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Archive for outubro \17\UTC 2009

lama

Os seios dos quais era devoto estavam mais rijos nas mãos. Desobedeciam a gravidade e a pudicícia, macios pêssegos, galhardas cerejas pendentes que só se rendiam ao calor da língua que as degustava. Ele a olhou entre os olhos com um fulgor inédito, sorriu-lhe e disse: su-a-va-ga-bun-da. Em seguida, deu-lhe um murro no meio da boca, fazendo voar seus dois incisivos centrais. As mãos e a língua não eram as dele.

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lodo

Que terão desenhado naquele corpo os bichos-geográficos nele instalados? Um cachorro da raça pinscher, uma escadaria, um sofá, reticências, uma catedral sem pároco nem sacrário, uma criança enrugada que canta em falsete. Quanto engenho para uma larva migrans. Por fim, os bichos-geográficos terão desenhado um pedaço de carne grande e disforme, coração dilatado com micose. Sob as ordens da minha mão terão desenhado o amor que verto: nódoa verde que não se lava nem com as águas de um dilúvio. Como as larvas, meu amor é sujo e inoportuno.

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um véu e duas rodas

Alema, Anisah e Bushra

Em alguns países, o islamismo impede que mulheres andem de bicicleta. Por isso, Alema, Anisah e Bushra, londrinas filhas de muçulmanos, cresceram sem saber pedalar. Hoje, mesmo sob os olhares reprovadores, circulam orgulhosas em suas magrelas. Alema Akthar é uma das centenas de filhos de bengaleses nascidos na capital inglesa. Muçulmana praticante, ela tem 19 anos e, em meio às modernidades com as quais convive em Londres, toca um curso no mínimo curioso – para não dizer revolucionário. Depois de anos com uma inquietação no peito e nas pernas, resolveu não só aprender a andar de bicicleta, tarefa proibida para quem segue os preceitos islâmicos, mas também ensinar outras garotas como ela a pedalar.

Fez questão de me encontrar para falar sobre suas aulas antes que eu entrevistasse qualquer de suas alunas. Começou dizendo que seu curso existe há quatro anos em Londres e já ajudou mais de 300 muçulmanas entre 18 e 65 anos – a maioria imigrante de Bangladesh, Índia, Irã e Paquistão – a pilotar uma bicicleta. Por causa das crenças patriarcais da cultura daqueles países, muitas mulheres asiáticas (e mesmo as inglesas que nascem em famílias de imigrantes) estão imersas numa realidade de repressões e imposições.

Na Índia, por exemplo, meninas são forçadas a casar ainda crianças, são alijadas da escola, do convívio social e, porque não podem trabalhar, dependem financeiramente do marido e dos filhos homens. No Irã, mulheres que protestam em público por seus direitos, mesmo que pacificamente, não raro são agredidas pela polícia, presas e julgadas pelos crimes de violação à segurança nacional e à propaganda contra o governo. Em Bangladesh, uma mulher que recusa o flerte de um pretendente corre o risco de ter o rosto desfigurado pelo ácido que o próprio lhe atira como vingança; em outras ocasiões, pode ser vítima, mesmo na Inglaterra, do chamado “assassinato de honra”: ao negar um casamento arranjado ou se apaixonar por um homem que não tenha sido aprovado pela família, é morta pelo próprio pai ou outro parente do sexo masculino.

EMANCIPAÇÃO
Uma faceta, digamos, mais “prosaica” da cultura patriarcal de alguns países asiáticos está relacionada ao exercício físico. As mulheres são “desaconselhadas” a andar de bicicleta e praticar outros esportes quando atingem a adolescência, e isso é regra até o fim da vida. Porque esporte não é coisa para mulheres. Simples assim. A própria Alema só aprendeu a pedalar aos 16 anos. Nunca foi proibida pelos pais, mas jamais viu as mulheres de sua família pilotando uma bicicleta. Há apenas três anos ela ousou pôr as rodas nas ruas e conseguiu ir até mais longe que suas iguais: submeteu-se a treinos específicos de ciclismo e tornou-se uma instrutora qualificada. “Se eu posso fazer isso, imagino que outras meninas possam também”, diz, fiando-se no bom senso de pais como os dela, que, após absorverem a cultura inglesa, não se opuseram à “emancipação” da filha.

