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Archive for dezembro \30\UTC 2008

Fotos/assessoria Flora London Marathon

Fotos/assessoria Flora London Marathon

Seis guerreiros da tribo Maasai, da Tanzânia, entraram num avião pela primeira vez na vida e aterrisaram em Londres para correr a maratona internacional. Também foi a primeira vez que dormiram em colchões, comeram cereal de chocolate, que viram uma cozinha e um cavalo. Não chegaram em primeiro na corrida, mas levaram o prêmio que queriam: a possibilidade de beber água limpa na vila onde moram

Os seis negros de pele reluzente e sorriso largo se ajeitaram lado a lado e fizeram pose para a foto, exibindo os escudos feitos por eles mesmos com couro de búfalo, suas lanças de madeira, adornos de cabeça e os colares de metal que davam sonoras notícias deles a cada movimento que faziam. Os corpos esguios e fortes envoltos em mantos rubros lembravam guerreiros tribais desses de filme. Mas ali tudo era muito real. Aqueles homens eram guerreiros de fato. Atrás deles estava a Tower Bridge, o céu claro de Londres daquela manhã de abril de 2008 e alguns milhões de litros d´água correndo pelo rio Tâmisa, que corta quase toda a Inglaterra carregando até carpas rumo ao Atlântico. Diante daqueles homens estavam fotógrafos e jornalistas, alguns curiosos e um pouco mais além, às costas dos curiosos, estava o futuro dos seis negros reluzentes à espera deles na Tanzânia, onde vivem. Após as fotos e outros compromissos que tinham durante os quatro dias seguintes na agenda, aqueles homens voltariam à África carregando consigo o melhor souvenir que puderam encontrar em Londres: dinheiro suficiente para construir um poço de água na vila onde moram, um poço sem milhões de litros, nem carpas ou cavalos-marinhos, mas com água limpa e abundante o suficiente para matar a sede das crianças e mulheres da vila, dos velhos, do gado e deles, os negros reluzentes.

Isaya, Kesika, Lengamai, Ninna, Nguvu e Taico, os seis guerreiros semi-nômades da comunidade Maasai que vive espalhada pelo norte da Tanzânia e sul do Quênia, desembarcaram em Londres em abril para participar da Flora London Marathon, maratona profissional criada em 1981 e que hoje é uma das mais importantes do gênero entre as cinco existentes no mundo. Foi a primeira vez que aqueles jovens Maasais, todos entre 20 e 25 anos, saíram de Eluai, o vilarejo com mil habitantes onde vivem, e imergiram numa realidade tão díspar da que conheciam. Também foi a primeira vez que entraram num avião e sentiram o ar condicionado, que viram uma aeromoça, um piloto e admiraram a Terra desde o alto, pequenina. Mas nem de longe foi a primeira vez que eles participaram de uma maratona. Nos últimos anos, os homens e mulheres dessa tribo são obrigados a correr todos os dias de 40 a 70 kilômetros até encontrar água para beber, cozinhar, saciar o gado e banhar-se. A mesma água para todos os propósitos. Com as mudanças climáticas e o rareamento das chuvas em algumas regiões do continente africano, os lagos naturais que se formam com as águas pluviais têm se tornado escassos, sujos e disputados: de um lado os Maasais com suas vasilhas e latas para carregar a água barrenta, de outro, leões, búfalos e outros animais selvagens que não poupam quem ousa beber da mesma fonte que eles.

Daí que a Maratona de Londres, com seus 42.195 kilômetros de percurso, seria tarefa fácil, fácil, segundo os próprios guerreiros. Eles foram uns dos últimos a cruzar a linha de chegada, é verdade. Completaram a prova em 5 horas e 20 minutos, enquanto o campeão queniano Martin Lel concluiu o percurso em 2 horas, 5 minutos e 15 segundos. Mas os Maasais venceram, ainda assim. “Nós corremos cantando e dançando músicas tradicionais, usamos nossas roupas típicas e carregamos os escudos e lanças que usamos na Tanzânia; queríamos chamar a atenção do público. Não viemos correr para quebrar um recorde, mas para mobilizar as pessoas e conseguir doações para construir um poço de água limpa na nossa vila”, explicou Isaya, 24 anos, líder do grupo Maasai que o acompanhou na corrida e o único que fala inglês.

