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Archive for novembro \16\UTC 2009

A gênese deste pequeno livro de perfeições é a que segue: no início era o nada. O tudo, puto de inveja com tamanha presença do vazio, resolveu aparecer de repente e por inteiro. Veio cheio de gás, arrebentando. Para evitar que a criação nascente explodisse, alguém disse: ´´faça-se o alprazolam´´, e o alprazolam se fez em drágeas de 2 miligramas. Era forte esse calmante, de abater cavalo. A criação, melindrada, tomou logo 8 unidades para evitar maiores desastres. Isso foi numa sexta-feira. No sábado, tomou outras 5. Foram dois dias de apagão quase absoluto. A criação ficou semi-morta, e, ao despertar no domingo pela manhã, foi atualizada por flashes involuntários – viu-se cortando o cabelo sabe-se lá em que salão, comprando roupas feito um robô, comendo empada com a boca mole, dormindo profundamente, riscando a pele, quebrando copos, babando, bebendo água com a ajuda de outrem, pegando ônibus à esmo sem chegar a lugar algum, pedindo a quem amava que lhe perdoasse e recebendo uma porta trancada na cara como resposta. A criação rodopiou, caiu, levantou, debruçou-se no parapeito e, prestes a saltar da janela, iluminou-se: decidiu viajar ao lugar de suas melhores lembranças – Tupaciguara, em Minas Gerais. Lá, a criação instalou-se numa casa abandonada, a casa de sua infância branca, a casa já carcomida por traças e pela decomposição que acomete as coisas vivas. Achou lindo tudo aquilo e encontrou na morte a confirmação da vida ao revés. A criação viveu dois dias a sol, laranja e cigarro, tomou banho de caneca, dormiu em cama rota e aspirou, com ácaros e saudade, o passado que era um doce sépia. A criação andou nua pelo jardim da casa à caça de bichos, musgo, terra e outras gratuidades orgânicas para compor a obra que aqui se apresenta: sete histórias, sete pessoas, sete Perfeições Possíveis de uma existência. Por causa delas, a criação quebrantada foi capaz de se redimir. Por agora.

PERFEIÇÕES POSSÍVEIS

EUGÊNIA

– Faremos outro?

– Não.

– E se este não vingar?

– Então faremos outro.

Como não vingaria se estava tão vivo? Eugênia se virou de bruços e adormeceu ao lado do pai do bebê. Sonhou que os próprios pais, cirurgiões à paisana, tiravam-lhe a criança por entre as pernas com garfo e faca. Acordou com o primogênito morto e a cama cheia de sangue da cintura para baixo. Não sabe, até hoje, se os pais tiveram culpa nisso – era tudo tão real, sentia o cheiro do éter e o frio do garfo a lhe roçar as coxas –, ou se, por um desejo secreto e impronunciável, o destino mesmo se encarregara de lhe tirar o filho que ela talvez ainda não soubesse manejar, ou, ainda, se o mesmo destino, valendo-se de humor negro, tentasse lhe confirmar a vida do filho (sim, vingará) usando o contraste da morte.

Eugênia despertou naquele dia, lavou-se e vestiu as roupas da mãe, mais alta que ela, para que as mangas e barras sobressalentes lhe cobrissem o frio que sentia nas extremidades depois da morte de sua própria maternidade. Permaneceu o dia inteiro no quarto, só, desenhando perfeições possíveis nas paredes – mulheres sem seios, casas sem janelas, crianças com um dedo a mais em cada mão ou um terceiro olho na testa. Conforme o frio ia cedendo, ela cortava alguns centímetros das extremidades da roupa. À noite, Eugênia já não vestia nada, e saiu à rua, outono, desmãe de outrem, desfilha dos pais, mãe de si mesma. Não precisou fazer outro. Eugênia mesma vingou.

MODESTO

De segunda a sexta, Modesto levantava muros e aplainava pisos. Gostava. Aos sábados, odiando, varava a noite vivendo para o que nasceu sem querer: dar a conhecer ao mundo o mundo além da física. A contragosto, vestia sua melhor camisa de viscose, sapatos de camurça, regalava-se um púlpito imaginário e o erguia num canto do bar da estação de trem, onde, entre uma cerveja e uma porção de tremoço, cimentava na consciência dos ouvintes as perfeições – ou verdades sem rebarbas, como as definia – que trazia bem engendradas na cabeça. Eram muitas as perfeições que anunciava, tanto mais as místicas. Uma das últimas reveladas foi a da carambola como seminal e subliminar símbolo do judaísmo. ´´Corta ela no meio e tá lá: seis pontas, estrela de Davi!´´. Modesto não procurava as perfeições, eram elas que o encontravam entre um reboco e outro, com o sol lhe crestando a cabeça e o cal pesando nos cílios. E uma vez pego pelo calcanhar por uma dessas diabas (era assim que ele as chamava), Modesto não a abarcava, só a aceitava como lhe vinha, imperativa. Eram tão súbitas e grandes e avassaladoras as perfeições que o assaltavam que ele sentia que se não as desaguasse no sábado seguinte à descoberta seria invadido, à primeira luz do domingo, por um gás de potência infinita entrando-lhe direto pelo reto e alguém, com as mãos muito fortes e muito grandes, tapando-lhe todos os demais orifícios até ele…