Jagonari, que significa “mulheres, despertem”, é o nome do centro cultural onde Alema trabalha e que oferece, além do curso de ciclismo, capacitação e alfabetização para mulheres da comunidade asiática concentrada em Whitechapel, bairro londrino povoado por imigrantes praticantes do islamismo. “Elas
precisam ficar em casa cuidando dos filhos enquanto os maridos trabalham e quase não têm vida social. O Jagonari é um lugar bilíngue, onde elas aprendem inglês, exercitam-se e interagem com outras mulheres”, explica Alema. Financiados com verbas do governo inglês, esses cursos são gratuitos para as alunas da comunidade. O de ciclismo ainda oferece empréstimo de bicicleta, mesmo após o fim do curso.

CORES DISTINTAS
Alema, em nossa segunda entrevista, desta vez realizada num parque, usava um véu cinza que ocultava quase toda a testa, metade das bochechas, pescoço e até os cantos dos olhos. Sob uma jaqueta parda, ela vestia um jilbab, a túnica negra que cobre as muçulmanas até os pés. Anisah e Bushra usavam seus véus – mas não jilbabs – nos mesmos moldes que Alema, porém, ousavam nas cores: o véu de Anisah era violeta vivo, o de Bushra, azul-celeste. Enquanto papeávamos, uma dona de casa bengalesa de 38 anos aproximou-se, atraída pelas meninas de véu, suas iguais, montadas em reluzentes bicicletas de alumínio. Alema perguntou-lhe se queria pilotar. A mulher riu e disse que não. Desconversou, mas admitiu que, provavelmente, o marido não aprovaria. “Você viu? Ela estava interessada, mas ainda não tem coragem. Isso é porque está em Londres há menos de seis meses. As mulheres imigrantes, depois de uns dez anos aqui, tornam-se muito mais livres”, disse Alema.

Uma década parece muito para que uma mulher, ali pelos seus 40 anos, conquiste autonomia para aprender a usar uma bicicleta. Alema, Anisah e Bushra, por serem inglesas, “emanciparam-se” antes. Talvez por terem nascido num ambiente tão díspar daquele de onde seus pais vieram, as jovens ciclistas não têm ideia da importância de suas pedaladas. As meninas do Jagonari desfazem preconceitos, redefinem comportamentos, transformam o mapa social de onde vivem e reconquistam liberdades básicas para suas iguais mais velhas. Quando vestem seus véus e jilbabs e montam em suas bicicletas, estão incitando nada menos que uma histórica revolução sobre rodas.

ENQUANTO ISSO, NO BRASIL.
Se o sheikh Mohamad Al Bukai fosse casado, não veria problemas em sua esposa andar de bicicleta. Nascido na Síria, há dois anos ele vive em São Paulo e é líder espiritual da mesquita do Pa­ri, uma das maiores do Brasil. Para ele, as res­trições impostas às muçulmanas em alguns países não são totalmente
fundamentadas na religião. “Trata-se de política, uma decisão de governos extremistas confundida com ensinamento religioso pelos leigos. Imagine se existia bicicleta quando escreveram o Alcorão”, exalta. A interpretação do livro sagrado muçulmano explica por que mulheres de uma mesma crença têm liberdades tão distintas em diferentes partes do mundo. Alia Fayd, 17 anos, aprendeu a andar de bicicleta com os pais, libaneses que migraram para o Brasil. A tia de Alia, Nazek AlAttar, 47, se lembra de uma infância de pedaladas na Síria. Elas são exemplos da comunidade muçulmana brasileira, que tem cerca de 30 mil pessoas*. “E, em sua maioria, é formada por turcos, sírios e libaneses, vindos de países bem menos radicais”, completa o sheikh. Não é o que acontece no Reino Unido, onde a maioria dos mais de 1,6 milhão de adeptos**, que fazem do islamismo a segunda maior religião de lá, é imigrante de locais considerados mais extremistas, como Paquistão (320.767 imi­grantes), Bangladesh (154.200), Irã (42.377), Iraque (32.251) e Afeganis­tão (14.890)***. [por Paula Rothman]

*Último Censo do IBGE, de 2000, apontava 27.239 muçulmanos. **2001 Census England and Wales. ***Institue for Public Policy Research, do Reino Unido.

