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Archive for março \18\UTC 2010

foto 6

Tinha um prado ali, onde o mato virou cinza. Era feio. Agora, morto, é feio. Mas tem um tufo de grama incólume que redime a feiúra. Uma, duas puxadas com a mão forrada por dentro e tenho comida. De perto, engrandecida, a grama tem uma penugem mínima no corpo, repelente, correndo ao contrário da língua. A folha em espada estoca o céu da boca e um amargo come as papilas pelos lados. O músculo rejeita, joga pr´um canto e outro a massa. Custa a passar a comida adiante. À força a garganta se abre e fecha sem olhar o que recebe, e o corpo inteiro estremece e grita que grama é ruim pra caralho! Mas passa. Comer, como rotina, não é grande coisa. Não era. Mas comer no desmundo é de cortar o coração. Isso tudo e ainda é um dia. E não termina, parece. Mais, se estende. Fim que é fim não acaba: se espreguiça, lânguido, pra sempre. O charuto, pelo menos, tá na metade. A mochila ficou pra trás. Eternizados. É bom pr´eu não ter pena, outra, de mais uma coisa chegar a termo sem eu dizer que sim ou que não. A bicicleta. Essa não acaba tão cedo por muito que eu a gaste em fuga. Pra onde? Pra lá e pra cá com os pneus no asfalto, escrevendo no solo à fricção da borracha um prólogo sobre o nada. Tô pelada ainda. Unha alguma da mão lascou. Do pé, sim. Uma cereja que enganchou no pedal. O joelho tem uma crosta de sangue. Melhor, que assim o corte lacrado não vira caldo pra bicho. O músculo da coxa estirou atrás. Tá puxando. Foi o sprint no bar, aquele salto, três, quatro lances num pulo, não dá, tem que ver isso, treinar, sei lá, pr´uma próxima fuga, uma outra gota, um bicho, gente, uma garrafa quebrando. Quebrando sozinha? Num lugar vazio? Mas quem? Quem poderia? Isso tudo. Não acaba. Se já acabou! A barriga tá vazia de grama e cheia de ácido gástrico. O fim alonga braços e pernas. E é tudo pensamento besta pra desviar a mão que ainda cava minhas tripas pelo meio, afastando todas, tubo por tubo, pros lados. O epicentro da fome fica atrás do meu umbigo.

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foto 5

A negra magrinha de cabelos curtos chegou em casa toda puta largando o pacote do açougue em cima da mesa e brigando comigo e me dando tapas de leve na nuca e perguntando sem querer saber a resposta por que eu havia saído descalça daquele jeito bem no dia do fim do mundo?!. Eu disse ´desculpa preta mas perdi meus sapatos pr´uma gota que caiu bem em cima deles, aqui ó, tá vendo?´, e ergui o pé direito até a altura do ventre da preta que já quase me lembro como se chama, quase me lembro, sim!, se chama Cida a negra magrinha de cabelos curtos e toda espigadinha como dizia minha avó. Cida pegou meu pé como se ele fosse um cacho de uvas muito delicado e o aparou por baixo com a mão em concha cuidando pra que nenhum movimento brusco terminasse de arrancar a pele que estava toda desbeiçada pendendo do calcanhar feito casca de tomate cozido. A gota de sol teve efeito de napalm e o estrago só não foi maior porque a bota ortopédica branca que eu usava no dia estava dois números acima do meu e foi justo naqueles dois números extras na ponta que a lava caiu primeiro me dando três milésimos de sorte pr´eu tirar as botas antes que a lava comesse meus pés de uma vez. Eu nunca tinha visto a Cida chorar até aquele dia. Ela só ralhava comigo de brincadeira  e ria das minhas cagadas e de uma cagada em especial de quando comi escondida atrás da porta do quarto uns cinco ou seis batons vinte-e-quatro-horas de uma caixa com dez que meu pai trouxe do Paraguai pra minha mãe e a Cida adorava relembrar isso e me dar tapas na bochecha e me chamar de praga sempre que terminava de recontar a história mais pra si mesma do que pra mim. Eu nunca tinha visto a Cida chorar e isso aconteceu quando ela pegou meus pés queimados e viu de perto que eles nunca mais seriam os mesmos e que sempre haveria uma cicatriz neles a me lembrar que o mundo tinha acabado bem antes  d´eu poder conhecê-lo. Cida ficou muito compenetrada quando chorou. O tórax dela estremecia pra dentro, sufocado, querendo represar o manancial de tristeza que se formava e ela não sabia onde desaguar. Depois de um suspiro muito profundo Cida voltou a ser Cida de um jeito que eu entendia: me deu um tapa de leve no rosto me chamou de praga e foi até a cozinha pegar azeite e vinho e pano de prato pra apaziguar minha ferida do jeito que ela tinha aprendido com o bom samaritano na bíblia que lia todos os dias enquanto esperava a água do arroz secar. Só quando a Cida entrou na cozinha e eu olhei pra ela de costas é que vi que da ponta da cabeça até a cintura ela estava completamente queimada e sem pele, como se a lava, em vez de gota, fosse uma língua que lambeu a Cida de cima até embaixo arrancando dela todo o negrume da pele preta. Cida estava cor-de-rosa. E devia arder infinitamente. Mas ela não deu um pio sobre seu azar. Ungiu meus pés com azeite e vinho, enrolou os dois  em panos de prato com água fria e voltou pra cozinha a preparar os peitos de frango que comprou pra me fazer grelhados com arroz feijão purê de batata farinha e banana. A preta que me azeitava a infância nunca mais saiu de lá.

