Feeds:
Posts
Comentários

Archive for junho \09\UTC 2009

forca

Achei que adivinhava. A palavra da vez no programa de tv tinha sete letras, apenas duas eram vogais. S era a primeira, a terceira, N, a quarta, G, a quinta era R, depois A, e R de novo. S_NGRAR. Sangrar! Sangrar!, eu gritei ao telefone. A buzina tocou em reproche, vaias enlatadas, gongo, prêmio perdido. Não era sangrar. Mareada com minha desatenção, Teodora saiu da sala com as velas recolhidas, um barco à deriva cuja salvação está na mesma vogal que a mim faltou.

Anúncios

Read Full Post »

venho por meio desta

Ai, como me mortificou a miséria daquela mulher que assinava “um tipinho retraído” nos classificados da revista Grande Hotel, de 1952. Ela gemia assim: nunca amei, anseio por ser amada, sou tipo mignon, morena clara, cabelos compridos levemente ondulados, 21 anos, 1,55 m, trabalhadeira, pobre, simples e sincera; almejo corresponder-me com rapaz de altura e idade superiores às minhas, que seja livre e de coração honesto, sincero, trabalhador e com boas intenções. Assinado: Um tipinho retraído (Cachoeira do Sul). Verdade que até engrandeci lendo aquilo, porque a miséria alheia tem essa delícia vil de nos amplificar diante de quem está de joelhos ou prostrado – mas isso ninguém biografa. Retratei-me indo até 1952, à casa da mulher do anúncio. Perpetrei um milagre para fazê-la feliz: dei-me bigodes, 1,75 de altura, colete vinho e, em vez de uma caixa de bombons finos escondida às costas, levei na lapela um coração cheio de misericórdia e um bocado de lascívia – não se salva mulher só com bondade. Disse-lhe que era o rapaz implícito na carta, que também era de Cachoeira do Sul e que, além de tudo, tinha bons rendimentos, uns aplicados e outros na carteira. Ela atirou-se aos meus pés feito aos de um Cristo prestes a ascender. Aderiu ao meu corpo com as unhas em gancho e eu ao dela, enroscando-a com um insuportável amor à sua pobreza de cortinas de chita e às suas nádegas intactas. Entendemo-nos. Ela já não podia mais dizer que nunca fora amada. Suspendi-a do chão, ajudei-a a vestir a anágua e a camisola de flanela, beijei-lhe a testa e saí, transfigurada de misericórdia, pronta a soprar esperança no coração de todas as mocinhas retraídas de 1952.

Read Full Post »

Mortalidade é defeito pétreo e me dá pudor, pois é certo que, morta, serei despida, vista com lupa, terei as tripas e reentrâncias remexidas (e também meus cadernos), perscrutarão minhas gavetas, meus segredos embaixo da cama e os testemunhos das pessoas que falarão de mim no meu velório. Por contraposição de dados, descobrirão quem fui e eu não estarei lá pra me defender. E se estiver, feito uma geléia translúcida como se vê nos filmes, vou tapar os ouvidos pra não sofrer a vergonha alheia pelo que está sendo dito daquela coisa desanimada ali estendida. Minha pudicícia maior é que em suas escavações particulares, meus amigos descubram que não fui uma, mas tantas, e que menti sobre meus nomes. A morte me dá pudor, mas não chego aos cúmulos. Sei de gente (mulher, claro) que sai de casa preparada pra morrer na rua: depilada, calcinha boa, batom e banho tomado. O que me cumula na morte é seu poder de me tornar relapsa. Basta a metafísica apertar além da conta e me embaralhar a vida pr´eu me sentar na poltrona e não querer sair de lá nunca mais. Puta merda, eu penso, e me sento em seguida, com antolhos de burro numa têmpora e outra. Porque, se tudo acaba ali no fim da rua, qual a necessidade de retomar a marcha? Mas esse é um pensamento grosseiro – um pensar vagabundo, de gente com antolhos. Porque é evidente que nada acaba ali no fim da rua. E não falo da alma que vira geléia translúcida e continua vagando por aí depois da morte, peladinha e flutante. Falo do amor dos vivos que reverbera mesmo quando não estamos, desse amor comezinho de quem, por exemplo, liga dizendo que vai ao mercado e pergunta se não precisamos de alho em casa ou alguma coisinha assim. Nesse telefonema ordinário o alho é pretexto, e a pergunta nele inscrita é: você vive? Como defraudar alguém cujo cuidado amoroso é oferecido ao preço simbólico de uma cabecinha de alho? Abandono a poltrona uma vez e outra. É o amor dos vivos, e não a certeza do esquife encalacrado no solo, o que me força a marcha e me enraiza na Terra.