Reportagem publicada na ed 86 (abril/09) da revista TPM

Foto: Marina Chevrand

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Emicida

Numa lanchonete da rua Marconi, no miolo do centro de São Paulo, Leandro Roque de Oliveira, de 23 anos, pediu uma vitamina mista. Quando o garçom colocou a bebida na mesa, uma surpresa: o líquido preenchendo o copo era cor-de-rosa-chiclete-de-morango-vivo, e não aquele laranja lívido do mamão que dá cor às tradicionais vitaminas mistas. E aí, vai beber assim mesmo?, perguntei. Claro!, respondeu Leandro, sem reticências. Com ele não tem tempo (nem vitamina) ruim. Aprendeu a ser assim no fim da década de 80, quando, aos quatro, cinco anos, sentia umas pontadas de fome e, a fim de acalmá-las, frequentava cultos cristãos no bairro pra descolar algo de comer depois da pregação do pastor. A comida era pouca em casa para ele, a mãe (desempregada à época), o pai e os três irmãos. “Pra qualquer santo que desse comida eu tava rezando”. Rezando e cantando: foi pra Jesus que Leandro fez suas primeiras rimas. Ele via como cantavam os fiéis na igreja e reproduzia os louvores em casa, mas com letras suas. Senhooooor Jesuuuus, entoava sozinho, com a voz fininha, de rato, como ele mesmo descreve.

Leandro aprendeu a ignorar o tempo ruim quando tomava uns sapecos da mãe ao tentar se imiscuir entre os adultos nos bailes black que ela e o pai ajudavam a organizar na rua onde moravam, no bairro Vila Zilda, zona norte de São Paulo. James Brown,  Marvin Gaye e The Manhattans esquentando o povo lá fora e Leandro, ainda criança, cobiçando a música do lado de dentro da casa. Não se deixava vencer, no entanto, e buscava refúgio onde houvesse: se não tinha Gaye nem Brown, ele ouvia Xuxa (!) na vitrola. Quando Xuxa exauriu seu gosto e paciência, ele apelou para si mesmo, para as rimas que continuou criando com a intenção de suprir sua necessidade por música – eram poucos os discos em casa e grande a vontade de encaixar rimas nos sons que ouvia. Fechado, meio bicho do mato, Leandro nunca quis mostrar a ninguém as letras de rap, histórias em quadrinhos e os zines que criava. Tinha vergonha. Quando cedeu, aos 15 anos, e mostrou um rap seu para um amigo, não se arrependeu. “Ele ficou maluco”,lembra.

Arrastado pro palco

Em 2001, participou como ouvinte de um worskshop sobre rap “para não iniciados” que aconteceu no Itaú Cultural, em São Paulo. Leandro foi “arrastado” para o palco por um maluco que se sentou ao lado dele e insistiu, durante toda a palestra, que eles deveriam pegar o microfone e improvisar um rap ali mesmo, de surpresa. No intervalo do workshop, o desejo foi cumprido. O homem puxou Leandro pelo braço e subiu com ele ao palco. O anônimo cantou primeiro, de improviso, e passou o microfone a Leandro. Na vez deste, porém, as palavras duraram uma única frase, e o menino que fluía nos louvores a Jesus, de repente, travou. Foi horrível, ele disse. Voltou pra casa não querendo comparecer no segundo dia de palestra. Mas compareceu – em casa, escreveu e decorou um rap com a intenção de apresentá-lo no dia seguinte como um autêntico improviso. Subiu ao palco de novo, pegou o microfone e. esqueceu toda a letra. Tempo ruim? Que nada. Leandro improvisou (sem truques) e foi aplaudido.

Leandro Roque de Oliveira é, hoje, E.m.i.c.i.d.a, rapper e MC da nova geração cada vez mais expoente graças à trinca talento, visibilidade via internet (Myspace) e fidelidade do público que se encarrega da propaganda boca-a-boca. Além de ser uma sigla (Enquanto Minha Mente Compor Insanidades Domino a Arte), Emicida (quase homicida) é também uma provocação: assassino de MCs. O músico deu-se a alcunha ao enfrentar e vencer muitas batalhas contra MCs. Nessas batalhas (ou rinhas, como são chamadas), organizadas em campeonatos oficiais ou eventos de rua, vence quem mais humilhar o adversário com rimas improvisadas (ou freestyle). “Eu já aposentei vários caras”, ele garante. Alguns MCs saem tão humilhados da disputa que não ousam competir nunca mais. O Youtube traz dezenas de vídeos dessas rinhas. Muitos deles mostram Emicida desintegrando o oponente com suas rimas ácidas, debochadas e precisas. Magrelo e de olhos inofensivos, o rapper da zona norte vira um totem de ironia e calma quando ouve os impropérios dos adversários. Emicida sabe que a tranquilidade é a virtude que o ajuda a encontrar as palavras que mais ferem o oponente e que, além disso, livram-no de morrer pela boca dizendo o que não deve – uma rima mal colocada, uma ofensa boba ou uma réplica sem coerência.

