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Archive for abril \12\UTC 2009

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great landscapes of London

great landscapes of London

Ele é capaz de agregar valor a um produto ou espaço físico, atrair clientes e aumentar vendas. O design pode mudar o rumo de qualquer produto físico comercial. Em Londres, o design, em muitos aspectos, não é só diferencial, mas pré-requisito para que um produto ou espaço sejam dignos de receber um olhar de interesse do consumidor inglês, acostumado às artes e à criatividade 

Quando desembarquei no aeroporto internacional de Heathrow, em Londres, em fins de setembro de 2006, logo notei importantes diferenças no ambiente da capital inglesa em relação à capital paulista, que havia deixado há apenas um dia. Pessoas altas, cabelos louríssimos ou ruivos, e o inconfundível inglês britânico que se ouvia ao redor. É verdade que o gigantismo de Heathrow ainda me lembrava São Paulo, com escadas e esteiras rolantes encurtando as longas caminhadas entre um ponto e outro. Mas foi no claustrofóbico metrô que fica dentro do aeroporto e que conduz ao centro da cidade, que notei uma segunda grande diferença: apesar de compacto, com teto baixíssimo e poltronas pequenas azul real, os vagões do metrô londrino são apinhados de cartazes com propagandas de empresas privadas e mensagens institucionais do governo. Não há espaço desperdiçado: plataformas de embarque, corredores, o entorno das bilheterias e até as paredes que ladeiam as escadas rolantes viram suporte para publicidade. Algumas dessas propagandas são verdadeiras obras-primas de design gráfico, com um acurado senso estético e preocupação em fazer das imagens e palavras uma peça única em termos gráficos, e por isso repletas de significado. Outras são inovações tecnológicas: painéis eletrônicos, dezenas deles, que não param de exibir imagens e seduzir os olhos mesmo de quem passa apressado diante deles.

E não foram necessárias muitas viagens de metrô ou caminhadas pela cidade para perceber que a preocupação com o design, seja dos cartazes, das roupas, dos óculos, das construções, da decoração dos pubs ou dos cortes de cabelo, é algo recorrente na vida londrina de todos os dias, fruto, certamente, da educação formal recebida desde cedo que ressalta o valor das artes, da cultura e da criatividade em geral.

O design é o tempero de toda obra material e é o que lhe agrega valor. É ele que nos faz crescer os olhos sobre a beleza de um produto, por exemplo, e nos faz optar por ele em detrimento de outro de mesma utilidade, mas com desenho convencional. Design, porém, não tem a ver só com aparência bem elaborada. Pelo menos não na concepção geral e moderna de design, que envolve, além de estética, os conceitos de usabilidade (termo livremente traduzido do inglês e que designa a utilidade e praticidade de um objeto) e capacidade de envolver o consumidor.

O inglês Ab Rogers é um dos designers mais respeitados de Londres, com projetos seus – especialmente de criação de novos espaços – enriquecendo prédios como os do Design e Science Museum, a galeria de arte Tate Modern, o Victoria and Albert Museum (todos em Londres), uma filial da grife Comme des Garçons e o Centro Pompidou, esses dois últimos em Paris. Rogers faz daquelas três diretrizes – usabilidade, estética e interatividade – as linhas mestras do seu trabalho e, com elas, (e mais a irreverência e o gosto por cores que lhe caracterizam), cria espaços que são verdadeiras obras de arte, apesar de Rogers ver diferenças conceituais claras entre arte e design.

Em 2003, a loja de óculos Michel Guillon, localizada no centro de Londres, encomendou-lhe um projeto para uma nova sede. A princípio, pediram-lhe como cor básica o bege. Rogers, para começar, fez a contra-proposta: bege não, azul, azul intenso. Depois, pensou em algo que não fosse convencional como os balcões cobertos com tampos de vidro sob os quais os óculos costumam repousar todos misturados e indistintos, longe do alcance do consumidor. Rogers optou por um muro de 14 metros de comprimento forrando toda a loja, cravejado por 462 compartimentos que servem como mostruários para cada par de óculos, transformando os objetos em peças únicas e exclusivas. Estavam presentes na originalidade do muro e na vivacidade do azul o pensamento estético do designer. A usabilidade veio com uma sacada mecânica. Cada mostruário move-se automaticamente, em momentos determinados, fazendo com que cada compartimento saia do muro e retorne (como uma gaveta abrindo e fechando) e chame a atenção do cliente para que o pegue. Ao transformar a loja de óculos num ambiente vivo, onde os óculos, elementos principais, comunicam-se com os clientes, Rogers logrou alcançar a diretriz do design que lhe é mais cara: a capacidade de entreter o espectador/consumidor de maneira lúdica. É então que a forma de um produto ou espaço vai além, e se transforma em conteúdo. O resultado do trabalho de Ab Rogers para a loja Michel Guillon: um aumento de 30% nas vendas de óculos.

