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Archive for fevereiro \09\UTC 2009

 

sketchbook de stuart bannocks

sketchbook de stuart bannocks

Criatividade é questão de audácia e falta de vergonha para inventar sem ter medo do resultado. E Londres é o caldeirão onde fervem, além de cultura, essas duas qualidades. A View foi atrás de alguns despudorados para entender, na prática, de onde vem essa criatividade que exala em cada esquina da capital inglesa

Os executivos londrinos usam moicano e vão para o trabalho de bicicleta; as mulheres vestem terninhos, tênis e meia-calça colorida; as crianças, ainda bem novas, carregam alguns megabytes de rock dos bons nos seus iPods, e os jovenzinhos de 18, 20 anos, terminam o colégio e, com a mesada dada pelos pais, saem viajando pelo mundo durante um ano só pra ver como é o universo além do umbigo. Os londrinos são uns despudorados quando o assunto é criatividade. Não guiam-se pelos aplausos ou vaias da arquibancada; são levados pelo próprio gosto e pela torrente de cultura que lhes chega quase de graça durante toda a vida: o colégio e universidade são praticamente 100% financiados pelo governo, a maior parte das galerias e museus não cobra entrada, assim como as bibliotecas (uma em cada bairro, e ativas!); viajar de avião a países vizinhos na Europa chega a ser mais barato que andar de ônibus durante uma semana na cidade; livros são quase item de cesta básica, baratos e vendidos até em lojinhas de conveniência; políticas públicas promovem o intercâmbio entre diferentes culturas por meio de festivais de cinema, teatro, dança e música. O verão é a época mais fértil para essas iniciativas, já que os ingleses desentocam e se atiram em praças e parques da cidade para curtir o sol e os festivais a céu aberto.

Com esse caldo cultural em constante ebulição, os habitantes de Londres não poderiam ser menos criativos. Em cada esquina da cidade é possível encontrar gente que se dedica a inventar algo diferente no visual, na decoração da bicicleta, numa performance de rua, no jardim, nos produtos que vende, no enfeite da porta de casa, na rotina que vive. E como regra básica de todas essas invenções alternativas, a falta de pudor é o motor de uma criatividade que não se acanha por nada.

Bicicleta? Só se for de celulose

O designer inglês Stuart Bannocks, de 21 anos, recém-formado pela universidade londrina Goldsmiths, é um desses criativos que não se importam com o embaraço público em prol de uma boa idéia. Bannocks gosta de filosofia e não raro usa conceitos filosóficos em suas obras gráficas, tornando-as ainda mais cheias de conteúdo. Foi um desses conceitos que ele adaptou a seu projeto de conclusão de curso. Stuart quis verificar quão próxima é a idéia que as pessoas têm sobre um determinado objeto e quanto esse objeto corresponde à idéia que as pessoas têm dele. Complexo? Talvez, mas na cabeça de Bannocks o conceito ficou bem visível. O designer construiu uma bicicleta de papelão em tamanho natural e circulou com ela sob o braço por algumas estações de metrô onde a entrada de pessoas com suas bicicletas é estritamente proibida. Na sua jornada surreal com a pseudo-bike pelos túneis londrinos, Bannocks não foi barrado por absolutamente nenhum segurança ou funcionário do metrô. “A bicicleta de papelão ocupava o mesmo espaço que uma bicicleta normal, tinha exatamente o mesmo formato, mas na cabeça das pessoas aquilo NÃO era um bicicleta de verdade”, conta o designer, com um sorrisinho de quem se divertiu com o experimento.

A discussão de Bannocks foi mais longe e deu manga para um outro projeto similar e ainda mais sério. Ele construiu um conjunto de “armas” inofensivas – bananas, colheres e passes de metrô foram fisicamente modificados e ganharam cara de revólveres e facas – para criticar um ponto delicado da atual realidade Londrina: após os atentados terroristas de julho de 2005, quando quatro bombas foram detonadas nos metrôs e em um ônibus na capital inglesa, não existem mais protótipos de suspeitos nem do que pode ser uma arma. Qualquer um pode ser barrado na rua pela polícia por atitude suspeita – que varia desde uma pausa para descanso no banco da praça até tirar fotos de paisagens ou vestir camisetas com desenhos de armas. Não raro, ônibus e metrôs são evacuados às pressas no meio do trajeto e a polícia acionada quando uma sacola de supermercado é econtrada repousando sem dono sobre o banco ou chão do veículo. Até que se prove o contrário, toda e qualquer sacola, mala ou pasta solitária – ainda que não tenham cara de arma – se tornaram, para a polícia inglesa, bombas camufladas prestes a explodir. Desde 2005 não há mais limite para a síndrome persecutória das autoridades britânicas e nem para a imaginação de quem se dedica a caçar pêlo em ovo.