Quando acordei no chão do circo eu já não tinha cinco anos de idade, mas trinta. Meus pés estavam intactos, mas o mudo lá fora não. A Cida é a quinta foto de um sonho que não se revela.

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foto 4

A criação aniquilada merecia uma metáfora: uma lona azul e branca, vagabunda, cobrindo bichos vivos do lado de dentro e exilando domadores mortos do lado de fora. O circo permaneceu em pé, mas os circenses não. Público não havia – era segunda-feira quando o mundo acabou, dia de folga no Super Trupe Imperador. Nenhum bicho se manifestou quando entrei na ala das jaulas. Eram dezenas, com macacos, elefantes, tigres, cachorros e cavalos, todos em silêncio. Irmanamo-nos à custa da misericórdia filha da puta que nos manteve vivos. Àquela altura éramos imortais, já que nem o fim tinha sido bastante pra destruir nossa carne dura. Atrás de uma das jaulas anunciava-se um pé humano, inteiro, de um corpo deitado de bruços. Aproximei-me. Pela bunda e coxas lisas, era mulher. Fora poupada da gota de sol, mas morrera, sei lá como. Virei o corpo de barriga pra cima. Era mulher mesmo, com barba e bigode postiços, e já fedia. Os cabelos estavam empastados, tinha uma franja à altura da sobrancelha, e uma boca entreaberta, carnosa, os dentes secos e os olhos arregalados. A barba descolava pelas costeletas. Um macaco levantou-se e caminhou de uma ponta à outra da jaula. Me olhava como se implorasse. Pela mulher ou por mim? Pedia. Fome? Coloquei a cabeça da mulher no meu colo e encostei a minha cabeça numa pilastra de madeira. O mundo poderia acabar repetidas vezes, infinitamente, que nada seria mais forte do que o primeiro cagaço de fim absoluto que eu acabava de sentir. Era tão forte que eu já estava morta antes de morrer. Um ruído escapou da boca da mulher. Um arroto mínimo. Os gases que ainda estavam nela saíam pelo orifício maior. Aproximei meu ouvido pra perceber melhor o ranger de tripas. O macaco que me olhava mais de perto gritou, agarrou-se à jaula e a chacoalhou ferozmente. Os outros dez ou quinze símios fizeram o mesmo, e dispararam uma rebelião encarcerada. De repente, o Super Trupe Imperador reviveu aos gritos, safanões de grades, rugidos e exasperações da fauna remanescente. Fiquei atordoada. Um frio paralisante na barriga, pernas e braços. Amoleci e enrijeci num segundo. Lembrei-me da criação em estado natural, e viva, minha família e amigos. Mas já era tarde. Colei minha boca na boca da morta, com força. O bigode dela entrava no meu nariz. Meu corpo sem roupa colou, na horizontal, no corpo dela, em maiô violeta. Os macacos atiravam serragem em mim. Meu corpo cada vez mais teso, igualando-se ao da morta, queria entrar no dela. Mordi sua boca, o nariz, a bochecha, apertei seus seios, as coxas. Encontrei um vão na cava do maiô esgarçado, entre as pernas, e meti a mão lá. Estava seco e refratário. Meti assim mesmo. Meu peso sobre seu ventre fez a mulher expelir os gases também pelo nariz. Os gritos dos bichos só cresciam. Fúria deles e minha. Comi a mulher. Comi a mulher com a mão. No fundo, eu queria gozar, não o corpo, mas a morte dela. Eu tinha inveja da morte dela. Programei a câmera pra disparar em 15 segundos a quarta foto. Voltei ao chão, na horizontal, minha cabeça entre as pernas da mulher barbada. A criação aniquilada merecia aquela metáfora: eu, imortal, bebendo a morte em violeta.

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