Cansado da eleição à qual não se candidatara, Modesto venceu os escrúpulos e resolveu fazer o teste num sábado de Finados. Mais que o direito de apenas erguer muros, ele requeria, rebeldemente, o unguento da mediocridade. A perfeição a ser revelada naquele sábado de Finados dizia respeito à morte, precisamente. Comeu tremoço sem casca, com casca, pediu a terceira garrafa de cerveja, a quarta, a quinta, pediu salaminho, ganhou tempo apertando entre as coxas o escroto envolto num cilício improvisado com arame farpado – a dor era para lembrá-lo de que, se não rompesse com o compulsório anúncio da perfeição naquele sábado, jamais teria forças para fazê-lo outra vez, e o temor do gás infinito a lhe violar o reto iria persegui-lo até seus últimos dias tremulamente vividos. Uma drosófila, que nada tinha a ver com as perfeições de Modesto, batia asas há meia hora no fundinho de cerveja choca que ele não bebia para avantajar o tempo e pensar num escape infalível caso alguém se aproximasse dele, de fato, com um cilindro de gás e uma mangueira. Drosófila petulante. Seguia lutando pela vida cinquenta, setenta, noventa minutos depois que Modesto iniciara a introdução sobre a perfeição daquele sábado: a morte. O sábado, porém, já era passado há mais de cinco horas, a drosófila que Modesto via no copo não era a primeira, mas a oitava candidata a defunta que, incauta, juntou-se às sete antecessoras – e o copo, aliás, não era o dele; a garrafa que Modesto e seus ouivintes secavam já era a trigésima quarta e o estoque de tremoço, salaminho e ovinhos de codorna em conserva do bar da estação já estavam virando bolo alimentar e gases no ventre daquela gente. Gases, lembrou-se Modesto, profeta inebriado pelo medo às perfeições. Suou frio, apertou o escroto entre as coxas e sentiu a dor incrível do cilício transpassando a carne. Lembrou-se do futuro. Os primeiros raios da manhã de domingo tocaram as garrafas de pinga na prateleira do bar, e chamaram a atenção de uma meia dúzia que ainda mantinha os olhos abertos. Modesto, então, anunciou, todo molenga: ´´a perfeição de hoje, meus amigos, é que o sol nascendo é sempre belo, mesmo quando decide repousar seus primeiros raios nesse bar, que, na anatomia do mundo, corresponde ao cu´´. No copo de Modesto, a primeira drosófila a morrer não durou nem três minutos viva.

LÁZARA

Terrosa e farelenta, Lázara nunca está onde a colocamos. Dispersa-se. Está em um segundo, e, se bate um vento, já não mais a vemos… ou a vemos, aqui, ali, ali, ali e aqui de novo. ´´Não permaneço, desintegro-me e escapo por todas as frestas´´, ela diz. ´´Se estou, aborreço-me´´, completa Lázara, migalhando-se outra vez. Lázara jamais estará, e se um dia estiver, consistente e palpável, morrerá. Logo, Lázara, para estar, deve ser o que não é, inteiriça, o que significa, no contexto de sua vida, que a morte é seu único modo de permanecer.

FLAMENON

Flamenon Soares é o nome de um homem que nasceu na época em que chamar-se Flamenon, ou Eudóxia, ou Mixórdia da Silva não era uma afronta, mas uma possibilidade a mais de ser evocado pelo mundo. Flamenon tem bigodes, mãos, cabelos negros e uma série de casualidades que nada dizem dele, a não ser que é homem, que tem bigodes, mãos, cabelos, etc, etc. O que diz de Flamenon é o que ele não é, ou melhor, o que ele não se chama. Ele descobriu tarde, aos 60 anos, que chamar-se Flamenon, um dia, poderia se transformar num problema existencial. Ele tem vivido os últimos dez anos temendo que o evoquem pelo nome – e o evocam sempre, para seu desespero. E tudo porque alguém, um dia, perguntou-lhe o nome, ele respondeu e recebeu em troca: ´´Flamenon? Flamenon? Fla-me-non? Flaaaa-meeee-noooon??????????´´.

Com tantas interrogações a respeito da certeza mais encalacrada que tinha – o fato de se chamar Flamenon –, ele passou a duvidar de quem era, como era e se, de fato, seria possível existir alguém no mundo com uma credencial cuja propriedade mais saliente era, justamente, o oposto de todas as credenciais: em vez de trazer a gente para mais perto de si ao dizer seu nome, Flamenon, com apenas três sílabas, empurra-as dois passos para trás. Mas o grande mal de Flamenon não é seu nome, e sim a cidade onde vive, uma qualquer, dessas ideais. Se vivesse em Perfeições, onde tudo é furta-cor e mal passado, onde amor e rechaço são eletivos e onde, por lei, só está permitida a manutenção de uma única angústia existencial por pessoa, Flamenon seria o ser com mais ser de todos os seres. Isso porque, em Perfeições, as pessoas não se estafam tentando se perder de quem não são. Preferem, inclusive, não saber o que seriam se não fossem o que são, porque, se soubessem, certamente prefeririam, insaciáveis que são todos os dessa espécie, ser o que não são, e aí as angústias existenciais já seriam duas, o que está proibido por lei.