A ONG internacional Greenforce, que realiza projetos de preservação sócio-ambiental em regiões pobres da África e América Latina, foi a responsável pela vinda dos jovens africanos à capital inglesa. Em 2004, voluntários da ONG realizaram uma expedição à Tanzânia e entraram em contato com a tribo. Como é próprio do trabalho do Greenforce nas comunidades onde atua, os voluntários não ofereceram nada aos Maasais, nenhuma solução pronta ou ajuda concreta; esperaram que os guerreiros a pedissem. Isaya, como porta-voz da tribo, explicou que o problema da água era, literalmente, questão de vida ou morte para eles, e que a construção de um poço era crucial. “Precisaríamos de verbas para construir o poço. Quando os Maasais souberam que os ingleses doam dinheiro a quem participa da maratona em prol de alguma causa, ficaram impressionados, porque correr é o que eles fazem todos os dias. O que fizemos foi realizar o pedido deles: inscrevemos o grupo na competição e o trouxemos a Londres”, conta o inglês Paul Martin, 39 anos, engenheiro e ex-soldado do Exército Britânico que coordena a expedição do Greenforce à Tanzânia desde 2005. A ONG é quem está administrando as cerca de 115 mil libras (R$ 369 mil) conseguidas pelos Maasais para encontrar água no subsolo de Eluai – quase o dobro das 60 mil libras que almejavam. “Estamos avaliando as empresas que podem realizar esse serviço. Só vamos investir quando estivermos certos de que temos os parceiros ideais”, observou Martin.

Conhecendo Londres por fotos de livros e relatos dos voluntários do Greenforce, os seis guerreiros partiram do aeroporto internacional de Kilimanjaro direto para uma realidade que as duas dimensões do papel e histórias contadas jamais lhes dariam. As descobertas começaram ainda na Tanzânia. Isaya, acostumado a caçar leões e duelar com búfalos que o ameaçam à porta de casa, por medo, fechou os olhos quando o avião, misteriosamente, se ergueu sobre o solo.

Para além do Crocodilo Dundee

A Londres que os Maasais encontraram era um mundo ao contrário daquele que apalpavam na diminuta Eluai: um volume descomunal de gente branquíssima, de carros e prédios, de cheiros construídos, ruídos, de escadas que se movem para cima e para baixo, de mulheres com unhas coloridas e de alimentos que não vêm do solo, mas de caixas, latas e antisépticas garrafas.

Seu primeiro cicerone na capital inglesa foi um manual de quatro páginas sobre os costumes britânicos, preparado pelos voluntários do Greenforce. Para os guerreiros habituados a sorrir, o manual explicava que “muitos ingleses trabalham em escritórios – ofício do qual não gostam muito –, e por isso não sorriem tanto quanto deveriam”. Dica essencial na terra da fleuma. Lhes foi dito também que era importante o uso de roupas íntimas – especialmente durante a corrida – e que, se vissem alguma vaca ou outro animal andando livres por aí, os Maasais não poderiam simplesmente pegá-los, porque já tinham dono. O aspecto Crocodilo Dundee da visita dos tanzanianos a Londres foi o mais explorado pela imprensa britânica, e às vezes com simplismo malicioso. “Um jornalista perguntou a eles o que achavam dos leões de bronze que enfeitam a Trafalgar Square (a praça mais famosa da capital). É óbvio que eles sabem que não são leões de verdade! O que esse jornalista pensa que os Maasais são?! ”, esbraveja Paul Martin, com a indignação reverberando até hoje. “Apesar de terem vindo de uma região remota, esses jovens são inteligentes o bastante para perceber e assimilar uma nova cultura”, defendeu o ex-soldado.

