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Archive for agosto \10\UTC 2009

sede

O dia velho com o céu bordô, lavado e mole, secou. O carnaval de lantejoulas fugidias voltou aos galpões das costureiras pele-e-osso de tanto trabalho. Os foliões dormem exaustos e os guardas já não detêm os ébrios, que esturricam em ressaca pelos bueiros e não voltam. Andam pelas vielas cachorros e gatos à caça da sobrevida entre vãos de paralelepípedos: restos de carne desitratada que caíram da boca de quem, apressado, degustou a vida em quatro dias. Eutímia descalça a pele dos pés e faz questão de ralar o osso no chão pra sentir que existe. Existe assim, no sangue endurecido e na língua gretada que bebeu até inchar, mas não saciou-se. Das janelas fechadas pendem ramos e flores e só eles sabem o que não é sede, porque nunca alijaram as raízes da terra pra dançar a música temporã. Eutímia percorre a viela ao contrário da música, e retorna à terra úmida que lhe vale por mil carnavais sem água.

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