Dois reais na minha mão

Agora mesmo Emicida está sem tempo pra duelar, compor raps ou se dedicar aos shows pelo país – cerca de 10 por mês em tempos de maré boa. O rapper e MC empreende uma outra correria: vender 1000 cópias por semana de sua primeira mixtape, lançada em maio desse ano. Pra quem já mordeu cachorro por comida, até que eu cheguei longe é o título do CD com 25 faixas que ele gravou durante três meses em parceria com amigos e que financiou com grana do próprio bolso e pelo próprio selo, Laboratório Fantasma. O título da mixtape surgiu de uma história real do rapper. Num episódio tragicômico, Emicida mordeu Afrodite, a cadelinha da família, quando ela lhe roubou o único pedaço de pão que ele tinha pra comer em casa. E o tempo ruim, de novo, pôde menos contra ele: o MC fez do episódio título de projeto independente que está vendendo a rodo.

Desde que começou a comercializar a mixtape, no início de maio, o músico tem atingido a audaz meta de um milhar por semana vendido a preço popular – dois reais a cópia em camelôs e dez reais em lojas do centro de São Paulo – a produção de cada cópia sai por cerca de um real. Em todos os pontos de distribuição é ele mesmo quem negocia a revenda com lojistas e donos de barracas. Pra chegar mais longe, Emicida faz freestyle na rua e até nos trens da cidade, apresenta o produto aos que o assistem e vende, à la ambulante, os CDs – nos trens, porém, o trabalho é mais difícil por causa da fiscalização. Na mão do músico a cópia também sai por dois reais. Os pedidos chegam ainda via e-mail, alguns de fora de São Paulo e outros até do exterior, como Japão e Irlanda.

O processo de produção das mixtapes é totalmente artesanal. O próprio MC, com a ajuda da namorada, do irmão e de amigos, é quem grava e numera os CDs em casa, imprime os encartes com as músicas e carimba o logotipo nas embalagens (feitas em papel pardo rústico). À custa de burlar a lógica burocrática e custosa da indústria musical, Emicida projeta-se cada vez mais no mercado e faz o que poucos artistas independentes conseguem: viver só de música.

No dia em que combinamos essa entrevista, Emicida chegou ao centro de São Paulo acompanhado por dois jovens. Amigos, pensei. Mas eram fãs que o reconheceram na rua e colaram nele pra pedir autógrafo. “Pô, Emicida, tem a moral de me dar um autógrafo aí, na humilde, cara?”, pediu Isaías, o fã, trêmulo de tão nervoso. “Pô, moleque, deixa disso”, suavizou o MC, com humor – mas gostando da honraria, claro. Caderno assinado e foto tirada ao lado do tiete, Emicida se despediu dos rapazes com aperto de mão e um sorrisinho de contentamento, como se uma certeza reverberasse nele secretamente: pra quem já mordeu cachorro por comida, até que eu cheguei longe.

 

ENTREVISTA

Acha que teus pais são responsáveis pelo teu dom pra música?
Meu pai era DJ no bairro. Mas eu tive pouco contato com ele. Meu pai morreu quando eu tinha seis anos. Eu sei mais que ele era DJ porque as pessoas me contam. Nem os discos dele eu vi, ele deu pra uns amigos, foi um vacilo. Minha mãe me ligou esses dias e disse que eu era a continuação dessa parada. Acho que o pai da minha mãe também fazia alguma coisa com música. Acho que tem alguma coisa meio ancestral, tipo alguém vai ter que fazer música nessa família. Os dois outros não conseguiram, mas eu tô tentando (risos).