Read Full Post »

déjà vu

Havia um perfume, perfeições coladas com durex na parede, cabelos, coxas e fotos do futuro, mulheres árabes de rosto velado, meia-noite, asfalto, silêncios e solitários frevos. Mariposas de carne faziam a ronda em torno de um frasco amarelo cravado no meio da sala. No rótulo, capitulares gritavam: pega, é amor em potência. Mas, de repente, eu não tinha mãos, tinha uma só pata de cavalo. Acordei, e o frasco ficou preso no sonho.

Read Full Post »

abundâncias

Em Sevilha, na Espanha, está abolido o sibilar dos ésses e dos cês e o vibrar dos zês porque lá os dentes e a língua abundam na boca das pessoas. Sevilhano diz Zapatos, dieCiocho, ceniCienta e come biscoito de aCeite y aZúcar com uma suculenta línguaentredentes. É um povo que submete a própria carne ao fio traiçoeiro dos incisivos centrais pra dizer amenidades. Não serão todos vermelhos de vontade e bravura por dentro? Em São Paulo, descobri e visitei uma cartomante sevilhana só pr´ela me descortinar o futuro em espanhol. Hija mía, mientras estés como los perros que buscan en la basura qué comer – tu buscas qué vivir –, saca provecho pa´ que tu corazón crezca en humanidad, pues sólo cuando el hombre toca lo que no hay de hombre en si mismo es que puede ser más hombre que los demás, pues mira al prójimo a los ojos buscando en ellos, como en dos luceros, la claridad de su humanidad perdida. Hay que engrandecer el corazón, hija mia, hay que engrandecer el corazón!, ela me disse, com perdigotos flamejantes – co-ra-zón entredentes – chamuscando minhas pupilas.

Read Full Post »

cirurgia

Teodora, não me ama assim, tanto, de graça, que eu não suporto. Não é que não te alcanço o amor porque não quero, é porque nasci com um defeito: 8 costelas a mais, todas muito juntinhas ao redor do coração – ele, feito pelicano sentenciado em gaiola de apartamento, tem que sair pra ser. Mas chave de coração encarcerado é coisa que só existe em poema naif que a gente escreve na segunda série. Hoje a vida tem muros e cerca elétrica. Quer um conselho, Teodora? Não tenta abrir a gaiola com as mãos delicadas. Bota um coturno, toma distância, corre e me arrebenta a porta com uma voadora no peito. O que escapar é teu.

Read Full Post »

dia de abadessa

A abadessa Joana Angélica escalava o muro do convento às três da manhã. Com a mão esquerda e as pernas enroladas à teresa feita com lençóis, ela descia os três andares do forte; com a mão direita, cortava os compridos cabelos usando uma tesoura de costura. Os fios castanhos caíam no pátio e formavam um círculo orgânico sobre o qual a religiosa despencou faltando dois metros para chegar ao solo. Àquela altura, ela já estava com os cabelos à João. As demais religiosas haviam fugido do convento minutos antes usando o jardim dos fundos; coordenara a fuga a própria abadessa, que amava suas irmãs e as protegia mais do que a si mesma. Restavam ainda alguns segundos para que Joana Angélica terminasse de se guarnecer antes que os soldados portugueses invadissem o convento. Com a tesoura rasgando a pele da cabeça, ela cortou o máximo que pôde dos cabelos. Ao renegar o próprio corpo e revestir-se com a valentia do altruísmo, Joana se preparava espiritualmente para o martírio que esperava por ela na ponta das baionetas e do pênis dos soldados. Quando os militares finalmente chegaram ao pátio, sóror Joana Angélica colocou-se feito muralha diante deles, careca e com os braços abertos em cruz, ao modo do esposo morto há quase dois mil anos. Só passarão por aqui por cima do meu cadáver, ela disse. Os militares passaram, claro, mas não sem antes lhe roubar a pureza que era só do Cristo. Fecharam-se as cortinas. Foi com essas licenças poéticas que um desconhecido dramaturgo contou, no teatro, a história da abadessa Joana Angélica de Jesus, que morreu defendendo o convento da Lapa, na Bahia do século XIX. Eu, que não temia inimigos externos, mas a mim mesma, cheguei em casa aquela noite e cortei tudo o que pude dos meus cabelos e roupas com uma navalha. Despida do que me guarnecia por fora, tive que buscar refúgio no que havia de abadessa por dentro.

Read Full Post »