolheu latas, garrafas, copos, pratos, talheres, lavou tudo, guardou, varreu a sala, arrematou o serviço secando a pia e ainda apagou a luz da cozinha ao sair. Um bravo.

jam session com Max de Castro

jam session com Max de Castro

Quem acompanhou o trabalho dos músicos de fora, pela internet e em tempo real, teve a certeza, às 8:30 da manhã do dia 2 de abril, de que eles não dariam conta do recado até às 9 horas. As caras no vídeo apareciam compridas, como se cada minuto das vinte e três horas e meia passadas se dependurassem nas pálbebras, bochechas e vértices da boca de todos eles. O cansaço, porém, pôde menos contra o tesão de criar. Às 8:57 daquele dia, os músicos anunciavam, ao vivo, que o trabalho havia chegado ao fim com uma folga de três minutos só pra gozar o alívio de tarefa cumprida.

O Disco em um Dia volume II começa com uma escalada pop de todas as notícas que aparecem no álbum. O convidado ilustre, João Gilberto – quer dizer, a versão homônima do pai da bossa, alguns anos mais jovem e bem mais simpático – faz sua participação exatamente aí, no abre-alas do álbum: “Oi, sou o João… João Gilberto… João Gilberto Azevedo Ferreira dos Santos, gravando o Disco em um Dia na Panela Produtora. E pra dar a melhor notícia do dia: no dia da mentira, Bolívia humilha a Argentina de Maradona com 6 a 1 na rede”. Tinha toda cara de mentira, mas a gravação do Disco em um Dia, o João Gilberto e o sabão da Bolívia na Argentina existiram de verdade. Confere aqui*, ó.

a capa do álbum Disco em um Dia vol. II

a capa do álbum Disco em um Dia vol. II

fotos: J. Montavani

* vá em mix, depois em discos

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Fotos/assessoria Flora London Marathon

Fotos/assessoria Flora London Marathon

Seis guerreiros da tribo Maasai, da Tanzânia, entraram num avião pela primeira vez na vida e aterrisaram em Londres para correr a maratona internacional. Também foi a primeira vez que dormiram em colchões, comeram cereal de chocolate, que viram uma cozinha e um cavalo. Não chegaram em primeiro na corrida, mas levaram o prêmio que queriam: a possibilidade de beber água limpa na vila onde moram

Os seis negros de pele reluzente e sorriso largo se ajeitaram lado a lado e fizeram pose para a foto, exibindo os escudos feitos por eles mesmos com couro de búfalo, suas lanças de madeira, adornos de cabeça e os colares de metal que davam sonoras notícias deles a cada movimento que faziam. Os corpos esguios e fortes envoltos em mantos rubros lembravam guerreiros tribais desses de filme. Mas ali tudo era muito real. Aqueles homens eram guerreiros de fato. Atrás deles estava a Tower Bridge, o céu claro de Londres daquela manhã de abril de 2008 e alguns milhões de litros d´água correndo pelo rio Tâmisa, que corta quase toda a Inglaterra carregando até carpas rumo ao Atlântico. Diante daqueles homens estavam fotógrafos e jornalistas, alguns curiosos e um pouco mais além, às costas dos curiosos, estava o futuro dos seis negros reluzentes à espera deles na Tanzânia, onde vivem. Após as fotos e outros compromissos que tinham durante os quatro dias seguintes na agenda, aqueles homens voltariam à África carregando consigo o melhor souvenir que puderam encontrar em Londres: dinheiro suficiente para construir um poço de água na vila onde moram, um poço sem milhões de litros, nem carpas ou cavalos-marinhos, mas com água limpa e abundante o suficiente para matar a sede das crianças e mulheres da vila, dos velhos, do gado e deles, os negros reluzentes.

Isaya, Kesika, Lengamai, Ninna, Nguvu e Taico, os seis guerreiros semi-nômades da comunidade Maasai que vive espalhada pelo norte da Tanzânia e sul do Quênia, desembarcaram em Londres em abril para participar da Flora London Marathon, maratona profissional criada em 1981 e que hoje é uma das mais importantes do gênero entre as cinco existentes no mundo. Foi a primeira vez que aqueles jovens Maasais, todos entre 20 e 25 anos, saíram de Eluai, o vilarejo com mil habitantes onde vivem, e imergiram numa realidade tão díspar da que conheciam. Também foi a primeira vez que entraram num avião e sentiram o ar condicionado, que viram uma aeromoça, um piloto e admiraram a Terra desde o alto, pequenina. Mas nem de longe foi a primeira vez que eles participaram de uma maratona. Nos últimos anos, os homens e mulheres dessa tribo são obrigados a correr todos os dias de 40 a 70 kilômetros até encontrar água para beber, cozinhar, saciar o gado e banhar-se. A mesma água para todos os propósitos. Com as mudanças climáticas e o rareamento das chuvas em algumas regiões do continente africano, os lagos naturais que se formam com as águas pluviais têm se tornado escassos, sujos e disputados: de um lado os Maasais com suas vasilhas e latas para carregar a água barrenta, de outro, leões, búfalos e outros animais selvagens que não poupam quem ousa beber da mesma fonte que eles.

Daí que a Maratona de Londres, com seus 42.195 kilômetros de percurso, seria tarefa fácil, fácil, segundo os próprios guerreiros. Eles foram uns dos últimos a cruzar a linha de chegada, é verdade. Completaram a prova em 5 horas e 20 minutos, enquanto o campeão queniano Martin Lel concluiu o percurso em 2 horas, 5 minutos e 15 segundos. Mas os Maasais venceram, ainda assim. “Nós corremos cantando e dançando músicas tradicionais, usamos nossas roupas típicas e carregamos os escudos e lanças que usamos na Tanzânia; queríamos chamar a atenção do público. Não viemos correr para quebrar um recorde, mas para mobilizar as pessoas e conseguir doações para construir um poço de água limpa na nossa vila”, explicou Isaya, 24 anos, líder do grupo Maasai que o acompanhou na corrida e o único que fala inglês.

A ONG internacional Greenforce, que realiza projetos de preservação sócio-ambiental em regiões pobres da África e América Latina, foi a responsável pela vinda dos jovens africanos à capital inglesa. Em 2004, voluntários da ONG realizaram uma expedição à Tanzânia e entraram em contato com a tribo. Como é próprio do trabalho do Greenforce nas comunidades onde atua, os voluntários não ofereceram nada aos Maasais, nenhuma solução pronta ou ajuda concreta; esperaram que os guerreiros a pedissem. Isaya, como porta-voz da tribo, explicou que o problema da água era, literalmente, questão de vida ou morte para eles, e que a construção de um poço era crucial. “Precisaríamos de verbas para construir o poço. Quando os Maasais souberam que os ingleses doam dinheiro a quem participa da maratona em prol de alguma causa, ficaram impressionados, porque correr é o que eles fazem todos os dias. O que fizemos foi realizar o pedido deles: inscrevemos o grupo na competição e o trouxemos a Londres”, conta o inglês Paul Martin, 39 anos, engenheiro e ex-soldado do Exército Britânico que coordena a expedição do Greenforce à Tanzânia desde 2005. A ONG é quem está administrando as cerca de 115 mil libras (R$ 369 mil) conseguidas pelos Maasais para encontrar água no subsolo de Eluai – quase o dobro das 60 mil libras que almejavam. “Estamos avaliando as empresas que podem realizar esse serviço. Só vamos investir quando estivermos certos de que temos os parceiros ideais”, observou Martin.