E o lance da rima freestyle, de onde vem?
Eu comecei improvisando. Acredito que o improviso nasce de uma necessidade. Você precisa fazer alguma coisa e não tem os meios pra isso, então acaba descobrindo sua própria maneira de fazer. Eu já gostava de música e escutava muito por causa do ambiente. Comecei a cantar porque não tinha CD, não tinha disco. Tinha um disco ou outro, tipo um da Xuxa. Depois que tinha decorado tudo da Xuxa queria outras coisas. Nessa época tinha bastante culto (evangélico) perto da minha casa, teve até na minha casa. Então comecei a inventar meus próprios hinos de igreja. Eu era pequeno, tinha uns cinco ou seis anos.

Chegava a mostrar os hinos pra alguém?
Mostrava nada! Morria de vergonha. Lembro que tinha um gravador na minha casa. Aí eu aprendi a mexer e gravar minhas músicas. Eu já era mais velho aí, uns oito anos. Não escrevia as letras, fazia tudo de improviso.

Você tem algumas dessas gravações?

Tenho algumas, uns clássicos, eu cantando meus primeiros raps e tocando as bases num teclado. Minha mãe me deu um teclado uma vez. eu nem sei tocar, até hoje, mas tocava (risos).

Essa gravação então é histórica, você criança, com a voz bem fina, né?
Nossa! Voz de rato! Era o auge da voz de rato (risos) iiiiii, iiiiiiiii, iiiiiiii (faz uns ganidos). Você ouve a parada e diz: meu, isso é dublagem. É engraçado ouvir isso hoje, fico com a cara formigando. É legal escutar sozinho.

(o celular toca, Emicida atende)

Era um cara pedindo mixtape. Eu tô tipo os camelôs do centro (risos). Deixo nas lojas, na galeria (do Rock, no centro de Sp), nos camelôs mesmo.

Os caras te pagam na hora?
Claro! Na hora! Eu quero ganhar dinheiro (risos). Os caras tão ganhando dinheiro pra caralho, não fizeram nada na produção do CD e tão ganhando o maior dinheiro em cima. É bom porque agora tenho lugares fixos pra deixar o CD. Acaba muito rápido, os caras vendem uns 100, 200 por semana. De resto é a gente mandando pra fora de São Paulo. Recebi uma encomenda agora do Japão, me mandaram um email pedindo 40 CDs.

Quem é esse cara do Japão, é de alguma loja?
Não sei, nem conheço.

Como ele chegou até você?
Ah, mano, tenho fã pra caralho no Japão. e no mundo também (risos). Tenho vários contatos de gente que quer distribuir em Portugal, na França. só preciso me organizar.

Você tem alguém te ajudando a administrar isso?
Não, eu tô tocando essa parte. Na verdade eu gosto de ver todas as etapas da coisa. Meu irmão tá me ajudando um pouco nisso, mas eu é que to tocando mesmo. É bom isso porque quanto mais as coisas vão crescendo, menor a chance de alguém me passar pra trás, porque aí vou conhecer todos os processos e saber como tudo funciona.

O que você fazia antes de começar a se dedicar à tua música?

Fiz de tudo. Já fui pedreiro, pintor, vendi hot-dog, fazia cestas artesanais, trabalhei na feira, fiz ilustrações. Ainda sou ilustrador – no ano passado ilustrei um livro infantil. Ainda faço uns trampos de ilustra de vez em quando. Já fiz estágio numa produtora musical. Mas hoje só faço música, graças ao bom Jesus.

Privilégio viver de música, não?
Putz, vivo com minha mina num apartamento e tô tranquilo. As pessoas não se dão tanto pras coisas que elas acreditam, e por isso as coisas em que elas acreditam acabam não se dando tanto pra elas também. Ninguém pula de cabeça na parada. Eu sou maluco. Como não tenho outra opção, tenho que fazer essa parada de música dar certo.

Você achava que poderia viver de música?
Eu nunca achei que desse pra viver de música. Eu sempre escrevi pra mim, tá ligada? Demorei muito tempo pra mostrar uma rima pra alguém, morria de vergonha. Fazia história em quadrinhos, fanzine, mas tudo era pra mim. Tinha um camarada meu, o Dijose, que foi o primeiro cara pra quem eu mostrei uma rima, aí ele ficou maluco. Eu tinha uns 15 anos.

