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Archive for maio \29\UTC 2009

metáfora de carnaval

A vida é um nabo. Quem disse isso? Alguém sem verve que me disse. Nem ri. Porque a vida não é nabo e metáfora alguma a faz mais palatável ou cabível. A vida é uma, e dela só sabe quem é o dono. Eu sou ordinária em sentido lato, e é dessa virtude que me valho pra existir sem prestar contas do pequenino que também sou. Penteio o cabelo sempre no mesmo sentido, amaino dores prosaicas com paracetamol e repouso, faço planos, amo, minto por necessidade, nunca por convicção. Quem acha que digo isso pra chocar é porque ainda não viu minhas calcinhas esgarçadas penduradas no box. Isso, sim, é uma afronta. Dói? Em mim não, porque gente é assim, escatológica e poética, um nobel de física com uma puta unha encravada no dedão (isso é metáfora pior que nabo). Se for pra eleger, metáfora boa é carnaval porque cabe em quase tudo: sexo, família, morte e outras pastagens são carnavais de infinitos sentidos. Do carnaval sem metáforas gosto mesmo é da fantasia. Já fui cigana, cachorro, monstro e abacaxi de um metro e vinte. Transubstanciada, é no carnaval que perco a vergonha de não saber dançar e me descubro melhor dançarina que todo mundo. Fantasia é coisa tão séria que não tiro a minha do corpo até que ela perca a última lantejoula. Mas fantasia que não se repara logo depois da festa descolore e míngua até ficar irreconhecível, como os amores que planto no baile e não rego. E isso não é uma metáfora.

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Calhou essa vez de sairmos à rua e toparmos com o obelisco de algodão doce do moço do algodão doce. Calhou d´eu pegar dois pra comer na hora e mais um pra deixar na bolsa. É assim que Teodora me cura uma vez por semana, arrastando-me pro sol e pras coisas vulgares da rua Maria Antonia. Andar e ver é profilático, ela diz, e nos alcança a graça da convivência, ainda mais quando tudo o que a gente não quer é a vivência com. Mas naquela manhã eu já havia alforriado a casmurrice e feito voto de silêncio, sobre o qual comuniquei Teodora com um bilhete na porta: hoje não falo. O algodão doce foi amenidade de um suspiro só. Concedi e sorri pro ambulante quando ele apertou a buzininha de palhaço. Casmurrei de volta e puxei Teodora pelo braço a caminho do cemitério. Só lá eu poderia calar sem que ela insistisse em me ensinar superioridades – por respeito, Teodora não fala entremortos. Em quase duas horas passamos por mais da metade das alamedas. E não houve ali nenhuma poesia cliché de jardim mortuário edificante – farfalhos, luz solar entre copas de árvores, revelações anímicas. O passeio foi é violento. As lápides e os coveiros estavam tão imundos e rotos e as flores nos vasos tão desbeiçadas que o estar morto me pareceu uma grandissíssima brutalidade estética. Salvavam-se da feiúra endêmica apenas alguns anjos de pedra e suas panturrilhas com grossas artérias. Parecem sanguessugas vivas. Foi tudo o que eu disse naquele dia.

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no fim era o verbo

Houve um concurso de originalidades. Levaram pra sala cadarço feito com arame, caderno encapado com folha de bananeira, bolinha de gude que virava comestível depois de lavada (azeitona galega sem caroço) e até um apagador de lousa com um cotoco de giz na ponta que apagava enquanto escrevia – ou o contrário, segundo a vontade de quem o empunhava. Era tanto invento que a professora retirou carteiras da sala pra fazer caber as crianças-e-suas-crias-sem-par. Eu levei minha originalidade na boca: a palavra palavra. Mas a palavra palavra já foi inventada assim como é – disse a professora. Mas não foi inventada assim como está – repliquei. Como estava, na minha boca, a palavra palavra era outra coisa, borbulhava porque eu lhe dava o portento de dançar sozinha na minha língua (raciocínio assim eu não tinha na época; intuía mais que pensava). Prossegui como num púlpito: todo mundo repete palavras sem saber que elas são PA-LA-VRA; ninguém fala palavra sozinha, assim, palavra, palavra, palavra. Eu falo: PALAVRA! (e sorri sem respaldo pra caras muxibentas de tédio). O menino do cadarço de arame, pra me tirar a glória da réplica e o prêmio do concurso (dois pintinhos vivos tingidos de rosa), advogou para o diabo já aos 8 anos: mas é claro que fala! A professora mesmo fala nas lições que pede, por exemplo, pesquisem pa-lllllllllaaaa-vras no dicionário – quanta maldade pode haver numa língua que se prega no palato. A classe despencou em buuuus e uuuus e risadinhas de agulha. Eram todos pra mim. Quase chorei, mas preferi perder a candura. Tirei tênis, meias, fui até uma das extremidades da sala e agachei quase tocando a bunda no chão. Caras de espanto me pediam que não, mas eu lhes soquei meu sim pelos olhos e ouvidos: atravessei a sala de ponta a ponta cinco vezes pulando como um sapo e repetindo PALAVRA aos gritos. Parei por cansaço. E então, professora, alguém fala palavra assim? – desafiei. Aterrorizada, a mestra quis me exorcizar – a voz quase não lhe saía: menina… menina… é Deus o autor da palavra como ela é, do verbo… desde… desde o princípio. Deixei a sala sem pedir licença e fui ao jardim cutucar lagartas com graveto. Vencer concurso de originalidades tendo Deus como concorrente é tarefa inexpugnável pra quem nasceu depois do mundo.

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profecia

Dia de crueldade é quando crio um personagem e o suicido pra experimentar nele a morte que não assumo.

