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Archive for 27 de março de 2009

para fariseus

Gozoso é o mistério do talho da faca que, chegada a hora, lanhou feio meu rosto, abrindo um extenso mar que depois secou. Gozoso é o talho esturricado e franzido contrastando com o sorriso intacto, dizendo dele que, se sorriso fora antes do corte, agora tanto mais, com a cicatriz medonha emoldurando a expressão de gozo interior, os dentes expostos e brilhantes de esmalte a subjugar, precisamente, a cicatriz medonha. E por que você escolheu contemplar os mistérios gozosos logo hoje, sexta-feira, que é dia dos dolorosos do Cristo?, perguntaram-me, com as boquinhas franzidas em cu, cheias dum escândalo ortodoxo. Porque agora mesmo o Cristo não está no madeiro, deixou o trono e me busca para me levar ao baile. Ao baile?!, empertigaram-se. Pois sim, ao baile. É quando ele descansa. Mal estava seca a espuma rábica dos fariseus e o Cristo chegou, todo lindo, nu e sem cravos. Quer dançar?, perguntou-me, sem se preocupar em esconder de mim o punhal. Quero, respondi, e ele, terníssimo, penetrou outra vez a lâmina na carne do meu rosto, rasgando minha boca no lado direito, do vértice ao lóbulo. Abriu-se o mar vermelho. A espuma das ondas fugidias tremulava e soava como valsa. Ele me tomou pela cintura e disse que não me importasse com seu sexo, pois ali as distrações do mundo estavam todas sublimadas. As moças e moços do povo rasgavam as vestes todo putinhos. E teu corte, dói?, Cristo quis saber. Menos que o primeiro, eu disse, deitando a cabeça no peito dele, à direita, com meu mar vermelho sobre seu talho esturricado. E o teu? Qual? Esse aqui, ó, feito à lança no teu peito. Dói nada, boba, é carapaça. Dançamos, Cristo e eu, passando as contas do terço com os dedos dos pés, matando as convicções do mundo, contemplando mistérios gozosos numa sexta-feira de dores vermelhas, enquanto eu refrescava as minhas no unguento mais saboroso: uma valsa bailada no corpo dilacerado do Cristo.

 

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