Como foi esse estágio na produtora sobre o qual você falou?
O Carlos Magalhães, um amigo meu, me ligou uma vez e disse que tinha um trampo de dublagem pra desenho animado no estúdio onde ele trabalhava. Eu tinha uns 17, 18 anos. Eles precisavam de um cara que fizesse rimas. Eu nem sabia que existia isso de pôr voz em desenho animado. Nem dormi, fiquei empolgadão. Os caras me colocaram na cabine, fiquei horas gravando, fazendo freestyle. Eu era fechadão, tinha dificuldade pra me comunicar com as pessoas. Eu chegava no estúdio, não trocava ideia com ninguém e ficava assim ó (Emicida cruza os braços e faz cara de mau). Até porque eu era do rap, né? E a referência de rap que eu tinha era dos caras nas fotos com essa cara (faz cara de mau de novo). Tinha um cara lá, o Filipe Tixaman, que era um cara mais da rua, que falava gíria, aí ele começou a trocar ideia comigo e pensei: esse cara é um dos meus(risos). Ele que traduzia o que os caras falavam pra mim no estúdio e o que eu falava pros caras. Os caras depois me chamaram pra fazer um outro trampo parecido e depois me convidaram pra fazer um estágio lá.

Foi lá que você aprendeu mais de música?
Pô, foi. Eu não tinha idéia que as pessoas compunham uma canção, gravavam, mixavam, masterizavam, lançavam. pra mim era mágico, tipo, você fez uma música boa e puf, aparece o CD. Depois que eu vi etapa por etapa. Foram esses caras que me ensinaram.

Como é tua rotina de produção de rap? Você escreve muito?
Escrevo todo dia, umas duas músicas por dia. Isso ajuda pra caramba no freestyle, porque tenho muitas opções de rima na minha cabeça. Escrevo do que eu vivo, as situações que eu vejo, sobre meus amigos.

Como é a cena de freestyle aqui no Brasil?
Tem muita gente que faz meia boca e pouca gente que faz bem, que respeita o freestyle e que estuda. No Rio de Janeiro o ponto forte é a batalha, e na batalha o MC evolui pra caralho. Aqui em São Paulo rolou uma febre de freestyle mas já acabou. Aqui a gente tem uma cultura de sessão de improviso, e não rimo eu contra você, rimo eu com você, entende? Fazemos uma parada juntos. No Rio é batalha mesmo. Por isso os MCs lá são mais propensos a serem melhores em batalhas.

Dá pra estudar improvisação?
É muito louco. Por ser uma parada totalmente auto-didata, cada um tem seu próprio método. Tem uns caras que moram na biblioteca, ficam lendo pra caralho e aquilo entra na cabeça dos caras. Se eu ler vários livros travo minha cabeça. Eu gosto de ler quando tô a fim. Agora eu tô lendo um livro do Louis Armstrong porque eu gosto. Isso, um dia, talvez, venha a acrescentar numa rima. Mas em geral eu vejo filme pra caramba, leio notícias. Agora eu já tenho consciência de como eu rimo. Então eu só busco informações novas pra preencher isso com outro conteúdo. Mas na antiga eu ficava na biblioteca. Teve uma época que eu inventei que ia ler o dicionário.puta que o pariu! Eu nem passei daquela primeira página do (dicionário) Aurélio chamada Convém Ler. (risos). Não rola, não dá pra ler um dicionário! Uma vez me falaram que o (MC) Marechal, lá do Rio de Janeiro, que é foda, um monstro mesmo, não escrevia nada, que ele só improvisava. Aí eu ouvi um rap dele e pensei: caralho, ele faz tudo sair de improviso! Aí falei pô, preciso ser foda que nem esse cara. Então comecei a me internar mesmo, estudar, pra ficar bom. Mas depois eu descobri que ele escrevia as letras mesmo. (risos). Uma vez também um amigo me deu um dicionário de rimas.

Te ajudou?
Não (risos). Foi tão inútil quanto ler o Aurélio. Na hora que ele me deu a parada pensei: caralho, vou escrever vários raps! Cheguei em casa, abri o livro, escrevi umas 15 paradas que não entendia, com umas palavras difíceis. tá lá até hoje o livro, empoeirando.

