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Archive for janeiro \01\UTC 2010

foto 1

Eu me enganei quanto à forma como tudo aconteceria. O sol não se desprendeu de repente arruinando a criação num átimo. Lento e seletivo, o fim deu-se em pequenas gotas que se desprenderam do sol parecendo chuva, mas eram fogo puro endereçado a cada criatura: bicho, planta, gente e coisa, um por um atingido sem desperdício de lava. Do porão, eu ouvia um som crescente como o de lenha crepitando e engolindo buzinas, sirenes e os gritos de quem ainda buscava um lugar para se esconder. Em uma hora, havia apenas a lenha crepitando. Em dois dias, o silêncio seria quase absoluto não fosse o barulho das ondas do que restava de mar a duzentos metros dali. Até onde minha visão alcançava, havia sobrado a praia com sua areia cinza e achatada, havia sobrado uma bicicleta ainda nova no porão, uma réstia de café no bule, uma máquina fotográfica com filme e um charuto Cohiba. Do fim, sobrei eu, e talvez alguém mais entre toda aquela gente transformada em carvão que, ao contrário de mim, já estava morta para contemplar o fim quase absoluto da criação. Com odores de peixe, a brisa marítima amainava o cheiro de queimado que eu já havia sentido pelas frestas do porão logo que a chuva de sol começou. Talvez ainda existissem peixes vivos, ou talvez fossem reminiscências de oceanos intactos – era impossível saber onde mais o sol havia pingado e o quanto havia consumido do mundo. Subi até a saída do porão e abri a porta devagar. A sensação era a de um torpor de ressaca, como se eu tivesse destilado no corpo a pinga do mundo. Talvez por isso a consciência da solitude tenha entrado em mim sem doer. Esperando o desespero, o que encontrei foi uma fisgada de gostosa completude assim que o branco do céu entrou rasgando nos meus olhos. Um grito não diria do fim tanto quanto disse o suspiro que eu dei, único esboço de quando entendi, subitamente, que a realidade até então conhecida havia acabado de uma vez por todas, e o que restava ali adiante era outra coisa – um mistério, acima de tudo. Bebi o resto de café frio do bule, calcei meus chinelos, acendi o Cohiba e fui à praia com minha bicicleta e a máquina fotográfica pendurada no ombro. Pedalei ao longo da orla como fiz em todas as manhãs de verão como aquela. O cereja das unhas dos meus pés e mãos era o máximo de cor que meus olhos varriam por onde eu passava. Apesar de toda a negação cinzenta estendida ao longo da areia, não havia morte, não havia tragédia, não havia dor por perdas nem amores embargados que me fizessem sentir o fim como um fim. Pelo contrário, quanto mais desolada, tanto menos eu ficava de luto pela civilização perdida. Então a resposta não está fora – pensei. Por uma deferência ao que desconhecia, decidi registrar, até onde o filme durasse, as primeiras imagens do fim do mundo. No primeiro quadro, meu Cohiba, eu e as unhas cereja recortados diante do mar mais vazio. A criação era ainda mais bonita desfeita.

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