Feeds:
Posts
Comentários

Archive for maio \13\UTC 2010

foto 7

Aquilo durou dois dias, pouco mais. Aquela força toda, alma de bicho. Depois acabou. Virei gente de novo. Minguada e fraca. Caí semimorta à porta da Igreja do Desterro. A igreja em pé; eu mais cravada no chão do que ela. Os sinos tocavam, ouvi três ou quatro badalos e caí. Abri os olhos e alguém já me carregava nos braços, um homem, e me colocava estendida no altar, uma vela acesa em cada ponta, crucifixo de prata no meio, o metal frio encostando na minha cintura. A fumaça de incenso nublava a igreja toda e deixava a cara do São Sebastião opaca. Reconheci pelas flechas. O homem que me carregou até lá se afastou do altar de um jeito esquisito, uma reverência, a cabeça baixa, não me olhava, e foi se juntar aos homens e mulheres sentados lado a lado, mudos, na primeira fileira de bancos da igreja. Gente. Era a primeira vez desde o desmundo que via meus iguais vivos. Nem tão iguais. Todos queimados, as caras despeladas, derretidas, o tórax e braços enegrecidos de poeira e fogo. As mãos de alguns, juntas, entrelaçadas, pareciam romãs gigantes, róseas e doloridas. Eu sem me mexer, uma natureza morta sobre o altar – mas eu tinha mais pele e viço que todos ali, uns dez ou doze que juntos não teriam couro pra um só corpo. Minhas pálpebras semicerradas e meus olhos revirando nas órbitas procurando os olhos do homem que me levou até lá pra ele me explicar o que era aquilo tudo. Mas ele não me olhava. A mulher sentada numa das pontas do banco levantou e pegou o turíbulo ainda fumegante que estava atrás do altar, às minhas costas, e começou a incensar a igreja toda. Primeiro as laterais da nave, depois o meio; incensou as mãos deformadas da gente que esperava por ela com os braços estendidos. Depois me incensou, e o entorno todo do altar. Arrastou uma cadeira pra perto de mim, subiu nela, e com o turíbulo passeava sobre meu corpo fazendo chegar fumaça até dentro dos meus olhos. São Sebastião era já uma nuvem só, e também a mulher, e as velas, o crucifixo. A igreja toda sob espessa névoa. Sufocada pelo incenso desfaleci outra vez. Ouvi que se levantaram e se aproximaram do altar. Umas mãos ásperas, outras úmidas, foram grudando no meu corpo com força, dos pés ao pescoço. Atavam-me ao altar com as próprias mãos. Eu tinha consciência, mas não energia. Minhas pálpebras coladas como num sono profundo. Eu querendo acordar, mas meu corpo não. Até que uns dentes cravaram no bico do meu seio direito com uma força descomunal e eu acordei com o som do meu próprio grito. No meio da névoa, a cabeça erguida num tranco, descobri meu sangue e o bico do meu peito entre os dentes do homem que me deitou sobre o altar. Com a língua ele botou meu mamilo pra dentro da boca e o mastigou feito chiclete. Meu segundo grito não saiu, nem o terceiro. No quarto, também surdo, deixei cair a cabeça de novo no altar. A dor vinha em ondas concêntricas, todas partindo do meu bico que já não existia. Meu corpo estava colado à força naquela placa de mármore pelas mãos que me sujeitavam, e entendi, de repente, que eu era a oferenda viva daqueles dez ou doze bichos sem pele.

Anúncios

Read Full Post »

ato III – água

A perfeição ela encontra aqui: um ônibus, a estrada, uma água de coco em caixinha, a ponta de uma coxinha seca e um seriado cliché no computador. No mais, tudo é distração, como apertar por baixo da saia a bunda da menina que a acompanha na poltrona ao lado e a qual vem comendo amiúde. Quando a menina muda de posição na poltrona, ela aproveita e muda também o curso da mão embaixo da saia dela. Sem ninguém no ônibus ver, ela vasculha a xoxota da vizinha com dois dedos em gancho, escavando as paredes moles em busca da ranhura certa. Encontra. Em três minutos o líquido escorre e ela o represa por baixo, com a mão em concha, pra tomá-lo em seguida pingando da ponta dos dedos. Com a língua hidratada ela fica satisfeita como um trabalhador braçal que bebe o primeiro gole d´água depois da lida.

Read Full Post »

ato II – coxinha

Entre os peitos, por fora, o vestido dela cheira a coxinha. Não cheira, não!, ela contesta, toda putinha. Se ouriça, galo de briga. Deitada no chão, levanta a cabeça pra rebater a calúnia na cara da outra, mas se larga e se espalha em seguida porque o álcool da festa pesa mais que seu corpo. É um prosecco muuuito bom, viu? Da sua boca preguiçosa saem palavras numa mono-sentença: eunumtônãoeunumtôbêbadanão, e seus olhos fechados enxergam a embriaguez por dentro. Pra ter razão, ela tira o vestido ainda deitada, joga-o longe e oferece os peitos ao nariz da outra. Ela, apontando o próprio tórax: e agora, tem coxinha aqui, tem? A outra: tem não, só tem peito. Posso? Ela: pode o quê?, e a outra: lamber. De repente ela se ergue do chão. Em pé, maior e bélica, esconde os seios com os cabelos e alveja: Não! Só porque você disse que tão cheirando a coxinha eu não vou mais deixar você pegar neles! Ela sobe as escadas em seguida, em direção ao banheiro, pisando com força os degraus querendo que sejam coxinhas pra ela assassinar. Vai tomar banho?, a outra pergunta. Shhhmrahmrmhum, ela resmunga lá do alto. Faltando um passo pra perder a mulher de vista, ela se vira e a encara. A outra: posso? Ela: pode o quê? A outra: passar sabonete na tua xoxota? Ela: pode. A outra: e no teu peito? E ela, exalando prosecco, içando a mulher escada acima: pode também.

Read Full Post »

ato I – prato feito

Os azulejos laranja do boteco carioca ao lado da rodoviária são da década de 70. Os garçons são de 60 e 50, o cozinheiro veio dos 40 e o cheiro de sebo da casa é anterior a todos eles e a eles sobreviverá. Só ela é que veio depois, de 1983. Mas essa casualidade não tira sua fluidez pra andar entre o que é velho e entre os velhos sem tropeçar. Eles, os velhos, gostam bastante quando ela chega. Suspendem por um segundo a viagem da pinga à boca só pra adorar as coxas dela e o mistério da virilha, bunda e xoxota que se escondem atrás de apenas três palmos de um tecido preto. Desgraçadamente, eles não verão aquele galhardo tríptico que nasceu em 83 e adora shorts. Pois não, moça? Ela quer a cerveja mais gelada e um PF gordo. Muito arroz, feijão, batata frita e um ovo mal frito, pingando. Não são onze da manhã ainda e ela repete o PF. O caldo de feijão que sobra no fundo da travessa de metal faz liga com a farofa e a gema mole impregnando as bordas do prato. O ventilador de teto dispersa o bafo carioca pros lados e pra baixo fazendo o suor escorrer mais depressa. Às onze em ponto ela pede a segunda cerveja. Gelada, posta entre as pernas, a garrafa amaina os calores do tríptico oitentista.

Read Full Post »