“Acho que o designer tem que estar atento, sim, à sua audiência, mas não penso que ele tenha que trabalhar exatamente como o cliente quer porque o cliente nem sempre sabe o que quer, e é parte importante do trabalho do designer traduzir isso. Um bom exemplo é o trabalho que fiz para a Michel Guillon”, diz Rogers.

Além das três diretrizes e da conversa com o cliente, Rogers também considera importantes para a produção de uma boa obra de design, a capacidade de o profissional trabalhar com limitações (seja de tempo ou de dinheiro investido no projeto), o equilíbrio entre criatividade e praticidade – o que significa saber encontrar o meio termo entre a viagem artística e a possibilidade real de criar um objeto ou espaço úteis – e, mais que tudo, a sinceridade intelectual na hora de criar. Sobre a sinceridade, Rogers explica: “significa tomar decisões pelas razões certas. Não estamos preocupados em ser originais o tempo todo e nem queremos copiar o que os outros estão fazendo. Estamos preocupados em saber qual solução o cliente precisa, como ela pode ser desenvolvida, desenvolvê-la e ir além das expectativas do cliente”. Está dito.

Faz pouco mais de dois anos que desembarquei no aeroporto de Heathrow e notei as primeiras peculiaridades inglesas. Dois anos comportam dias suficientes para que um latino maleável – como a maioria dos latinos – se acostume ao sotaque britânico, ao frio, à fleuma bretã e à caótica mistura de culturas, no caso de Londres, destino preferido de imigrantes vindos de todas as partes do mundo. Mas dois anos não comportam suficientes dias para que um não-inglês (latino ou não), acostume-se à riqueza estética da capital inglesa. Eu, pessoalmente, sigo me surpreendendo com as boas peculiaridades do design londrino de todos os dias. Confira a seguir a entrevista exclusiva concedida por Ab Rogers à revista View e as fotos feitas por André Penteado na capital da criatividade estética.

ENTREVISTA: Ab Rogers

Colourful guy: Ab Rogers

Colourful guy: Ab Rogers

 

Design de brincadeira

Olhos azuis, camisa rosa, cachecol amarelo, abrigo laranja, calça azul e sapatos caramelo-claro. Faltam poucas cores, e sobram outras, ao arco-íris de Ab Rogers. Apaixonado por diversidade cromática e com uma criatividade lúdica, Rogers é um dos mais respeitados designers da Europa. Seus projetos são feitos para serem vistos e incorporados pelo público – e com bom humor, que se diga. Na sua casa-escritório em Wimbledon, extremo sul de Londres, o designer recebeu a reportagem da revista View para uma conversa e sessão de fotos. Tanto repórter quanto fotógrafo saíram de lá com a clara sensação de terem visto, em Rogers, uma representação quase gráfica da versátil inventividade da estética londrina.

Do que você gosta mais no seu trabalho como designer?

Gosto mais da excitação, de descobrir novas coisas e soluções divertidas e criativas para os projetos.

 

Quando você cria um projeto, você se vê fazendo arte ou há uma diferença entre arte e design?

Eu vejo diferenças, sem dúvida. Quando faço design estou lidando com um problema, estou buscando soluções inventivas pra ele. Na arte eu busco inspiração, porque a arte não tem fronteiras nem limites, como temos no design. O design tem que ser basicamente prático e produzível, e tem que se adequar aos limites financeiros que você tem para trabalhar. Nesse aspecto, acredito que quanto mais limitações você tem, melhor, de certa forma, porque te faz mais criativo.

 

Você pode me dar um exemplo de um trabalho em que você teve limitações importantes?

Agora estamos trabalhando para uma rede britânica de restaurantes localizados em estradas chamada Little Chef, que já está no mercado há 50 anos. Nós tivemos apenas três meses para reestruturar todo o design da rede e uma verba pequena, 800 libras por metro quadrado (cerca de 2.700 reais) – normalmente trabalhamos com duas mil libras (cerca 6.700 reais) por metro quadrado para uma loja, mas como é um restaurante, seria ainda mais. Só optamos por trabalhar com materiais que pudessem ser encontrados num prazo de semanas, não meses. Tinha que ser um projeto que divertisse as pessoas, mas sem assustá-las, que respeitasse normas de segurança e higiene e que fosse ambientalmente correto. Era bastante desafiador. Então pensamos o projeto, apresentamos ao cliente, mas ele não gostou, por diversos motivos. Então voltamos ao escritório, descartamos o projeto e criamos outro rapidamente. Poderíamos ter discutido com o cliente, dado argumentos dizendo que o projeto era bom e que a opinião dele era equivocada, mas isso custa tempo e dinheiro, então decidimos refazer o quanto antes. Usamos materiais simples, com custo menor, mas ainda assim muito poéticos, muito lúdicos. No banheiro, por exemplo, criamos um sistema que emite cheiro de pão e café, porque muitas pessoas param no restaurante só para ir ao banheiro, e precisamos convertê-las em consumidores também. O som da descarga é som de ovos fritando, para fazer a pessoa pensar em comida o tempo todo. Brincamos ao máximo com o ambiente, em parceria com o chef Heston Blumenthal, responsável pelo cardápio do Little Chef. Blumenthal é excêntrico e provocador, já os donos do restaurante são mais focados em negócio, então foi um desafio casar as duas mentalidades e fazer os dois felizes.