Quando você faz freestyle, você condiciona tanto seu cérebro pra buscar essas palavras que ele fica dividido em dois e você pensa muito rápido, você tá vivenciando uma situação mas pensando em outra

Você consegue explicar o que se passa na tua cabeça quando você está improvisando?
É muito louco isso, as pessoas não entendem. Passam mil coisas na minha cabeça quando estou rimando, fico olhando em volta, pra mim é tão normal como falar. Por exemplo, a gente tá conversando aqui, mas tô vendo que o garçom tá ali lavando louça, tem uma mulher ali do outro lado conversando com um bebê no colo. Quando eu rimo, eu procuro descrever o que eu vejo.

Mas tem as rimas pra dificultar, não?

Aí é que tá o lance. Quando você faz freestyle, você condiciona tanto seu cérebro pra buscar essas palavras que ele fica dividido em dois e você pensa muito rápido, você tá vivenciando uma situação mas pensando em outra. Eu posso estar numa situação que eu não gosto e ficar tranquilo, porque na minha cabeça eu tô em outro lugar.

Eu vi alguns vídeos na internet de batalhas das quais você participou. Teve até uma que você encostou no MC enquanto detonava ele na rima e ele ficou puto, mandou você não encostar nele. Quando o cara está te detonando, o que você pensa? Você chega a ficar nervoso?
O lance do freestyle é você mostrar pras pessoas que o cara que tá na tua frente é ridículo (risos). Essa é a meta. Você tem que ficar tranquilo pra pensar direito. Se o cara conseguir falar uma parada que entra na tua mente, aí fudeu, porque você vai ficar pensando o tempo todo naquela frase e vai se confundir. Tem que deixar ele falar e, talvez, rebater algumas coisas específicas que ele fala. Pode ser que de alguma coisa que ele fale vai surgir a derrota dele. Na batalha de freestyle o que leva os caras à derrota ou à vitória é o que eles dizem.

Rola briga nas batalhas?
Rola um desentendimento ou outro, mas nunca passa de uma discussão. As pessoas olham o rap de fora e acham que é tenso, mas não é, é muito tranquilo.

Vocês são amigos nos bastidores?
(risos) Olha, rola um olhar meio assim (faz um olhar meio superior, enviesado). De todos os caras de São Paulo com quem eu batalhei, eu me relaciono com vários. Do Rio de Janeiro, eu troco uma ideia com o Beleza, com a Negra Rê; com os outros a gente se cumprimenta só, não rola uma amizade. Tem uns caras que ficam putos porque eu ganhei deles no Rio, e eu sou de São Paulo.

É a rixa histórica, né?
É, isso sempre teve e vai ter pra sempre, mas eu quero que se foda, não fui eu que dividi os Estados. (risos).

Eu vi tua batalha contra a Negra Rê. Você detonou a menina.
(gargalhadas) Essa é clássica!!

Como é a batalha com mulher? Você costuma pegar mais leve ou isso não tem nada a ver?

Cara, o grande lance é ser uma batalha de MCs. Se você for pesar na da mina porque ela é uma mina, ela vai responder o quê? Que eu sou um cara? É ridículo. Isso tem que ser levado pro nível de MC. O que está em jogo não é o sexo das pessoas, mas as rimas delas, as atitudes. Pra mim a mina que batalha não é uma mina, é um MC como outro qualquer. Tem uns caras que mandam a mina ir lavar louça, dizem que o lugar dela é na cozinha. só que isso é tão velho, pô, enche o saco até.

De onde veio EMICIDA (Enquanto Minha Imaginação Compor Insanidades Domino a Arte)?
Vem de assassino de MCs porque sempre fui fissurado em batalhas. Quando escrevi o nome achei do caralho, mas aí fiquei pensando na sigla e achei mais legal, mas aí não dá pras pessoas dizerem “ei enquanto minha imaginação compor insanidades domino a arte, chega aí!” (risos). Então ficou Emicida mesmo, assassino de MC. já aposentei vários caras. (risos)

O cara desiste de competir, fica mal mesmo?

Alguns ficam. Algumas batalhas são tão humilhantes pro cara que o mundo cai e ele não batalha mais. Eu já perdi batalhas, mas nunca foi algo de cair o mundo pra mim, foi de boa porque sei o que eu sou, mas tem uns caras que não têm a mesma certeza e acabam desistindo.

Qual foi a batalha mais difícil que você já teve?
Procurar emprego (gargalhadas).