Conhecendo Londres por fotos de livros e relatos dos voluntários do Greenforce, os seis guerreiros partiram do aeroporto internacional de Kilimanjaro direto para uma realidade que as duas dimensões do papel e histórias contadas jamais lhes dariam. As descobertas começaram ainda na Tanzânia. Isaya, acostumado a caçar leões e duelar com búfalos que o ameaçam à porta de casa, por medo, fechou os olhos quando o avião, misteriosamente, se ergueu sobre o solo.

Para além do Crocodilo Dundee

A Londres que os Maasais encontraram era um mundo ao contrário daquele que apalpavam na diminuta Eluai: um volume descomunal de gente branquíssima, de carros e prédios, de cheiros construídos, ruídos, de escadas que se movem para cima e para baixo, de mulheres com unhas coloridas e de alimentos que não vêm do solo, mas de caixas, latas e antisépticas garrafas.

Seu primeiro cicerone na capital inglesa foi um manual de quatro páginas sobre os costumes britânicos, preparado pelos voluntários do Greenforce. Para os guerreiros habituados a sorrir, o manual explicava que “muitos ingleses trabalham em escritórios – ofício do qual não gostam muito –, e por isso não sorriem tanto quanto deveriam”. Dica essencial na terra da fleuma. Lhes foi dito também que era importante o uso de roupas íntimas – especialmente durante a corrida – e que, se vissem alguma vaca ou outro animal andando livres por aí, os Maasais não poderiam simplesmente pegá-los, porque já tinham dono. O aspecto Crocodilo Dundee da visita dos tanzanianos a Londres foi o mais explorado pela imprensa britânica, e às vezes com simplismo malicioso. “Um jornalista perguntou a eles o que achavam dos leões de bronze que enfeitam a Trafalgar Square (a praça mais famosa da capital). É óbvio que eles sabem que não são leões de verdade! O que esse jornalista pensa que os Maasais são?! ”, esbraveja Paul Martin, com a indignação reverberando até hoje. “Apesar de terem vindo de uma região remota, esses jovens são inteligentes o bastante para perceber e assimilar uma nova cultura”, defendeu o ex-soldado.

Pulando de uma entrevista coletiva a outra, os jovens tiveram que se acostumar a sessões repetitivas de fotos e perguntas. À questão “como é a falta de água na vila onde vocês moram?”, Isaya teve que responder mais de uma dezena de vezes. “Cada vez mais rápido e em maior quantidade, as crianças e os velhos da minha vila estão morrendo de sede, doenças ou atacados por animais selvagens. No water, no water at all”, ele disse durante entrevista coletiva no auditório do hotel The Tower, à beira do rio Tâmisa. Isaya não sabia que ali mesmo, a algumas camadas abaixo dos seus pés, 790 mil metros cúbicos do líquido incolor escorriam a cada 24 horas rumo ao nada, em silêncio, pelas fendas dos encanamentos rotos, instalados há mais de 150 anos no subsolo da cidade. Relíquias da era Vitoriana. Uma jornalista mencionou o tema non-grato numa pergunta dirigida a Paul Martin; os lábios do ex-soldado tremularam sem jeito durante sua resposta-esquiva de cinco segundos: “Não está ao nosso alcance falar sobre isso. Nós os trouxemos para a maratona, e só”. O escândalo do desperdício, que havia sido alardeado pela imprensa britânica semanas antes, não era culpa dele, afinal, nem dos outros ingleses presentes à coletiva, nem da jornalista que tocara no tema, não era de ninguém ali naquele auditório. Mas todos ficaram mudos, constrangidos num mea culpa intuitivo. Passado o embaraço coletivo, o “no water, no water at all” de Isaya continuou fazendo eco lá no subsolo, onde os canos furados debochavam da secura de Eluai.

De contradições a estranhezas, os Maasais passaram por ambas nos quase 11 dias que viveram em Londres. Quando estão em casa, na Tanzânia, os guerreiros começam o dia ao nascer do sol, às seis da manhã, e terminam quando ele se põe, às seis da tarde. É um tempo mais lento e natural. Mas em Londres eles competiram com os ponteiros do relógio e com o trânsito para chegar a todos os compromissos, para passear, treinar e descansar. Apesar da pressão por mais velocidade, no entanto, eles não aceleraram – talvez por não estarem convencidos de que aquela afobação era algo necessário –, e realizaram algumas atividades agendadas com uma calma de eternidade. Diante da porta de vidro automática do centro de exposições da maratona, gastaram pelo menos 20 minutos tentando descobrir o mecanismo que a fazia abrir e fechar sozinha; numa das entrevistas coletivas, alguém pediu aos guerreiros a demonstração de uma dança típica Maasai. Solícitos, eles cantaram e dançaram durante um, dois, três, cinco, quase seis minutos, enquanto o tempo da coletiva já havia estourado em outros 15, e um Paul Martin sem jeito sinalizava a Isaya que já era hora de parar com a cantoria.

Os jovens tanzanianos não passaram ocultos aos ingleses em nenhum lugar. Apesar de serem os turistas, eram eles mesmos a atração das atrações que visitaram: na roda-gigante London Eye, na Torre de Londres, no metrô, diante dos guardas reais e seus cavalos impecáveis em Whitehall, sempre havia quem tirasse fotos daqueles homens de vermelho e outras cores. Da chegada ao aeroporto de Heathrow até o dia da corrida, mais que uma sequência de curiosidades culturais, os Maasais eram o exemplo gráfico de como as necessidades de um homem (tanto mais a necessidade de água) fazem dele um ser de múltiplas habilidades e senso de adaptação aguçado.

De cultura pastoralista e semi-nômade, os Maasais vivem com a família em grandes casas de pau-a-pique instaladas em regiões onde estão a água e o pasto. Quando os recursos acabam, eles se mudam, carregando família e gado, suas duas maiores riquezas. Daí a dificuldade dos governos do Quênia e Tanzânia dizerem ao certo quantos Maasais existem na África. Os números oscilam entre 500 mil e um milhão. Também não há certeza sobre a origem dessa tribo, mas segundo pesquisadores e a tradição oral transmitida de geração em geração, os Maasais existem há cerca de mil anos e podem ter as raízes de suas tradições nos soldados romanos, dada a semelhança de ambos em detalhes como os escudos e lanças que carregam, a cor vermelha dos mantos que vestem e o design das sandálias que calçam, hoje feitas com tiras de pneu.