 

É importante para o designer considerar sempre o gosto estético e a bagagem cultural do cliente para o qual trabalha?

Acho que o designer tem que estar atento, sim, à sua audiência, mas não penso que ele tenha que trabalhar exatamente como o cliente quer, porque o cliente nem sempre sabe o que quer, e é parte importante do trabalho do designer traduzir isso. Um bom exemplo é a loja de óculos Michel Guillon. Eles me pediram uma loja bege. Sugeri algo mais excitante, um azul vivo para a loja toda. Depois convenci o cliente a investir dinheiro numa estrutura de mostruário móvel em toda a loja, para fazer os óculos mais vivos, como se fossem objetos únicos. Eles aceitaram, e hoje a loja vende 30% mais óculos do que quando o mostruário era estático. Foi um projeto comercial que desenvolvemos, mas inspirado pela arte.

 

O que faz uma boa idéia de design se tornar um produto vendável?

Tem que ser algo interativo para o consumidor, algo com que ele possa brincar, e que possa se comunicar com diferentes audiências; deve ter uma linguagem excitante. O escultor Tony Cragg desenhou um garfo de jardinagem para a rede de supermercados inglesa Sainsbury´s que, quando não está sendo usado, ele se torna uma escultura no jardim, então, no fim, o garfo está sendo usado o tempo todo, ou como garfo apenas, ou como escultura. Não tenho dados de quão vendável é esse produto, mas é um produto brilhante. É preciso haver um equilíbrio entre a utilidade e a fantasia do produto.

 

De onde você tira inspiração?

De todos os lugares. Das folhas de outono caindo (sem querer ser romântico), das viagens ao litoral que costumo fazer com minha família, do mar, de um livro, de exposições de arte, de filmes, de fantasia em geral, de tudo, basicamente.

 

No seu escritório vocês adotam alguma prática de design sustentável (termo que significa a utilização de materiais e métodos de produção que sejam menos agressivos ao meio ambiente)?

Sim. Nós tentamos sempre pensar nisso. Algo muito simples é a questão da luz, procuramos usar o máximo de luz natural em nossos projetos para reduzir o consumo de energia. Fizemos um projeto sustentável para a Love Life Story, uma marca ecológica aqui de Londres, um misto de restaurante e empório. Nesse projeto, por exemplo, não imprimimos nada do projeto para evitar o desperdício de papel, e apresentamos as informações ao cliente usando um pen drive.

 

Acha que é possível pensar em design ecológico em todos os projetos ou só em casos específicos?

Acho que é possível ter essa consciência constante de que temos que reduzir o volume de energia consumido, ainda mais nos projetos grandiosos. Mas é difícil aplicar esses princípios a todos os projetos. Por exemplo, reduzimos o uso de fibra de vidro em alguns trabalhos. Por um lado, é um material ruim, ecologicamente falando, mas, por outro, é um material que dura muito. Nós tentamos fazer um design sustentável, mas não posso dizer que trabalhamos 100% assim.

 

Você disse numa entrevista que é mais fácil inspirar as pessoas através de um design lúdico do que através de um design apenas acadêmico. Isso serve para qualquer tipo de design?

Eu disse isso referindo-me mais ao meu ponto de vista, ao meu modo de trabalhar. É claro que há pessoas que preferem o aspecto mais acadêmico de uma obra, outras preferem a interatividade, o aspecto lúdico. Mas em geral, sendo lúdico ou acadêmico, um projeto ou uma peça de design devem ser sinceros. O que eu detesto num trabalho é a falta de sinceridade.

 

O que você quer dizer com sinceridade numa peça de design?

Significa tomar decisões pelas razões certas. Não estamos preocupados em ser originais o tempo todo e nem queremos copiar o que os outros estão fazendo. Estamos preocupados em saber qual solução o cliente precisa, como ela pode ser desenvolvida, desenvolvê-la e ir além das expectativas do cliente. É o caso da loja de óculos Michel Guillon: ele queria algo ordinário, e nós o convencemos a fazer algo extraordinário, e acabou sendo original. Isso é um design sincero.