Boa. mas essa foi bem vencida, você até virou o patrão.
Agora eu sou o dono! Se quiser uma mixtape fala comigo (risos).

(o celular toca, Emicida olha de quem é a chamada, mas não atende)

Putz, é aquele mesmo mano. Ele quer uma camiseta igual essa minha aqui (na camiseta está escrito Na Humilde). Eu falei que acabou a parada e ele tá há uma semana ligando todo dia. Vou começar a fazer que nem aquelas minas que passam telefone errado pros caras. (risos)

Falando agora da mixtape, quais são suas expectativas pra ela?
Uma das coisas que quero é estudar como funciona toda essa parada de distribuição. Quero mandar pra vários lugares, administrar isso. Outra coisa é dar um levante na cena porque a parada tá bem devagar mesmo. Tem pouquíssimos lançamentos rolando. Quero criar uma expectativa em cima do meu nome e vir com um disco em seguida. A mixtape tem músicas de 7 anos atrás, coisas que eu fiz e ficaram paradas em casa.

Você tem ideia de quanto tempo vai ficar testando o mercado até lançar o primeiro álbum?
Não sei quanto tempo isso vai levar. Isso é um problema também, porque por eu ser dono das minhas coisas tenho todo o tempo do mundo pra fazer isso. Posso ficar vendendo mixtape por uns 15 anos. Meu foco vai ser distribuir essas cópias. Acho que em três meses vamos ter vendido umas 10 mil cópias.

Você está bancando toda a produção e distribuição da mixtape com a sua grana?
Eu tô fudido, meu aluguel tá atrasado dois meses! (risos) Mas a grana tá vindo. Com essa produção artesanal eu consegui baratear pra caramba os custos, dá pra distribuir a preço justo, é quase dado. Dois reais é nada pra quem compra. A gente levou três meses pra gravar. Só transporte e comida pra mim, só pra mim (enfático), nesse período, foram uns dois mil reais do meu bolso. Os caras que participaram da produção, os músicos, os caras do estúdio fizeram tudo na camaradagem.

Quantas cópias vocês venderam até agora?
Estamos na segunda semana, chegando em duas mil cópias. Estamos dentro do nosso cronograma. Na próxima semana a gente tem que estar nos três mil, senão a gente começa a perder, aí fudeu.

Como é a história dos CDs que você retirou das lojas porque os caras estavam vendendo com preço mais alto?

Tirei de uma loja da galeria (do centro de São Paulo) e carimbei dez reais na capa. Coloquei esse preço pros caras da loja ganharem a grana deles também mas respeitando o piso dos fãs, aí os lojistas estavam vendendo a 15, 20 reais.

Como você descobriu isso?
Um moleque me mandou um email dizendo que viu a mixtape na loja a 15, mas não comprou porque sabia que os 15 reais não iriam pra mim. A grande ilusão dos caras era achar que eu não era doido pra ir até lá e tomar os CDs da loja no dia seguinte ao lançamento. Mas eu sou (risos). Eu tinha fechado com um cara só pra repassar aos outros lojistas, mas ele tava revendendo a 15. Quando me viu fez aquela cara de “fudeu”. Peguei todos os CDs que estavam com ele.

Eu soube que você está se apresentando com uns caras de jazz também. Como é isso?
Putz, é do caralho, é um trio de jazz, os caras tocam uns bebop, acho demais. Eu fazia umas parcerias com a banda Projeto Nave, e o baterista deles toca num trio de jazz. Ele me chamou pra fazer uns shows e deu certo. Em casa eu ouvia uns discos de jazz e ficava tentando colocar rima nas músicas, é um tempo diferente, era um desafio pra mim. Eu sinto que tenho que encaixar minha rima em qualquer música. Fizemos umas paradas no Studio SP, em Santo André, acho que no Bar B vai rolar também (todas as casas em São Paulo). Eu tô devendo um freestyle pra vários caras.

Nos teus raps você fala muito que tem uma missão. Que missão é essa?
As pessoas estão muito distantes hoje em dia e eu acredito que tenho potencial pra fazer elas se reaproximarem. Meu maior esforço é fazer com que elas deixem de se ver pelas diferenças que têm e se vejam naquilo que têm de igual. Quero fazer todo mundo cantar junto porque a música tem esse poder.

Reportagem publicada no site da revista Trip.

Foto: Enio César, Janaína Castelo

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