Para ter energia e suprir a falta de água, os Maasais se alimentam do leite das vacas e cabras que ordenham diariamente, e também do sangue desses animais, que eles extraem sem matar. “Sacrificar um animal é algo muito sério, já que o gado é tudo para eles, é a fonte de alimento e moeda de troca por outros alimentos e utensílios”, explica Martin. Para comer carne, os homens, e somente os homens da tribo, realizam um ritual no qual extraem o máximo de carne possível e distribuem os melhores pedaços segundo a hierarquia patriarcal que vivem, priorizando os mais velhos e os guerreiros. Às mulheres sobram os intestinos.

Povo de rituais, os Maasais tratam o amadurecimento masculino com solenidade. Até que um jovem se torne adulto e guerreiro de fato, é preciso passar por estágios que compreendem testes, como a caça de leões, e cerimônias, dentre as quais a raspagem do cabelo, a criação de cicatrizes na pele feitas à fogo e a circuncisão. Quanto às mulheres, seu status de maturidade é reconhecido pelo homem por meio do casamento. A controversa “circuncisão” feminina – durante a qual é mutilado o clitóris e às vezes até os pequenos e grandes lábios da vagina – também é praticada, mas a escala em que se realiza não é facilmente mensurável, uma vez que os homens e mulheres Maasais tratam com pudor esse assunto e a mutilação é realizada durante rituais privados. “O papel da mulher na vila é o mesmo de uma mulher de qualquer cultura patriarcal: suas tarefas estão ligadas ao cuidado da casa e das crianças, enquanto os homens se dedicam à caça e à proteção do povoado e do gado contra a ação dos animais selvagens” diz Martin, do Greenforce.

Na realidade multicultural de Londres, os adaptáveis homens da Tanzânia andaram lado a lado com mulheres loiras, ruivas e morenas, com homens de turbantes e moicanos; se encantaram com as bicicletas, com as cozinhas modernas, com o carpete nos banheiros e os colchões sobre os quais dormiram, tão diferentes das camas de bambus empilhados onde descansam toda noite em Eluai; compraram lembrancinhas para a família – bijuterias e espelhos para as vaidosas mulheres Maasais; admiraram pela primeira vez a beleza de um cavalo montado por um guarda inglês, foram desafiados pelo movimento contínuo das escadas rolantes e abriram o paladar ao sabor insosso da comida inglesa. “Nossa carne e nosso leite têm gosto e cheiros muito mais fortes”, disse Isaya, sentindo falta da cozinha das mulheres de Eluai. Isso não significa que os guerreiros não tenham se rendido ao sabor de algumas esquisitices do lado oeste do mundo, como a textura soft do croissant que comeram no bed and breakfast da irmã de Paul Martin, no distrito de Kent, onde ficaram hospedados. Lá também provaram o típico chá inglês com leite, comeram cereal de chocolate e comeram mais, bem mais do que as duas vezes por dia que se alimentam na Tanzânia. Não fosse o ambiente de família que encontraram na hospedagem, rodeados por Paul, a irmã, sobrinhos e vizinhos, os Maasais, homens-família por natureza, teriam sentido ainda mais falta de casa. “Gostamos de Londres, mas gostamos mais da nossa casa em Eluai”, declarou Isaya, reafirmando a pétrea postura dos Maasais de preservar as próprias tradições, sem se render aos apelos de modernidade da cultura ocidental branca que lhes chegam por meio dos turistas e dos próprios governos locais.

No dia da maratona foram eles, os negros cheios de outras cores, que abriram a competição. Com seus escudos e lanças de caça, dançaram, cantaram e correram. Lá pelas tantas, uma chuva torrencial despencou sobre Londres, e os Maasais cruzaram a linha de chegada ensopados, com os sorrisos ainda mais largos, e com a pele de um negro ainda mais reluzente.

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fotos/andré penteado

fotos/andré penteado

           Uma fábula morta-viva sobre um museu surreal em Londres 

 

Breton já estava morto há 42 anos quando, em 2008, alguém sobre a Terra chamou-o pelo nome.

– Breton, Breton.

Breton não respondeu. Cochilava sentado daquele outro lado do mundo. A voz do além insistiu:

– Ei, Breton, psssst… – mas Breton, de novo, nada.

A voz, então, o interpelou com piti de impaciência:

– É sobre o manifesto, Breton, é sobre o manifesto!

Breton, interando-se de que aquilo era algo que lhe dizia respeito, decidiu responder, mas sem muita ênfase.

– Sim, sim, o manifesto… e quê?

E a voz do além: – é amigo, fui longe dessa vez, comi teu manifesto. Agora o digeri, e te digo: vai virar um negócio e tanto!

Breton levantou-se, olhou lá pra baixo e coçou a nuca. “Mais um atrasadinho”, resmungou, deixando-se cair com fastio no puff de nuvens.

Quando escreveu o manifesto surrealista, em 1924, o filósofo francês André Breton soava como aquele homem que o chamava desde a Terra: um desbravador cheio de expectativas e audaz, na iminência de pôr de ponta cabeça o mundo enfadonho no qual vivia. Breton não tinha dúvidas, então, de que ele e o escritor Philippe Soulpault, que o ajudou a idealizar o manifesto, conseguiriam levar a cabo uma certa revolução surrealista: destruir por completo a sociedade racional – que, diziam eles, “era hostil a todo impulso de liberação intelectual e moral” – e erguer em seu lugar uma outra totalmente nova, baseada na hegemonia do subconsciente do homem, da fantasia e da imaginação livres de qualquer domínio da mente.

Mas ali, sentado sobre o puff celeste desde 1966 até a eternidade, Breton puro espírito já não se parecia mais ao Breton carne-osso-e-sonho do manifesto. Estava tranquilo demais, satisfeito com a paz e plenitude que amealhara na morte. Além disso, o surrealismo, como ele o havia idealizado, provara-se impraticável em sua totalidade – e foi preciso a visão panorâmica da morte para que Breton e Soulpault o percebessem. Aquela idéia de “automatismo psíquico puro pelo qual se propõe exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja por qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento”, fora tão além do que a Humanidade (com seus formalismos) poderia abarcar que ultrapassara as décadas pelo alto, fazendo breves pousos entre uma e outra, conquistando espíritos artísticos aqui e ali, mas sem lograr atingir a totalidade das mentes como queriam os sonhadores franceses, como queria, provavelmente, aquele homem do além que incomodava o cochilo do filósofo. Seu discurso seria semelhante ao de outros tantos que, de tempos em tempos, procuravam pelos auspícios do pensador defunto. A revolução, Breton! O momento é agora! Descobrimos um novo sentido para a existência! A imaginação tomará à razão o lugar e, finalmente, seremos livres, livres, livres! O que você nos diz, hein, hein?”, clamaria o homem da Terra. Pfff, pfff, pfff”, lhe contestaria Breton, com desdém. Em mais de três décadas de morte suas idéias já estavam bastante curtidas pra se animarem com as boas-velhas que lhe davam desde o lado de lá, previsível e chato.

– Oh, imaginação querida, o que sobretudo amo em ti é não perdoares – balbuciou Breton, sorrindo meio murcho para Deus que passava por ali no momento e lhe adivinhava a nostalgia.