Pulando de uma entrevista coletiva a outra, os jovens tiveram que se acostumar a sessões repetitivas de fotos e perguntas. À questão “como é a falta de água na vila onde vocês moram?”, Isaya teve que responder mais de uma dezena de vezes. “Cada vez mais rápido e em maior quantidade, as crianças e os velhos da minha vila estão morrendo de sede, doenças ou atacados por animais selvagens. No water, no water at all”, ele disse durante entrevista coletiva no auditório do hotel The Tower, à beira do rio Tâmisa. Isaya não sabia que ali mesmo, a algumas camadas abaixo dos seus pés, 790 mil metros cúbicos do líquido incolor escorriam a cada 24 horas rumo ao nada, em silêncio, pelas fendas dos encanamentos rotos, instalados há mais de 150 anos no subsolo da cidade. Relíquias da era Vitoriana. Uma jornalista mencionou o tema non-grato numa pergunta dirigida a Paul Martin; os lábios do ex-soldado tremularam sem jeito durante sua resposta-esquiva de cinco segundos: “Não está ao nosso alcance falar sobre isso. Nós os trouxemos para a maratona, e só”. O escândalo do desperdício, que havia sido alardeado pela imprensa britânica semanas antes, não era culpa dele, afinal, nem dos outros ingleses presentes à coletiva, nem da jornalista que tocara no tema, não era de ninguém ali naquele auditório. Mas todos ficaram mudos, constrangidos num mea culpa intuitivo. Passado o embaraço coletivo, o “no water, no water at all” de Isaya continuou fazendo eco lá no subsolo, onde os canos furados debochavam da secura de Eluai.

De contradições a estranhezas, os Maasais passaram por ambas nos quase 11 dias que viveram em Londres. Quando estão em casa, na Tanzânia, os guerreiros começam o dia ao nascer do sol, às seis da manhã, e terminam quando ele se põe, às seis da tarde. É um tempo mais lento e natural. Mas em Londres eles competiram com os ponteiros do relógio e com o trânsito para chegar a todos os compromissos, para passear, treinar e descansar. Apesar da pressão por mais velocidade, no entanto, eles não aceleraram – talvez por não estarem convencidos de que aquela afobação era algo necessário –, e realizaram algumas atividades agendadas com uma calma de eternidade. Diante da porta de vidro automática do centro de exposições da maratona, gastaram pelo menos 20 minutos tentando descobrir o mecanismo que a fazia abrir e fechar sozinha; numa das entrevistas coletivas, alguém pediu aos guerreiros a demonstração de uma dança típica Maasai. Solícitos, eles cantaram e dançaram durante um, dois, três, cinco, quase seis minutos, enquanto o tempo da coletiva já havia estourado em outros 15, e um Paul Martin sem jeito sinalizava a Isaya que já era hora de parar com a cantoria.

Os jovens tanzanianos não passaram ocultos aos ingleses em nenhum lugar. Apesar de serem os turistas, eram eles mesmos a atração das atrações que visitaram: na roda-gigante London Eye, na Torre de Londres, no metrô, diante dos guardas reais e seus cavalos impecáveis em Whitehall, sempre havia quem tirasse fotos daqueles homens de vermelho e outras cores. Da chegada ao aeroporto de Heathrow até o dia da corrida, mais que uma sequência de curiosidades culturais, os Maasais eram o exemplo gráfico de como as necessidades de um homem (tanto mais a necessidade de água) fazem dele um ser de múltiplas habilidades e senso de adaptação aguçado.

De cultura pastoralista e semi-nômade, os Maasais vivem com a família em grandes casas de pau-a-pique instaladas em regiões onde estão a água e o pasto. Quando os recursos acabam, eles se mudam, carregando família e gado, suas duas maiores riquezas. Daí a dificuldade dos governos do Quênia e Tanzânia dizerem ao certo quantos Maasais existem na África. Os números oscilam entre 500 mil e um milhão. Também não há certeza sobre a origem dessa tribo, mas segundo pesquisadores e a tradição oral transmitida de geração em geração, os Maasais existem há cerca de mil anos e podem ter as raízes de suas tradições nos soldados romanos, dada a semelhança de ambos em detalhes como os escudos e lanças que carregam, a cor vermelha dos mantos que vestem e o design das sandálias que calçam, hoje feitas com tiras de pneu.

Para ter energia e suprir a falta de água, os Maasais se alimentam do leite das vacas e cabras que ordenham diariamente, e também do sangue desses animais, que eles extraem sem matar. “Sacrificar um animal é algo muito sério, já que o gado é tudo para eles, é a fonte de alimento e moeda de troca por outros alimentos e utensílios”, explica Martin. Para comer carne, os homens, e somente os homens da tribo, realizam um ritual no qual extraem o máximo de carne possível e distribuem os melhores pedaços segundo a hierarquia patriarcal que vivem, priorizando os mais velhos e os guerreiros. Às mulheres sobram os intestinos.