É evidente que Flamenon poderia ter sido registrado em cartório como Pedro Soares, mas também poderia ter sido nomeado Esdrúxulo Flamenon Soares, e sua angústia seria ainda maior. Então, em Perfeições, Flamenon simplesmente seria, sem angústias nem prospecções inócuas. Quando as leis específicas de Perfeições foram criadas, a miséria humana já estava prevista e foi contemplada. Por isso, nesta cidade, todo cidadão têm diretio à ignorância, e não há quem não faça uso dela para angariar muitas benesses existenciais.

GILSEMINA

´´Ai, que gozo incrível esse teu, Gilsemina! ! Você perde a fluência, entorta a boca e urra sufocado de um jeito que acho tão lindo… Gilsemina, você me comove porque goza como quem sofre um derrame´´. A última vez que sussurrou essas palavras ao ouvido de Gilsemina, Aristides ainda conjugava os verbos nas frases, tinha a boca firme ao falar e seu lado direito do corpo se movia com naturalidade, em compasso com o lado esquerdo. E Gilsemina, nessa última vez, ainda gozava com Aristides e amava que ele amasse suas incongruências sexuais.

Foi quando decidiram passar um fim de semana às margens da cachoeira Dasbenesses, no interior da cidade. Aristides, mortalmente apaixonado, achou que fosse um bom galanteio presentear Gilsemina com o exemplar único de orquídea que encontrou no alto da cachoeira, isolado, a um passo da queda d´água de 80 metros. Assim que dobrou o joelho direito para alcançar a flor, uma pedra sob o pé de Aristides cedeu, e ele caiu como se amasse, fulminantemente e para sempre, os 80 metros. Voltou à vida um mês mais tarde. Gilsemina esperava por ele em casa. Na primeira noite em que se amaram depois do acidente, foi a vez de Aristides entortar-se todo ao gozar. Ele guinchava, não urrava, e a boca toda dura parecia querer encontrar a nuca pela esquerda. ´´Gozo, Gilsemina, teu, sufocado, lindo´´, disse Aristides, babando pelos cantos da boca na orelha da esposa. Amava-a tanto. Ela o deixou dois meses depois. Na carta de despedida para Aristides, Gilsemina escreveu que era doloroso demais para ela amar alguém que não conjugasse verbos.

EXPEDITO

´´A melhor realidade que existe é a que está posta, porque o presente é o único tempo possível´´. Expedito acenou com a mão direita, desceu do coreto e passou entre a gente. Houve quem anotasse a frase, houve quem o tocasse, quem tentasse lhe roubar um fio de cabelo por relíquia ou pedisse à mãe de Expedito que lhe desse um fiapo de sua roupa para usar de amuleto. Houve também quem lhe atirasse um tomate na nuca e o chamasse de impostor: ´´um moleque de dez anos não pode ter nascido pronto! Impostor! É um anão adulto!´´, gritou o homem septuagenário, pronto a atirar o segundo tomate.

ASSUNTA

No santinho pela causa de beatificação da irmã Assunta, contavam que em vida ela não fez outra coisa que não penitenciar-se para atingir a perfeição de Cristo. ´´Despertava sempre antes do alvorecer, rezava as preces previstas pela ordem, assistia à Santa Missa de joelhos, comungava, fazia ação de graças e permanecia em jejum da manhã até o início da noite pelo menos quatro vezes na semana, sem água sequer. Com um látego feito de cizal endurecido com rebites cortantes nas pontas, ela se penitenciava nas coxas e nádegas durante o tempo de três Adoro Te Devote cantado em gregoriano perfeito. Sangrava deveras´´.

O que não estava dito no santinho, porém, é que irmã Assunta penitenciava-se com intenções de escárnio, e não de devoção, a fim de confundir a apreciação do povo besta que me toma por santa – assim fora escrito por ela na primeira página de um diário enterrado num rincão de sua cela (o diário foi descoberto cinco meses antes de a causa para a beatificação ser suspensa). Irmã Assunta profanava propositalmente as coisas de Deus para ser acolhida por Cristo na sua miséria mais pura. ´´A admiração alheia me enche duma sincera soberba, e a dissimulação consciente revela a mim mesma quão suja sou. E é por esta soberba e sujidade, assumidas como defeitos irrevogáveis e amados por mim, que Cristo estenderá sua maca divina para me resgatar´´, escreveu a religiosa.

Irmã Assunta era uma leviana, de fato, soberba, mentirosa e avarenta, destemperada, egoísta e lasciva, mas não menos santa, porque a perfeição da qual se valia era ao revés. Era ela quem dava a Cristo a honra de acolher mais uma enferma nos céus.

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