E toda essa discussão gráfico-filosófica nasceu na cabeça de Bannocks por causa de uma habilidade que ele e praticamente toda a espécie humana têm: a habilidade de observar o mundo à nossa volta e transformá-lo de alguma forma.

Atitude criativa

Se é verdade que o despudor e a audácia para criar sem se importar com a opinião alheia são um motor da criatividade, também é verdade que a observação atenta e analítica da realidade é o carvão que alimenta esse motor. Se Bannocks, como designer gráfico, não tivesse observado a vida londrina nos jornais, nas conversas com amigos, professores, nas ruas e no comportamento das pessoas, sua audácia estaria incubada ainda, presa pela falta de idéias que a fizessem aflorar. E isso vale para qualquer profissional, do artista plástico ao engenheiro, do chef de cozinha ao fashionista, do escritor ao comerciante. Os cadernos (chamados sketchbooks) onde Stuart Bannocks anota e desenvolve suas idéias são, em si mesmos, arquivos das observações que ele faz à esmo e coleciona. Nas páginas caóticas dos cadernos do designer – mais de 100 volumes – há rabiscos, letras, frases, recortes de jornal, embalagens, desenhos, formas e cores. Cada uma das páginas contém o início, meio ou finalização de uma idéia que ele teve e desenvolveu da maneira mais clássica: empunhando uma caneta e forçando o cérebro a concatenar as idéias e preencher a brancura das folhas. Postura própria de um criativo.

sketchbook two

sketchbook two

sketchbook three

sketchbook three

Os despudorados de Londres – ingleses ou não – estão por toda parte. A View conversou com dois deles, especialistas no assunto, para entender, na prática, o que é essa criatividade que exala em cada esquina. Além de Stuart Bannocks, entrevistamos também o artista plástico e professor Rod Judkins, que leciona processo criativo na universidade Saint Martins, uma das melhores em design e moda da Europa. Em entrevista exclusiva à revista, Judkins deixa entrever os passos que conduzem ao aproveitamento máximo dos talentos que cada um tem.

ENTREVISTA

Rod Judkins: a diferença entre o ordinário e o memorável

artista plástico Rod Judkins

artista plástico Rod Judkins

Rod Judkins, 52 anos, é artista plástico formado pelo Royal College of Art (Inglaterra) e professor de processo criativo há mais de uma década na universidade Saint Martins (Londres), uma das mais importantes da Europa. Judkins, como artista, tem obras expostas nas principais galerias inglesas.

Como você definiria critividade?

Para mim criatividade é saber olhar a realidade sob um novo ângulo e revelar uma verdade ainda desconhecida.

E como você descreveria uma pessoa criativa?

As pessoas criativas pensam de uma maneira única e diferente. Essa habilidade tem a ver com ser uma pessoa de mente aberta, flexível e sem idéias fixas ou pré-concebidas. Embora existam pessoas cuja mente é naturalmente flexível e conceitual – o que favorece a criatividade – é possível desenvolver essa habilidade.

Quando falamos de criatividade pensamos logo em artistas. Existem vendedores, professores, contadores ou outros profissionais não-artistas criativos?

Sem dúvida. São pessoas que precisam descobrir soluções inovadoras para os desafios que enfrentam. A diferença é que os artistas estão sempre buscando meios de serem sempre mais criativos e não se contentam com o ordinário. Enquanto um professor poderia ficaria feliz com uma aula dada bem, mas de forma padrão, um artista procuraria um jeito de tornar essa aula memorável.

Como o ambiente pode influenciar alguém para ter uma mente mais ou menos aberta?

