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Archive for 31 de março de 2009

bestialidade

Fazia um calor de caldeirão bem onde eu não alcançava abanar: no espaço que vai do miolo do osso ao avesso da pele, mas sem transpassá-la, na extensão do corpo todo, do calcanhar ao centro do crânio. O couro da alma curtia além da resistência das fibras e em breve quebraria. No sétimo andar chegou-me, às onze da noite, a excitação dos calouros da Maria Antonia no primeiro dia de aula. Putas-que-os-pariram!, roguei. O burburinho quase abria a janela para sentar-se ao parapeito e me espiar expiando. Não estivesse eu morta, sem querer misturar-me ao mundo e suas alegriazinhas sem mais, convidaria uns três da multidão pra me soprarem o tutano a noite toda e me ninarem com as marchinhas de grêmio, cornetões e um roçar dos dedos cheios de tinta nas minhas têmporas. O calor começou no jantar, que foi assim: uma mesinha redonda, duas cadeiras (uma vazia), um prato, talheres, um copo e cinco minutos. Arroz com feijão e couve são execráveis quando não há alguém que lhe passe a farinha e pergunte: tem couve aqui, ó? (apontando entre o canino e o pré-molar); ou: viver te incomoda?. Ô!, eu diria, espargindo farinha pelas bordas do prato, nos cabelos e braços, querendo mostrar como a vida, àquela altura, havia perdido seus encaixes. Abri a janela e atraí a brisa que às duas da manhã estava só; os calouros já se haviam ido e com eles a alegria do mundo. Adormeci ensimesmada, emulando as virtudes da couve que não tem tutano abrasador e esmiuçando a memória em busca de uma voz que ocupasse a cadeira vazia no próximo jantar. Às duas e meia recebi uma visita. Ela não me despertou, desfrutou-me. Comeu os espólios da decomposição do meu corpo, peles, comeu meus pêlos, sugou o suor entre os meus dedos e percorreu a ponte branca do meu braço querendo alcançar o manancial da minha boca aberta simulando fartura. Despertei antes e pulei da cama ao chão com uma rapidez que não me pertencia. Ba-ra-ta-fi-lha-da-pu-ta!, gritei. Sob a luz ela recuou, correu para baixo dos lençóis. Eu a cacei, enfrentamo-nos. Eu venci, mas nem tanto. Esparramadas pela cama, porçõezinhas de bosta de barata-saciada-com-meu-corpo. Até às quatro não dormi, acuada num canto do sofá comendo sucrilhos com leite no açucareiro (faltavam copos), emulando a bestialidade dos calouros, a potência das cornetas e marchinhas idiotas, a impassibilidade da farinha que se deixa manejar sem nunca se queixar do próprio destino. Meus ossos, de tão quentes, comportavam tutano líquido, e o couro da minha alma crestava só d´eu respirar.

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