– Ei, Breton, e então? Te conto minha idéia? É a tua cara, amigo!

O homem do além seguia no encalço do filósofo. Pior que alma penada esse aí, reclamou o francês, e voltou a dormitar. Virou de um lado pro outro, afofou o puff, mas o sono não vinha. Aquela referência ao manifesto feita pelo homem que o chamava levou Breton a uma volta forçada ao passado, aos tempos fervorosos de pensador jovenzinho, nem trinta anos ainda, e já tão arrojado. Com os olhos fechados enxergava melhor – habilidade dos tempos de sonhos frequentes – e foi assim, embalado pelo torpor do semi-sono, que Breton defunto viu, escritas em cor prata, frases que lhe justificaram em vida. Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação; “só a imaginação me dá contas do que pode ser, e é bastante para suspender por um instante a interdição terrível; é bastante também para que eu me entregue a ela, sem receio de me enganar; “o sonho não pode ser também aplicado à solução das questões fundamentais da vida?”. Estava saudoso o velho filósofo, pela primeira vez na morte. Levantou-se e decidiu limpar da memória a poeira.

– Ei, pssst, você aí embaixo, quer falar comigo?

– Breton, é você?! – perguntou o homem vivo, feliz com a honraria.

Oui, je suis, André. Que idéia é essa que você diz ter? Digeriu meu manifesto, foi?

Lá embaixo estava Fraser Laing, o homem do além, escocês, amigo de Breton pelos registros da História – não se cruzaram em vida – e admirador das suas fantasias. Sentado numa cadeira aos fundos da Arckiv, sua loja de óculos vintage instalada num pequeno galpão de tijolo à vista de 1850, encalacrado numa quina do mercado de Camden Town, ao norte de Londres, Fraser mexia e remexia o amontoado de objetos misturados numa caixa de madeira. Ali estavam os planos dele, seu bolo alimentar marinado nas idéias surrealistas de Breton que ele pretendia transformar, em breve, numa particular revolução. Um por um, Fraser foi retirando os objetos de dentro da caixa e dispondo-os sobre a mesa para que o filósofo os visse de lá do outro além: óculos quebrados, protótipos, placas de acetato bruto, armações inacabadas, com uma haste a menos ou uma fita adesiva a mais.

– Esse é meu plano, Breton – ele disse, sobrolho desafiador.

– Hã? – retrucou o filósofo, com o cenho entre o ceticismo e a chacota. – Seja mais específico, rapaz, e breve, porque a eternidade é longa, mas minha paciência não.

Fraser Laing não tinha o que temer diante de Breton. Conhecia em profundidade a obra do francês, e não incorreria em impropriedades com o mestre. Ele também não tinha o que temer pelo seu plano: era inusitado, visceral e onírico, à la Breton. Talvez faltasse ao discípulo mais clareza na explicação de suas idéias. Fraser pediu um minuto a Breton, levantou-se e foi até a entrada da loja, onde estão expostos seus óculos mais extravagantes. Voltou minutos depois carregado de esquisitices: óculos com formato de boca, com geometria irregular, simulando máscaras do carnaval de Veneza, óculos duplos (dois pares emendados), óculos imitando olhos orientais, óculos desmontáveis e até um monóculo com duas hastes, próprio para quem tem um olho na testa e crânio absurdamente estreito. Breton pareceu mais interessado. Levou a mão ao queixo, meneou a cabeça e grunhiu humm com a entonação de quem se percata de algo a mais.

– Isso também faz parte do plano? – perguntou-lhe o filósofo.

– Sim, juntamente com os outros. Há milhares deles, na minha casa também. Fui juntando ao longo de dez anos, pedindo a amigos, comprando em feiras, mercados, em viagens feitas pela Europa, encontrando na rua.

– Na rua?

– Sim, como aqueles da caixa de madeira. Encontrei a maioria deles numa fábrica de óculos do século XIX na França. Estavam desativando a fábrica e jogando tudo fora. Eu passava por acaso, vi aquilo e peguei tudo: óculos, protótipos – coisas com quase um século de idade –, documentos, catálogos, livros. Tudo. Preservei pra Humanidade.

– Ambicioso, não? – disse Breton, fazendo troça.

– Não disse que era sua cara?

O francês corou.

Fraser Laing costumava ir ao mercado de pulgas em Glasgow, na Escócia, quando era pequeno. Não se lembra se colecionava algo – talvez um tipo de porcelana de marcas famosas da época. Mas lembra-se de que havia um vendedor no mercado que possuía caixas e mais caixas de fotos de esportes dos anos 20, e que havia gente vendendo pinturas do século XVIII, e gente negociando objetos arqueológicos, e isso tudo, que ele via por entre as pernas dos adultos, era fonte de absoluto encantamento. Não era tanto a idade das mercadorias que o fascinava, mas a possibilidade da troca de História entre os negociantes – seu século XVIII pelo meu XIX; que absurdo tão palpável. Depois, mais velho e com os olhos mais treinados para a beleza das coisas, Fraser foi estudar cinema em Londres. Já aí seus planos se formavam. Terminou os estudos – mas nunca terminou de filmar um roteiro sem-fim que criou, como um sonho a emendar no outro – e, tempos depois, foi morar na Itália. Passou 10 anos por lá, cinco dos quais trabalhando num antiquário de Nápoles. Acordava às três da manhã para ir negociar nos mercados fora da cidade, tête-a-tête com gente que vendia obras Barrocas, pinturas do século XVII e outras raridades. Fraser saiu de Nápoles com o cheiro de História impregnado nas narinas, os olhos aguçados para a beleza estética e a imaginação, esta lareira, ainda mais acesa que nos tempos do mercado de pulgas em Glasgow. Em Londres, ele transformou-se num surrealista das ordinariedades. Quando vai ao trabalho, em Camden Town, Fraser escolhe sempre os caminhos com mais fantasia, como aquele em que passa diante da igreja onde John Keats, poeta inglês do século XVIII, foi batizado; ou como a rua que o deixa próximo ao jardim mortuário onde está enterrado Daniel Defoe, escritor e conterrâneo seu do século XVII. Para instalar a nova Arckiv, que Fraser reformou há pouco mais de um ano, ele escolheu o tal galpão de 1850, cuja parte dos fundos tem uma geometria espiralada, lembrando um olho, onde ele guarda suas raridades em óculos, livros e documentos. Há muita substância para a imaginação na história que permeia minha rotina, ele diz. Imaginar requer lenha e engenho.