O ambiente em que você vive é muito importante para estimular a criatividade. Se você, por exemplo, trabalha num lugar onde se sinta livre para experimentar coisas novas sem medo de cometer erros, então a criatividade será beneficiada. Andy Warhol (artista plástico norte-americano) é um bom exemplo disso. A porta do seu estúdio (mundialmente conhecido como The Factory) estava sempre aberta para que as pessoas entrassem, olhassem o que ele estava fazendo e até para que ajudassem em algum trabalho se quisessem. Seus assistentes se sentiam livres para sugerir ideias e ajudá-lo de diferentes maneiras. Warhol tinha mente aberta e não se preocupava em ser original o tempo todo.

Como professor de processo criativo, quais são os aspectos dessa disciplina que seus alunos consideram mais difícil de assimilar?

É relativamente difícil para eles pararem de julgar a si mesmos e de se preocuparem com a opinião dos outros sobre suas criações. O que eu digo para eles é que precisam suspender o julgamento logo no início do trabalho e assim criarem livremente até o fim.

O processo criativo é diferente para cada diferente professional. Existe, no entanto, algo que é comum a todos os processos, independentemente se é realizado por um artista plástico ou por um vendedor, por exemplo?

Sim. O que é comum é a busca ao nosso redor por todas as soluções possíveis para desenvolver um projeto, não importando quão ridículas ou excêntricas podem parecer essas soluções no princípio.

Como artista, você têm algum método específico para fomentar a criatividade?

Eu mantenho sempre comigo um caderno onde anoto as idéias que me ocorrem; para mim criatividade é uma questão de observar e tomar nota de todos os aspectos da cultura que nos rodeia.

ENTREVISTA

Stuart Bannocks: muito além da primeira idéia

“Na minha opinião, o mais importante na criação é saber qual a melhor forma de comunicar uma idéia, e isso significa fazer as coisas como elas devem ser feitas, e não necessariamente como eu quero fazê-las. Não tem a ver com estilo, mas com a razão de ser das coisas”.

Stuart, você tem alguma metodologia para começar a criar algo?

Há algumas coisas que procuro evitar fazer. Por exemplo, não aposto na primeira idéia que me vem à cabeça. Pode ser mto boa, mas se eu aceitá-la posso bloquear outras 20 ótimas idéias que viriam depois. Também tento me manter longe do computador; como uma ferramenta de execução ele é ótimo, mas como gerador de idéias não é bom. Eu trabalho com um caderno de idéias no qual coleciono imagens, recortes, desenhos, esboços, tudo o que encontro e que pode me servir de inspiração.

Como, exatamente, você usa esse caderno?

Eu começo a rabiscar uma página, desenho formas, coisas aleatórias que podem não significar nada, mas é uma forma concreta de eu começar a fazer alguma coisa, a ter uma idéia. Sou uma pessoa muito ativa, quando estou pensando preciso fazer algo físico. Os meus cadernos servem para isso, para me ajudar a imergir num assunto, a pensar sem parar. É daí que vêm as boas idéias. Faz seis anos que produzo esses cadernos. Devo ter mais de 100.

Onde você busca referências para sua criatividade?

Eu procuro saber o que as pessoas boas na minha área estão fazendo, leio livros, revistas e blogs. Gosto de ver trabalhos muito bons e outros muito ruins. Por exemplo, pego panfletos distribuídos na rua com um design terrível e tento entender o raciocínio da pessoa para chegar naquele resultado. Eu gosto de ir a Bricklane (reduto de criativos ao leste de Londres) e olhar à minha volta, de andar nos trens e metrôs da cidade, olhar as propagandas nas estações, os jornais, as pessoas entrando e saindo dos vagões. É bom para mim ter esse tipo de contato com o externo.

Qual foi a mais estranha fonte de inspiração que você já teve?

Fechaduras de banheiro. Se você pensar, o mecanismo para fechar a porta de banheiro é um só, mas existem inúmeros designs para esse mesmo mecanismo. Não existe um padrão para essas fechaduras, mas seria possível criar. Eu gosto dessa variedade e do fato de que ninguém tenha criado a fechadura definitiva para banheiros (risos).

Você criou algo a partir dessa fonte?

Ainda não.

Talvez a fechadura definitiva?

Talvez, é possível (risos).

Primeira reportagem da série especial Mind the glasses, suplemento sobre tendências de moda e design em Londres da revista View, ed 91, setembro/2008

Fotos: André Penteado

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