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ser agrião

Desaconteci. Desconheci de repente o monolito no espelho: eu? Quem? Desfareleci. Dormi sã e acordei desnomada. Doutor disse que era cabeça; mãe disse que era cigarro e friagem; padre apostou em males do espírito – é o coração raquíííítico. Desacreditei um e outra e outro e fui à feira como num dia normal querendo dar motivos pro mundo me reconhecer. Seu Jovélio teria que me dar bom dia, dona. Seu Pedro, bom dia, moça, já vai cedo? A calçada em atrito com meus pés projetaria meu corpo para o futuro ali adiante; o cão vagabundo farejaria minhas pernas pra investigar o entorno em preto e branco; eu mataria formigas sem ver e levaria a mão à boca ao espirrar; os motoristas aguardariam minha marcha sobre a zebra do asfalto e eu chegaria à feira sem desditas, repetindo ordinariedades amistosas, irmanando-me com os humanos ao me guiar pelo mundo usando a bússola que todos levamos por dentro: uma tal que aponta pro norte da rotina e nos livra dos sustos de tragédias e esplendores desconhecidos. Tudo sucedeu assim. Por fora. Por dentro não. A paisagem se despigmentava ou era eu que desalvorecia? A barraca de folhas tinha mais vida do que eu podia suportar. O agrião, por exemplo, se soubesse e falasse, diria isso de si: sou verde e parrudo. Crudelíssimo. Eu sabia, falava, mas não me descrevia. Descria da desvantagem que levava por saber. Pedi um maço só pra alimentar a inveja. Paguei e voltei. Na pia, o agrião verdejava sem querer, e eu, querendo o oposto, desaguentava fininho, um filete de gente. O dia terminou com o telejornal mostrando imagens de enchentes no norte do país. Na tela, close numa plantação de agrião submersa; close no dono do campo alagado, um velho curtido chorando o susto que sua bússola não indicou. Aquilo doeu em todos, nos que vendiam e nos que compravam verduras. Só não doeu nas folhas afogadas, ignorantes de si mesmas. Bem-aventurados os que nascem agrião, gritava o pastor na TV. Dormitei. Sonhei que acordava desacontecida sem ciência de ser ao revés, desumanada e verdinha, embrulhada e vendida na feira como um maço parrudo.

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receita ideal

O bloco de receituário ideal é púrpura com rajadinhos degradê em tons de amarelo. Sem o branco habitual dos sisudos blocos timbrados – ou o fatídico azul para a prescrição de remédios guardados nas salinhas proibidas das farmácias – o paciente sairia da consulta com menos pena de si do que entrou – mais de carne e fibras, portanto, e menos de isopor derretido. Nos blocos púrpura, a receita para os que têm nariz aquilino, por exemplo, seria um quadro de si mesmo – pintado de perfil por um artista canastrão – pendurado à entrada de casa (em tratamentos de choque, haveria uma inscrição ao pé do quadro: aqui mora um nariz). Para os que sofrem de desinteria, vitamina de paçoca Amor e café pernoitado – quente, pra expurgar os males num só jato. Para os sem talento, uma apresentação, em rede nacional, das suas melhores desabilidades. Aos feios, a cura no bloco púrpura estaria prescrita numa mono-setença: raspe-cabelos-sobrancelhas-e-valorize-os-traços que-não-se-coadunam-adote-a-feiúra-como-propósito. Para os difíceis males conceituais dos que muito se subjetivam, a receita mais simples cintilaria: testemunhar crianças num parque desvirtuando o mundo com seus empirismos de sonho: se eu plantar sementes de várias frutas no mesmo lugar nasce árvore de tu-ti-fru-ti. O médico ideal tem apenas blocos púrpura em sua maleta, e vai ao circo toda semana pra ter ideias de curas milagrosas.

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malamada

Malamada Belém, que nunca jamais sequer pra sempre amou ousou amar ou amará vestígio e nem borrão de homem de carne-e-defeito. E agora, veja se aceito, quer me enganar que o amor da Terra é pastiche só porque estou com essas fraquezas no sistema nervoso central. Se ela é célibe, o que me toca nisso? Sou lá ambão de vocação alheia? Belém acha que me eleva o espírito à custa de rebaixar o que sinto pelos homens da Terra. Ora, Belém – imprequei –, faça-me o favor e o bigode (o seu), porque isso, pra mim, é intriga de mulher com buço perpétuo. Falha-me o trânsito da serotonina, mas não a inteligência do coração. Que mal me faço se permito ao homem que elejo que me deixe em transe de amor ao abrir para mim sua maçante rotina só pra me amalgamar nela?; se permito que me estenda o bruto pé às nove da noite pr´eu lhe azeitar as ranhuras e, às dez, que me azeite ele mesmo como melhor lhe convém?; qual transcendente código do amor puro eu infrinjo se deixo que o homem eleito me admire os glúteos, que confunda meus glúteos com outros, que me perca por descuido, que me resgate quando desespera, que me traia por fraqueza e que me traga, pra me surpreender a vida e angariar meu perdão, pizza de calabresa e um buquê de crisântemos sortidos que nem por inspiração divina ele aprenderá que odeio um e outro? Veja, Belém, aqui na Terra, uma calabresa honesta pode ser tão redentora quanto a Cruz Santíssima num dia de arenga conjugal. Sou só humana, e me dou melhor com meus iguais de barro. Malamada Belém, se a curiosidade não te ofender a consciência, mete a mão no húmus e aceita ser gente pelo menos uma vez; comece por se purificar do pecado que te exila da espécie: acaba já com esse bigode, porque homem da Terra é bronco, mas gosto transcendente ele tem.

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