E lá estava Fraser Laing diante de André Breton, a explicar-lhe que foi justamente nos óculos, esses objetos tão ordinários (como  ordinária é a matéria-prima do surrealismo: a vida comezinha embalsamada pelos sonhos), que ele descobriu a plataforma ideal para materializar as fantasias e desejos das pessoas. Fraser também explicou ao francês que a Arckiv nasceu, em 1998, como uma loja de óculos especializada em fornecer peças de época a produções de cinema e teatro – o que já lhe garantiu importantes encomendas para as óperas Orlando e Macbeth, para o remake do filme Charlie and the Chocolat Factory, ao musical Billy Elliot, entre outros. Mas muito antes de ser uma loja, a Arckiv era o embrião de um museu dos óculos (seu plano mestre e surreal), um museu da gênese desses objetos, que preserve e exiba seus protótipos e placas de acetato, seus modelos centenários e excêntricos, um museu que acolha em seu acervo goggles gigantescos, dolorosos pince-nez, armações sem lentes e inacabadas, pessoais pares com remendos nas hastes e pontes feitos de fita crepe ou durepox; um museu que aceite qualquer viagem estética e que proíba, terminantemente, a exposição de objetos convencionais, que não tenham sido inspirados por sonhos ou que caibam na razão humana – o que dá na mesma, enfim.

Fraser tomou da mesa um par de óculos escuros dos anos 40 sem uma das lentes, colocou-os no rosto e inclinou a cabeça para trás, deixando os olhos evidentes a Breton.

– Veja, Breton, esses são uns dos meus preferidos. Você os coloca e se parece um bicho com eles. O que acha?

O francês estava mesmo bem impressionado com Fraser. Via nele conhecimento, mas não do burocrático, das citações e apostilas…

– E o monóculo, Breton, você gosta? Esse estará logo à entrada do museu porque a tendência das pessoas é tentar colocá-lo de primeira, ainda que seja impossível.

… e sim do apaixonado, consistente, aquele que sabe as coisas de cuore (sem lirismos), e que por isso anda tão confiante e próspero, apesar, apesar…

– Fraser, meu caro, aprecio tua idéia, mas, não estará muito tarde pra falar em surrealismo?

– Tarde? Como tarde?

– Sim, tarde. Porque, veja, isso foi há mais de 80 anos. Já não dá mais caldo, amigo. Se lá, quando ainda havia lirismo e tempo, a Humanidade já era dura, que dirá agora! Que fiasco não será um museu surreal num ambiente sem tempo para sutilezas imaginativas. O que não é tangível não serve, meu caro.

– Breton, Breton… – disse Fraser, condescendente, sentando-se numa quina da mesa. – A morte tirou seu frescor, não foi?

– Talvez, mas também me deu uma visão panorâmica dos tempos muito útil.

– Olha, que os dias sejam outros, talvez mais duros hoje, eu concordo; talvez menos propícios à contemplação e fruição da fantasia, com pesar, eu também concordo. Mas, daí a dizer que é tarde, então já não compartilho com a opinião do mestre. Porque o tempo, em relação ao sonho, é circunstancial; sonho dentro do tempo, mas não preciso do tempo pra sonhar. Da essência do surrealismo, Breton, é a imaginação, atemporal e democrática.

– Humm – resmungou o filósofo, com a mesma entonação de descoberta de antes.

– E tem mais: o espírito do homem que sonha…

– … se satisfaz plenamente com o que lhe acontece.

– Portanto, Breton, se o meu museu surrealista for um fracasso, se ninguém aparecer, ou pior!, se só uma pessoa aparecer para testemunhar o malogro e depois divulgá-lo, eu direi a mim mesmo: ei, Fraser, acorda, foi tudo real. E assim, o sonho, que é perfeito, continuará íntegro.

Fraser permaneceu sentado na quina da mesa, olhando para cima e esperando um parecer de Breton, que revivia na memória, em silêncio, cada momento seu como surrealista em vida. Na eternidade, o tempo, esta convenção, é outro. O filósofo repassou a vida em segundos, mas Fraser, na Terra, esperou pela resposta por dias e dias.

– Ei, Breton, pssst! E então, amigo, o que acha do museu surreal?

Aller de l’avant! Aller de l’avant! – bradou-lhe o francês, com uma esperança inédita que foi ouvida até na última nuvem.

Fraser agradeceu ao filósofo. Saiu em seguida a caminhar pelas ruas ordinárias de Londres, sob o sol de todos os dias, à procura de mais lenha. Quanto a Breton, o sono recaía-lhe por cima. Ele ajeitou-se outra vez no puff de nuvens e procurou a melhor posição, de lado, com as mãos juntas sob a cabeça amaparando-lhe os sonhos ressuscitados. O surrealismo atua sobre a mente como os en-tor-pe-ceeenn-tessss”, balbuciou o filósofo dormente, num bocejo tão satisfeito e longo que teria durado a eternidade na Terra.

 

 

 

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 Com mais mundos interiores que uma mulher, o músico alemão Gon Von Zola é o vocal, guitarra, baixo, bateria e teclado do The Budda Cakes, banda que ele criou em parceria com outros eles

 

Coubemos os quatro sentados confortavelmente no pequeno banco de madeira. Gon, o vocalista e tecladista da banda indie The Budda Cakes, já se acostumou a ter o baixista Gordon Naspick e o baterista King Prince acomodados sobre seu colo e ombros o tempo todo, mesmo quando não estão tocando. Então, eram os três num lado do banco e eu no outro, todos bem à vontade, a não ser pelo frio úmido que nos fez contrair os músculos por hora e meia. A nos ouvir estavam os mortos do Highgate Cemetery, cemitério privado construído em 1839 ao norte de Londres. Karl Marx, o defunto ilustre, nos espiou desde que chegamos e pulamos o muro do jardim mortuário até o fim da entrevista.

– A gente precisa mesmo pular o muro, Gon?

– Se formos pela entrada principal vamos ter que pagar.

Pulamos e economizamos 3 libras cada.

Quase todas as folhas das árvores estavam no chão formando um tapete inteiriço de lodo marrom. Era o início do inverno de 2007 em Londres. As lápides do Highgate emergem tortas desde o solo empurradas pelas raízes das árvores, como nos filmes de terror. Quase não há flores para os defuntos, e a cor cinza dos túmulos e dos anjos de concreto fazem a morte mais presente. A morte não atrai tanto Gon quanto seu mutismo. O silêncio do cemitério é o que mais apraz o músico e seus dois companheiros.

– Está frio demais aqui, Gon.

– É a morte – ele disse, e sorriu como se falasse de amenidades.

Até chegarmos à entrevista no cemitério, Gon e eu queimamos oito meses. Tivemos encontros fortuitos pelas ruas de Londres, fui a dois de seus shows, trocamos e-mails e mensagens de celular. Sempre que nos encontrávamos, Gon aparecia acompanhado pelos outros dois músicos. Foi assim na primeira vez que nos vimos, em abril de 2007, diante da casa de shows Roundhouse, em Camden Town, onde Gon e os amigos trabalhavam distribuindo panfletos com propagandas de shows. Aceitei um.

– Obrigada.

– Quer um panfleto meu também?

– Quero. Você faz o quê?

– Tenho uma banda, The Budda Cakes.

– The Buda? Como o Buda?

– Sim, mas com dois “dês”.

– Interessante. Você canta?

– Canto e toco teclado.

– Humm. E que tipo de som sua banda faz?

– Indie. Uma coisa mais expressionista. Vamos fazer um show logo logo. Se quiser, aparece. O endereço está no panfleto.

– Tá bom. Quero ver vocês tocando.

