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Archive for fevereiro \22\UTC 2010

foto 3

Me excitava a ideia de ser um bicho. Sem banho. Amoral. Ignorante. Revirar casas e lixos e os corpos das pessoas nas ruas em busca de alento físico. Eu começava a sentir fome, sede e muito calor. Não havia explicação pra tara insurgente a não ser o puro instinto de sobrevivência que cada homem e mulher carrega dentro dos ossos. Diante do desalento material e da ausência de meios, eu era inimputável. O centro da cidade estava quase deserto. Restaram uma papelaria e um boteco. Só me cabia comer e beber do que havia nas prateleiras cheias de sebo do bar. Deixei a bicicleta e a máquina fotográfica à porta. Entrei. Moscas patinavam sobre finas películas de gordura espalhadas pelo balcão. Copos meio cheios e cadeiras caídas indicavam que os clientes saíram de lá às pressas, sem tempo de dar o último trago. Encontrei uma só compota de batata ao vinagrete em todo o bar. Tive ânsia quando senti o bodum azedo que saía dela. O paladar treinado me traía. Foda-se!, gritei. Era o que havia. Mastiguei a batata e fiz a pasta descer com água. Vomitei em seguida. Porra! Porra! Senti pela comida desperdiçada. Tirei a roupa toda pra baixar a temperatura. Eu estava mole. Fui até o salão de jogos no andar de cima, abri a janela e estirei meu corpo sobre uma mesa de bilhar. Meti a mão numa das caçapas e encontrei três bolas de um jogo não finalizado. Mirei num anúncio de refrigerante na parede e atirei duas bolas nele, insolente, uma depois da outra. Pensava onde poderia haver comida e secava o suor que escorria pela nuca. Ao erguer a terceira bola, ouvi um estrondo de garrafas se espatifando no bar. Rolei da mesa ao chão num segundo, desci as escadas aos pulos e corri derrubando cadeiras, mesas e copos até chegar à saída. Minha roupa ficara sobre o balcão. Pulei sobre a bicicleta em movimento, o selim ofendendo a xoxota nua, a câmera pendendo do guidão e quase enroscando no aro dianteiro. Pedalei em linha reta por uns dez minutos. Parei quando já não enxergava o centro da cidade atrás de mim. Estava num lugar ermo, destruído. Exausta. Só então reparei que sangrava bicas no joelho direito. O corte era profundo. Sem nenhum tecido pra limpar o sangue, meti a boca na fenda. O instinto mesmo parecia ter providenciado aquele talho pra me fazer ser o que devia ser: um bicho. Me alimentei com meu próprio sangue. A terceira foto não poderia ser outra senão a da minha boca derretida em vermelho.

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foto 2

Apaguei o Cohiba pela metade pro caso de me fazer falta à noite se ainda estivesse viva. A merda é que tabaco forte – ou em demasia – me irrita a garganta e eu esqueci disso. Passei as primeiras horas do fim do mundo com um ardor que subia até a metade do céu da boca. Fiz gargarejo com água do mar. Gosto estranho. Qualquer coisa de decomposição na água. Não aliviou nada, mas pelo menos o ardor me dava uma singular posse da normalidade: o mundo já não existia como antes, mas a irritação de praxe sinalizava que algumas coisas deviam estar intactas naquele cenário decomposto. A segunda foto foi capturada diante de uma casa à beira da praia, no fim da orla. Cinco porções de uma famíla encarvoada em fila, como se estivessem tentado entrar em casa quando foram atingidos à soleira da porta, um por um. Não tiveram tempo de meter a chave no trinco. Eu tive, e era só nisso que pensava enquanto registrava com a câmera a procissão dos cinco montes de cinzas. Por que raios eu tive tempo de entrar em casa e chegar ao porão antes de a gota cair no jardim bem onde eu havia passado? Alguém me desejava viva no meio dos mortos. Se isso fosse verdade, estavam expandidas minhas possibilidades de ser feliz: tudo o que me restava era continuar existindo fisicamente, respirando, e isso era mais fácil do que qualquer busca metafísica. Naquele novo contexto, os cabelos úmidos de maresia, os pés cheios de areia e a garganta em brasa me definiam mais do que a profissão que eu exercia, os livros que li ou as pessoas que amava dois dias antes de o sol derreter e reduzir a carvão todos os sonhos. Eu já não tinha sonhos. Eu era matéria e pura potência pra ser um bicho que vive do que é necessário. O fim do mundo simplificou minha existência ao me deixar como herança apenas um charuto, uma bicicleta e uma câmera fotográfica. Estava livre. Carregava minha vida junto ao meu corpo.

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