 

 

Reportagem especial da série Mind the Glasses (sobre moda e design em Londres), publicada na edição 94 (fev 2009) da revista View.

Fotos: André Penteado

 

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ligeirezas

Teodora vive em descompasso. Acredita na bondade absoluta e na redenção pela cruz. Tem um coração sem gorduras, filé mignon. “Os corações não há que calcá-los com os pés, mas flutuar sobre eles, e tratá-los às lambidas da língua escovada e umedecida”, diz, enquanto pisam-lhe o órgão com um coturno amarelo forrado de bosta na sola. Prosperará Teodora? Oxalá. Afinal, ainda faz sol onde ela habita.

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lascividades

– Tem jeito de não querer fazer as unhas?

– Ela insiste pra subir, dona.

– Diz pra ela que não preciso.

– Mas ela insiste, tá até com espuminha de manicure e lixa.

– O senhor já tentou insultá-la pra ver se ela desiste?

– Ah, não, dona, ela tem nome de lugar sagrado, Belém (num crescente), Belém! Belééém! E Belém eu não insulto não.

– Tá, deixa subir.

Não havia princípio, mas o fim último de todas as coisas. Teodora dizia, pra me fortificar a esperança (ignorando que a esperança mortifica quem não a tem), que o mal estar era temporário e que lá no fim, onde os fios de algodão da tapeçaria divina se encontram num emaranhado disforme, havia uma resposta metafísica tão lógica e sublime que eu morreria de êxtase ao descobri-la, feito Santa Teresa com a flecha no peito, cara de gozo e um novelo nas mãos. Teodora, depois de dizer isso, puxou-me pelo braço e colou a boca na minha orelha pra sussurrar uma frase que ninguém mais no mundo ouviria: “a ignorância é o que te mata, mas farejar a felicidade é o que te mantém viva”.

– As unhas? (suspiro) Sim, Belém, quero feitas.

Teodora só não me disse que para desfazer o mafuá divino eu teria que percorrer cordinha por cordinha, ora me equilibrando sobre elas, ora com os pés suspensos, segurada aos fios e aguentando nos pulsinhos de canário meu peso de mundo. Só assim eu conheceria os caminhos do Senhor e saberia, no fim dos tempos, por onde começar os trabalhos de elucidação do mistério de uma vida inteira.

– Belém, cuidado com esse bife, catzo! (sangue)

Belém decepava meus cantinhos com o pretexto de invadir minha vida. “Ai, olha essa carne sangrando, essa carne, essa carne… você tem (pigarro) ééé… tem feito (pigarro)… isso de… (tosse)”.

– Sexo, Belém?

(Belém enrubesce, baixa os olhos e seca meu sangue com um paninho; depois, ajeita a medalha do Carmo no peito pra proteger as entranhas do que vai ouvir)

– Belém, por que continuar na superfície? Prefiro te descrever o céu. O céu me cobre sem pesar no meu corpo, não me ofende, nem por dentro, nem por fora. Me sopra de um lado pro outro querendo que eu sinta a gravidade zero brotando das suas mãos sem digitais. Se eu digo que pare, ele não para de todo, antes, me ludibria com sopros no pescoço enquanto sonda meu corpo pra descobrir onde quero ser tocada sem angústias. O céu é todo liso e sem bordas. Quando a chuva abunda, ele verte, e não me molha só partezinhas do corpo, como as unhas que você umedece nesse potinho de plástico com cinco furos. Me molha de todo, de súbito, e de mim, em segundos, só diz a água, que do céu é a promessa de amor perene: quando não me refresca por fora, me liquefaz por dentro. Não me deixa nunca. Por tudo isso, Belém – e apesar do artigo “o” e do pronome “ele” que o antecedem quando o invoco – concluo que o céu não é homem. O céu é uma mulher, uma mu-lher, Belém. Entende isso?

Belém tossiu e perguntou se eu queria esmalte claro perolado.

– Não, quero carmim, o carmim que tingia o corpo de Santa Teresa quando ela desenrolou o novelo divino e gozou por toda a eternidade.

 

 

 

 

 

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higiene

Decidi escovar os dentes para perpetuar com força a sensação de limpeza que escova e pasta juntas me dão mais que um ego te absolvo a peccatis tuis in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Com espuma e detritos escorreram pelo ralo todas as impurezas borbulhando nos vãos da gengiva e do pensamento. Escovei meus dentes até que se esfarelassem entre as cerdas, e com eles a língua, a mucosa, o palato, as amídalas, depois os ossos e o resto todo da cara. Chamaram-me do lado de fora batendo à porta do banheiro. Queriam entrar. Do lado de dentro, porém, onde o milagre ocorria, nem um gemido ganharam: de tão limpa, eu já não estava lá.

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