Gon Von Zola é alemão com descendências suíça, estoniana e indiana, gosta de gravatas e, àquela época, trabalhava pelas manhãs numa loja de brinquedos da qual, tempos mais tarde, foi demitido. Gon utilizou a coleção mais valiosa de bonecos Smurfs (trancada à chave no andar de cima da loja) para fazer uma animação com técnica stop-motion. “Meu chefe viu o vídeo no YouTube, não gostou que eu tivesse pego emprestado os bonecos sem falar com ele e me demitiu. E eu ainda coloquei os créditos da loja no fim do vídeo”, disse o músico, indignado com a ação extrema do chefe mal-agradecido.

Gon não diz a idade, não por vaidade, senão pelo gosto de ver a dúvida no rosto dos outros. Algo entre 25 e 27 anos.

– Talvez eu tenha isso mesmo –, despistou, com um sorrisinho no canto da boca.

Gon também gosta de broches e faz os próprios usando mini-fitas K7.

– Mas hoje estou sem nenhum pra te mostrar ­–, ele disse, procurando algum remanescente nas reentrâncias da jaqueta.

A uma mulher que passava, o músico estendeu a mão cheia de panfletos, da qual ela desviou olimpicamente. “Ninguém pega os panfletos”, ele reclamou. “Experimenta dizer que é de graça”, sugeri.

– Hello, sir, free flyer.

Um homem que passava agarrou os papéis como autômato. “Funcionou!”, ele riu. “Vou usar essa tática, ainda tenho tudo isso pra distribuir”.

– Agora tenho que ir, Gon. Nos vemos. See you, then.

King, Gordon e Gon, naquele primeiro encontro, se despediram de mim com dois beijos no rosto. Os três ao mesmo tempo.

 

 De corpo ausente

Às oito e quarenta e cinco da noite, o The Budda Cakes preparava os equipamentos para começar a tocar no pub Tavern, em Archway, ao norte da cidade. À cabeceira do palco Gon colocou um teclado elétrico antigo, à la The Doors, decorado com bandagem branca, e fixou sobre ele um macaco feito de meia preta no rumo da nota mais grave. Em posição vertical em relação ao teclado, ele instalou um piano de brinquedo, desses pequenos, cujas teclas juntas têm a extensão de uma mão de adulto aberta. Diante do teclado pôs um toca-fitas, um suporte com uma dezena de K7s enfileiradas e uma pequena lanterna presa com esparadrapos iluminado o set de fitas.

A luz estava concentrada na frente do palco, ela inteira sobre o alemão. Não havia guitarra preparada, nem baixo; a bateria usada pela banda que fez o show anterior ficou no fundo escuro do Tavern. E nada disso faria falta. Gordon Naspick e King Prince não subiram ao palco naquela noite. E nunca subiriam, porque não existem. Ao menos fisicamente.

Até que criassem novas canções e as gravassem em estúdio, a presença dos dois alter-egos e companheiros de Gon Von Zola não seria mais necessária. O show fora feito por eles quando entraram no estúdio para gravar. Depois disso – e sempre foi assim com o The Budda Cakes –, bastaria que Gordon e King ficassem quietos dentro de Gon e o deixassem tocar ao vivo.

– Boa noite. Bem-vindos ao show do The Budda Cakes.

Aplausos.

– Obrigado por virem. Nós do The Budda Cakes ficamos muito satisfeitos. Eu sou Gon Von Zola e meus alter-egos King Prince e Gordon Naspick estão presentes aqui nessas fitas. So… enjoy The Budda Cakes!

Um playback assumido e bem preparado. Ao vivo mesmo, apenas a voz suave de Gon, seu teclado e o piano de brinquedo. A cada música nova ele tirava a fita do tocador, procurava a próxima que estava na ordem segundo a playlist, encaixava-a no toca-fitas, apertava play e, ao vivo, tocava o teclado em perfeita sincronia com o playback da bateria, guitarra e baixo gravados em estúdio por Gordon Naspick e King Prince. Gravados por Gon, de fato.

Apesar da ausência física de outros membros na banda e da multifuncionalidade musical de Gon (que aprendeu sozinho a tocar guitarra, baixo, bateria, teclado, acordeon, triângulo e a cantar), não é possível dizer, segundo o próprio Gon, que o The Budda Cakes é uma banda de um homem só.

– King, Gordon e eu temos gostos musicais diferentes, preferências distintas e não há um caos aqui dentro, sei separar quem é quem. Por isso digo que o The Budda Cakes não é um projeto solo, mas sim de três pessoas.

 

Meu país por um vinil

Na Alemanha, Gon Von Zola tinha um grupo de rock chamado Barbie Q. Uma banda convencional na formação, com outros três músicos além dele, que tocava guitarra e cantava. Dois membros saíram do grupo e Gon não encontrou ninguém para substituí-los, então resolveu vir a Londres tentar algo diferente.

O músico chegou à capital inglesa em dezembro de 2005 com o sonho vintage de ver os próprios vinis nas lojas. “Eu gosto de discos, da estética da capa, de ter que trocar de lado pra ouvir. Na Inglaterra há uma cultura de colecionar discos e gastar dinheiro com eles que não existe na Alemanha”.

A chegada em Londres no inverno de 2005, no entanto, estava distante da poesia de ter o próprio disco numa loja. Gon tinha três libras no bolso, nenhuma guarida e muita neve sob os pés. Perambulou pelas ruas geladas de Camden Town, bairro de músicos e punks, até encontrar, por acaso, duas brasileiras trabalhando numa casa de crepe.

– Começamos a conversar e elas me convidaram para morar com outros brasileiros e alguns portugueses num squat.

Squats são casas e prédios abandonados comumente invadidos por sem-teto, artistas, junkies e gente dura de toda ordem. Gon topou a idéia do squat e, dois dias depois, ainda ganhou um emprego na casa de crepes, também com a ajuda das brasileiras. Necessidades básicas garantidas, dinheiro para comer e morar, Gon tratou de buscar um lugar para a sonoridade do Budda Cakes nos pubs da cidade.

– Uma das primeiras coisas que fiz quando comecei a tocar em pubs em Londres foi introduzir o teclado elétrico antigo e o piano de brinquedo. Para mim o som do teclado é mágico e o piano de brinquedo é um dos instrumentos mais puros que já foram feitos. A influência musical continuou vindo do som que curto, como Rogers & Hammerstein, Motown, The Doors, Einstuerzende Neubauten e Bach.

O surgimento dos alter-egos King Prince e Gordon Naspick não era uma necessidade, segundo Gon, mas ao mesmo tempo o The Budda Cakes, pela diversidade de habilidades criativas do músico, seria mais completo com a ajuda de outras pessoas que ele tratou de caçar em si mesmo.

Além de cantar e tocar teclado, Gon Von Zola cria a estética do grupo e cuida da divulgação dos shows por meio da distribuição de panfletos e atualização do myspace da banda; Gordon Naspick toca baixo e guitarra e desenha quadrinhos; King Prince é baterista e também responsável pela porção eletrônica na música do Budda Cakes.

