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Archive for agosto \17\UTC 2010

chuva

Joguei o vaso de babosa, os discos, revistas, fotos, quadros, a vitrola portátil, a tv laranja, joguei as roupas, peça por peça, depois aos bolos; joguei as panelas, os pratos, os copos, talheres, joguei os panos de prato e eles planaram e se estenderam no vento ao próprio gosto, uns abertos, outros fechados em si mesmos. Joguei os livros e no ar eles se abriram como se armassem o voo que sempre quiseram voar, garças brancas, amareladas, garças de inúmeros sulfites sobrepostos como asas de múltiplas gramaturas e histórias, garças tatuadas de linhas negras, paralelas, grafadas com Times New Roman corpo 10. Joguei garrafas de água, latas de atum, pacotes de arroz e açúcar e cada um deles gritou ao seu modo assim que rompeu o lacre que o mantinha preso ao destino que alguém ao acaso lhe impingiu – embalagem e embalado. Depois do grito – Splash! Plaft! Pof!, estavam livres para ser sem a existência do outro: garrafa de um lado, água do outro; lata de um lado, atum do outro. Joguei a bicicleta, a mesa de centro, o fogão de duas bocas; joguei a cadeira de trabalho, o computador com o trabalho inacabado num email recém-escrito e não enviado e joguei o porta lápis de plástico que portava, então, só canetas que não funcionavam. As bocas abertas nos prédios vizinhos invejavam a liberdade das coisas inanimadas que se desvinculavam de mim e se desconjuntavam e se esparramavam livres ainda no espaço; as bocas abertas invejavam meu desprendimento daquelas coisas que eram as mesmas coisas que as mantinham atadas àquelas caixas onde elas, e as coisas, viviam. E das bocas abertas eu invejava seu apego às coisas que era, em segredo, proteção contra o desprendimento filosófico e encarnado capaz de fazer, além de coisas, pessoas voarem do oitavo andar.

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ratos

Ratos e mais ratos saíam de dentro do meu armário. Ratos pequenos, minúsculos, que faziam um barulho diminuto e fino enquanto caíam numa cascata de pêlos brancos da prateleira mais alta do móvel. Eles não encontravam a luz do corredor comum entrando pela porta aberta do meu apartamento. Davam cabeçadas no batente e retornavam para o meio da sala a correr em círculos, no escuro, como aqueles carrinhos de controle remoto bate-volta. Um rato grande e gordo que respirava alto e tinha voz de gente mordeu e arranhou minha perna. Quando senti a dor dos dentes dele entrando na carne da minha panturrilha peguei o rato pela garganta e disse ´´escuta aqui, seu rato filho da puta´´, e fui colocando ele pra fora de casa. Mas antes de despejá-lo peguei a pá de lixo, deitei o rato no chão e com a lâmina da pá acertei o bicho no meio, fazendo força pra parti-lo em dois. O rato parecia morto – mas estranhei que não saiu sangue nem tripas dele. Eu o deixei estirado de bruços na cozinha, entre a pá e a vassoura, levantei e voltei à cama pra continuar meu sono – era madrugada. Quando percebeu que havia me enganado, o rato se levantou e saiu correndo pela porta da sala, rumo ao elevador. Percebi a fuga e gritei pro meu vizinho que é policial ´´a algema! me dá tua algema!´´. O vizinho me deu a algema e eu corri o mais rápido que pude atrás do bicho. Alcancei o rato ainda no meio do corredor, pulei nas costas dele e o imobilizei. As patas dianteiras dele já não eram patas, mas umas mãos imundas com unhas grandes e encardidas. Manietado e em pé, o rato já não era rato, mas um desses meninos sujos e loucos de crack que vejo todos os dias zumbizando em frente ao Copan. Enquanto eu o conduzia aos empurrões ao elevador, uma mulher toda trôpega cruzou nosso caminho. O nariz dela estava cheio de cocaína, o rímel derretido até às bochechas, a calça aberta e a calcinha de tela deixando aparecer a xoxota e a virilha mal depiladas. Havia uma exposição de pôsteres feitos em xilogravura nos pilares de cada andar do prédio, e os rostos estampados nos pôsteres eram de moradores do Copan que eu conhecia. Quando chegamos ao térreo, o menino virou rato de novo e escapou da algema e de mim, e se meteu numa fresta escura sob o balcão da vídeolocadora que fica em frente à saída do prédio. Esse texto é só pra avisar o Paulo, dono da vídeolocadora, que tem um rato nóia solto no estabelecimento dele.

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