Povo de rituais, os Maasais tratam o amadurecimento masculino com solenidade. Até que um jovem se torne adulto e guerreiro de fato, é preciso passar por estágios que compreendem testes, como a caça de leões, e cerimônias, dentre as quais a raspagem do cabelo, a criação de cicatrizes na pele feitas à fogo e a circuncisão. Quanto às mulheres, seu status de maturidade é reconhecido pelo homem por meio do casamento. A controversa “circuncisão” feminina – durante a qual é mutilado o clitóris e às vezes até os pequenos e grandes lábios da vagina – também é praticada, mas a escala em que se realiza não é facilmente mensurável, uma vez que os homens e mulheres Maasais tratam com pudor esse assunto e a mutilação é realizada durante rituais privados. “O papel da mulher na vila é o mesmo de uma mulher de qualquer cultura patriarcal: suas tarefas estão ligadas ao cuidado da casa e das crianças, enquanto os homens se dedicam à caça e à proteção do povoado e do gado contra a ação dos animais selvagens” diz Martin, do Greenforce.

Na realidade multicultural de Londres, os adaptáveis homens da Tanzânia andaram lado a lado com mulheres loiras, ruivas e morenas, com homens de turbantes e moicanos; se encantaram com as bicicletas, com as cozinhas modernas, com o carpete nos banheiros e os colchões sobre os quais dormiram, tão diferentes das camas de bambus empilhados onde descansam toda noite em Eluai; compraram lembrancinhas para a família – bijuterias e espelhos para as vaidosas mulheres Maasais; admiraram pela primeira vez a beleza de um cavalo montado por um guarda inglês, foram desafiados pelo movimento contínuo das escadas rolantes e abriram o paladar ao sabor insosso da comida inglesa. “Nossa carne e nosso leite têm gosto e cheiros muito mais fortes”, disse Isaya, sentindo falta da cozinha das mulheres de Eluai. Isso não significa que os guerreiros não tenham se rendido ao sabor de algumas esquisitices do lado oeste do mundo, como a textura soft do croissant que comeram no bed and breakfast da irmã de Paul Martin, no distrito de Kent, onde ficaram hospedados. Lá também provaram o típico chá inglês com leite, comeram cereal de chocolate e comeram mais, bem mais do que as duas vezes por dia que se alimentam na Tanzânia. Não fosse o ambiente de família que encontraram na hospedagem, rodeados por Paul, a irmã, sobrinhos e vizinhos, os Maasais, homens-família por natureza, teriam sentido ainda mais falta de casa. “Gostamos de Londres, mas gostamos mais da nossa casa em Eluai”, declarou Isaya, reafirmando a pétrea postura dos Maasais de preservar as próprias tradições, sem se render aos apelos de modernidade da cultura ocidental branca que lhes chegam por meio dos turistas e dos próprios governos locais.

No dia da maratona foram eles, os negros cheios de outras cores, que abriram a competição. Com seus escudos e lanças de caça, dançaram, cantaram e correram. Lá pelas tantas, uma chuva torrencial despencou sobre Londres, e os Maasais cruzaram a linha de chegada ensopados, com os sorrisos ainda mais largos, e com a pele de um negro ainda mais reluzente.

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foto/andré penteado

Com apenas 27 anos e cabeça ultra-fértil, o designer Maurício Stein é pago para vasculhar brechós, ir a festas, visitar outros países e descobrir  o futuro da moda eyewear no mundo

 

  O designer de óculos Maurício Stein vinha de um longo dia de trabalho quando chegou, às 6.30pm, à estação de metrô Old Street, no centro de Londres. Ele havia passado a manhã e tarde daquela quarta-feira vasculhando araras e prateleiras dos brechós da cidade. Entrou em 18 atrás de chapéus, estampas, roupas e óculos. Se empolgou com alguns objetos, encheu as sacolas e terminou o dia com menos 800 libras – quase 3 mil reais gastos em “velharias”.  Mas para Stein o dinheiro não é tanto assim e as velharias, nas mãos dele, viram modelos exclusivos de óculos que se multiplicam e vão parar nos rostos de milhares de consumidores na Europa e no mundo, entre eles, no da top model inglesa Kate Moss.