– Fisicamente sou eu que toco todos os instrumentos e canto, mas cada instrumento é tocado com personalidades diferentes. Gordon Naspick gosta do som dos seus dedos deslizando sobre as cordas flatwound do baixo; eu adoro o vocal quando consigo chegar ao meu tom mais agudo; King Prince toca uma bateria pesada e busca o som profundo da percussão.

Do ponto de vista estético, idéias colhidas nas ruas de Londres e no dia-a-dia do músico alemão deram corpo e rosto ao grupo. Do cartunista norte-americano Tony Millionaire, Von Zola incorporou o personagem Sock Monkey, o macaco de meia (batizado Uncle Marmelade) que acompanha o Budda Cakes sentado sobre o teclado, numa versão caseira feita com as próprias mãos e meias de Gon. De outro cartunista, Jim Woodring, o músico tomou o nome de seu personagem favorito, Frank, e deu nome ao pequeno estúdio que criou para gravar as músicas da banda (e sobre o qual faz mistério). “Não falo muito sobre o Monti Shnabl Input Frank para não tirar a mágica que ele tem. Mas posso descrevê-lo: é uma pequena biblioteca com prateleiras, livros, instrumentos musicais e equipamentos de som que fui construindo pouco a pouco. Lá tenho uma vela para as gravações que só acontecem à noite. Cada música não consome mais que o tempo de três velas para ser finalizada. Há uma foto do David Lynch em uma das paredes e um cartão postal do filme Angela, de Luc Besson. Existe também um homem morando um andar acima do estúdio e que desce toda noite de gravação para reclamar do som”.

Mesmo depois de chegar à capital inglesa e se estabelecer no squat em 2005, o músico ainda voltou algumas vezes à Alemanha para tocar. A vida por lá ficou inconclusa para Gon, que largou a faculdade de comunicação e só vai terminá-la “se um dia quebrar os dois braços e as duas pernas e não puder mais tocar”.

 

Um Budda vendável

No final de 2007, o som da banda agradou o gerente do pub Enterprise, em Camden Town, e o Budda Cakes ganhou dois meses de residência por lá. Na mesma época foram convidados a participar do single da banda electro punk Robots in Disguise, lançado pelo selo President. Com o cover da música The sex has made me stupid, o alemão ganhou o lado B do disco.

Num dos últimos shows que fizeram em novembro de 2007, o The Budda Cakes recebeu a visita de uma olheira da EMI, selo poderoso da indústria musical. Não se conheciam pessoalmente. Ela disse o nome e os olhos de Gon se abriram. “Ah, então é você!”, ele disse. Ela havia colocado um anúncio no Gumtree, site inglês de relacionamento, compra, venda e afins, buscando novas bandas. Gon respondeu em nome do Budda, e ela apareceu no show.

– Fazia um tempo que estávamos trocado e-mails. Naquele dia da visita ela me disse que gostaria de conversar depois da apresentação. Só que o show acabou e ela foi embora imediatamente. Mandei e-mails e ela não respondeu. Ela deve ter achado que a banda era alguma piada por causa do macaco de meia ou por causa da Britain Kitten.

Britain Kitten é uma modelo norte-americana de 24 anos que faz performances em clubs de Londres com dança burlesca e eletrochoque. Conheceu Gon em agosto de 2007 e foi convidada por ele a ficar sentada ao seu lado no palco durante os shows do Budda Cakes. “Assim as pessoas não ficam entediadas de olharem pra minha cara o tempo todo, podem olhar para mais alguém durante a apresentação”, justificou o músico.

O dia da visita surpresa da olheira da EMI era, por coincidência, o dia da estréia de Kitten ao lado de Gon no palco. Com orelhas, rabo e maquiagem de gato, meia arrastão e um top que evidenciava seus seios maciços, Kitten era, ela mesma, uma outra atração. Informação demais para a olheira da EMI. Talvez a olheira tivesse se escandalizado menos se visse o rapaz que Gon convidou tempos depois para sentar-se ao lado dele: um jovem de aparência e vestes bem normais, que passa o show inteiro descascando cebola e oferecendo alguns nacos à platéia.

Em dois anos de Londres o The Budda Cakes gravou um EP com cinco músicas, produziu 13 vídeos caseiros contando a rotina da banda, fez dois ensaios fotográficos, dezenas de shows em pubs e clubs e gravou no Highgate Cemetery o clip da música Crystal in the Shadow (que até às duas da tarde do dia primeiro de novembro de 2008 havia sido acessado 2,584 vezes no Youtube). Em maio desse ano, o Budda Cakes lançou o álbum X, o primogênito da banda, que pode ser ouvido e baixado no site da rádio Last FM. Com doze faixas, o álbum é uma crônica da vida da banda na cidade dos moicanos e turbantes, do fish and chips e falafel, com referências urbanas e humor non-sense, utilitarismo e algum amor.

Hoje, Gon e os alter-egos não vivem mais em squat – foram expulsos pela polícia –, pagam aluguel numa casa em Archway, ao norte da cidade, continuam trabalhando com distribuição de panfletos (porque a música ainda não dá dinheiro) e recebendo convites de pubs e festas para tocar, inclusive fora de Londres.

Não deixam passar sem registro no Myspace nada do que acontece na vida deles, como a recente, e frequente, participação de um baterista e um baixista (em pessoa!) nos shows do Budda, a inclusão de músicas da banda na playlist de duas rádios inglesas, e o misterioso desaparecimento do macaco de meia Uncle Marmelade, em fevereiro de 2008 – com direito a cartaz de ´Procura-se` no Myspace.

O plano dos vinis continua em vigor. Gon Von Zola já sondou algumas gravadoras. “Me disseram que é possível fazer uma pequena edição de discos, mas eu ainda não os convenci totalmente. Mas tenho certeza de que o The Budda Cakes é vendável em muitos aspectos, há as músicas, os shows, os vídeos, os quadrinhos do Gordon, e as pessoas gostam disso”.

E ainda que Gon não acreditasse na “vendabilidade” da banda, isso talvez não fizesse tanta diferença para os planos futuros e continuidade do Budda Cakes.

– A variedade é uma necessidade pra mim – ele disse, e sorriu por três.

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domínio submisso

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foto/andré penteado

 Com beleza excepcional e atitude servil em relação aos homens, jovens japonesas ganham a vida como hostess, uma versão com salto alto e sem kimono das tradicionais gueishas

À espera do primeiro cliente, Midori, 26, conversa sem pressa com outras 12 mulheres que trabalham com ela numa boate no centro de Tóquio, capital do Japão. Está nos bastidores e só ouve o jazz ambiente, o tilintar de copos sobre o balcão do bar e o burburinho de homens conversando. Nesse dia ela usa o vestido verde acetinado que toca o chão e deixa suas costas à vista. O gerente da boate aparece. “Midori, cliente pra você”. Ela caminha até o bar, onde o diretor de uma multinacional japonesa a espera afrouxando a gravata. Aquela era a sexta noite consecutiva em que o tal cliente a procurava disposto a pagar o equivalente a 2 mil reais pelo mesmo serviço: 300 minutos de uma conversa trivial com Midori – trabalho, negócios, rotina – durante a qual, ela, com um sorriso perpétuo e lindo, olhos fixos nos olhos dele, estrategicamente lhe diria o quanto ele é bonito, rico, inteligente e poderoso, mais que todos naquela boate, mais que todos os outros executivos de Tóquio. Ela estava sendo paga para aquilo e não poderia defraudar o consumidor dos seus serviços sendo-lhe sincera. Por isso, todas as vezes em que aquele executivo a procurava, Midori lhe dizia as mesmas mentirinhas brancas que valiam, a ela, os dois mil reais numa única noite, e a ele, o prazer de mais um fetiche consumado.

Sete noites por semana, cinco horas por noite, Midori (nome fictício) trabalhou durante quatro anos como hostess (acompanhante de luxo) em boates japonesas chamadas kyabakura, palavra que em japonês significa um misto de cabaré e club. Famosas por recrutarem apenas jovens de beleza excepcional entre 20 e 25 anos, as kyabakuras são o paraíso dos altos executivos japoneses de meia idade, que se comprazem não com sexo, mas com palavras e atitudes servis: estão ali para serem cortejados e elogiados por mulheres lindas e disponíveis, que parecem existir só para eles. “O cliente chega à boate e tem mais de uma centena de garotas à disposição. Pede uma ao gerente – é o gerente quem escolhe a hostess –, paga e passa a noite bebendo e ouvindo elogios dela. Se ele não gosta da garota, fala pouco, se desinteressa, e acaba pedindo outra. Há alguns que já chegam querendo uma hostess específica, e pagam mais caro pela vantagem da escolha. Agradar o homem faz parte da cultura japonesa, por isso a hostess é como uma gueisha moderna”, define Midori. Apesar de soar acostumada ao patriarcalismo da cultura nipônica, Midori admite que não se sentia cem por cento confortável com a submissão instituída do seu trabalho como hostess. “Às vezes eu passava quatro, cinco horas tendo que conversar com um homem gordo e feio, careca, sorrindo pra ele, dizendo que ele era maravilhoso e, na verdade, ele era simplesmente um nojo”.

Na centenária cultura das gueishas, as mulheres são preparadas para entreter seus convidados – em geral homens – nas casas de chá. Executam danças e músicas tradicionais, preparam bebidas, falam de amenidades e oferecem aos olhos dos convidados sua beleza de porcelana envolta no tradicional kimono. Dessa cultura, que ainda existe como ofício no Japão, as hostess absorveram o cerne: o senso de serviço aos homens. “Se o homem vai ao banheiro, a hostess espera por ele à porta e oferece uma toalha para ele secar as mãos. Ele trabalha o dia todo e quer relaxar sendo servido pelas mulheres”, explica a ex-hostess.

A porção moderna das novas gueishas está nos acetinados vestidos de cores fortes,  cortes justos e sensuais que subsituíram os pesados kimonos, no salto alto em lugar dos chinelos de madeira, no karaokê fluorescente e suas músicas cheias de tecladinhos e efeitos eletrônicos em vez do rústico shamisen (espécie de banjo japonês), e do ambiente escuro da boate em contraste com o bucolismo associado às tradicionais gueishas. “Ser hostess é bem mais fácil”, admite Midori.

 

Cartões de visita

Natural de Kyushu, sul do Japão, Midori, hoje com 30 anos, começou a trabalhar como hostess aos 23 quando morava em Ibaraki, cidade interiorana. Dois anos depois mudou-se para Tóquio e foi convidada por uma amiga a trabalhar numa das mais luxuosas kyabakuras da capital. “Em um mês eu era a quarta mais popular entre 162 meninas. Cheguei a ter mais de 200 cartões de visita de diretores e presidentes de empresas”, ela conta, mantendo segredo sobre nomes famosos. “Se você não tem um propósito, se vicia no trabalho, porque o dinheiro é abundante e fácil. Eu tinha um propósito: queria vir a Londres ser maquiadora”, diz Midori, que vive há dois anos na capital inglesa realizando o sonho profissional.

 No caso dos homens o vício é o oposto. Em uma noite um executivo pode gastar o equivalente a quatro mil reais em bebidas e diferentes hostess. Os que se tornam “dependentes” das meninas voltam noite após noite para vê-las, assediados também pelos e-mails e mensagens de celular que elas enviam perguntando sobre a vida deles, trabalho e, claro, sobre o próximo encontro. “Se as mulheres deles fizessem isso por eles, você acha que os executivos procurariam a hostess? ”, questiona Midori, quase que propondo um desafio.

 

Tradição e sexo

Conhecido como povo de cultura tradicional e reservada em âmbito público, os japoneses surpreendem quando expressam sua sexualidade em locais privados – mesmo em locais não tão privados quanto uma kyabakura. O tema sexo quase não é mencionado na TV, nem mesmo em campanhas de saúde pública; apesar disso, não é difícil encontrar sexshops que vendem calcinhas usadas em máquinas acionadas por moedas – como as de refrigerante – e homens lendo mangás pornográficos no metrô. “No Japão não falamos de sexo nem com melhores amigos”, conta Midori, que ainda se espanta com a livre abordagem de temas picantes nas novelas inglesas.

A kyabakura, como um macrocosmo da vida íntima de um homem médio japonês, é a metáfora do claro-escuro presente na sexualidade nipônica. Na boate estão proibidos beijo, abraço e toques; nudez e dança sensual por parte das meninas também. Isso, claro, dentro da boate. O dohan, encontro entre hostess e cliente fora da kyabakura, é prática comum. Ambos saem para almoçar ou jantar e, não raro, o sexo acontece. “Eu fiz dohans, mas nunca fiz sexo com clientes”, garante Midori, que preferiu não revelar a identidade por saber que a profissão, apesar de popular, é mal vista pela sociedade japonesa. “Não sou prostituta”, ela insistiu quase uma dezena de vezes durante a entrevista.

Em menor grau, as antepassadas gueishas também inspiram uma certa dúvida popular. “As pessoas confundem gueishas com prostitutas, mas elas não são”, defende Midori. Quanto às hostess, ela confirma as especulações, mas faz uma ressalva. “Não vou negar que algumas meninas se prostitutem, mas isso não é a regra da profissão”. A prostituição, ela diz, acontece não tanto nas kyabakuras quanto nos clubs, boates onde trabalham as hostess mais velhas, entre 30 e 40 anos, que atendem os clientes na faixa etária acima dos 50. “Lá as hostess são mais experientes, mais cultas, mas não são tão bonitas e por isso ganham mal. Para ganhar mais algumas oferecem sexo”. Para a profissão de hostess, Midori garante que o sexo não é necessário. “Os homens se encantam com as meninas e, ao mesmo, tempo se frustram porque não podem tê-las. Por isso voltam com frequência para terem a sensação de que as possuem”, ela diz, deixando claro que a hostess, assim como a tradicional gueisha, carrega na beleza o poder de servir os convidados ao mesmo tempo em que os submetem.

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