Com apenas 27 anos de idade, o gaúcho Maurício Stein trabalha como trend hunter (termo em inglês que significa “caçador de tendência”) no setor de óculos das lojas de roupas e acessórios Topshop – dona da marca Kate Moss – e Topman, duas das mais importantes de Londres e ambas pertencentes à rede de lojas da gigante britânica Arcadia Group. Stein estudou design industrial em Porto Alegre, trabalhou como designer de jóias e móveis no Brasil e chegou em Londres há três anos para fazer mestrado e se especializar em design de móveis.

Mas o dinamismo da capital inglesa o levou por onde quis. O gaúcho trabalhou como garçom, vitrinista e assistente de vendas, o mestrado nunca aconteceu e um ano depois de sua chegada em Londres, trabalhar como  designer de óculos, que não estava nos planos, surgiu como profissão e loteou seu talento. “Estudei desenho industrial, mas também gostava de moda. Procurei emprego nessa área e comecei a trabalhar como designer de acessórios na Anglo Accessories, empresa ligada ao Arcadia Group e que é contratada para produzir os óculos que abastecem as linhas da rede. Depois de um tempo fui designado para produzir com exclusividade os óculos da Topshop e Topman”, diz.

Como um dos principais responsáveis pela criação dos óculos que vendem dezenas de milhares de unidades e que ditam a tendência eyewear no Reino Unido e em mais de 20 países onde a Topshop e Topman existem, Maurício Stein é o homem do futuro, aquele que deve enxergar a tendência com pelo menos dois anos de antecipação.

Para essa tarefa, o designer conta com uma agenda de tarefas no mínimo lúdicas – entre elas, a visita semanal a brechós – e com um orçamento generoso da Arcadia Group (ele não revela quanto) para investir em pesquisa.

A participação em festivais de música na Inglaterra e outros países – cerca de 20 ao ano – é outra tarefa de Stein. Em cada um desses festivais ele vai com a missão de observar pessoas às quais chama de trend setters, ou seja, aquelas que ditam tendências – em geral artistas, músicos e gente ligada à moda. “São pessoas que não usam uma roupa porque viram alguém usando na revista, mas porque acharam uma blusa perdida em casa, pegaram os sapatos da avó, os óculos do irmão, misturaram tudo e fizeram a própria moda. Os elementos da tendência já estão nos sapatos delas, nos óculos e roupas. Outras pessoas vão começar a imitá-las e, em um ano, um ano e meio, aquilo que parecia esquisito vai explodir e virar moda”, explica.

 O designer ainda vai a festas como parte do seu trabalho. Até dezembro de 2007 a BoomBox, realizada periodicamente no bairro de Old Street, era uma das principais, reunindo numa mesma pista de dança centenas de trend setters. Com o fim da BoomBox no ano passado, surgiu o karaokê Sing Along  Electricity, também em Old Street e igualmente um mar de referências à espera do anzol de Stein.

 

Tenedências além-mar

Para marcas globais como Topshop e Topman, presentes em regiões singulares como Kwait e Indonésia, a pesquisa de tendência apenas em Londres não é suficiente para oferecer um panorama fiel da moda futura. Então, o trend hunter atravessa os oceanos para caçar referências. A cada ano ele viaja ao menos uma vez para o Japão, Espanha, França, Itália e China. Em cada país visita fábricas, lojas, clubs, restaurantes, vai a shows e festivais e, claro, observa as pessoas e tira foto de tudo como uma espécie de olheiro implacável. Ele não perdoa nem a caixinha com design interessante que veio embalando sua comida.

As idéias, segundo Stein, vêem de qualquer lugar: filmes, músicas, história em quadrinhos e até das listras de uma abelha que por acaso cruze seu caminho. Numa viagem que fez ao Brasil, por exemplo, ele visitou a feira de usados típica de Porto Alegre chamada Brique da Redenção. Lá no fim da feira encontrou uma barraca apinhada de óculos. “O dono da barraca passava nos asilos recolhendo os óculos dos velhinhos e vendia tudo a um, dois reais. Tinha coisas interessantíssimas das décadas de 60 e 70. Enchi uma sacola e trouxe para Londres. Com base neles criei óculos para a Topman. De uma linha com 30 óculos, três eu criei usando o que encontrei na feira. Que europeu vai imaginar que está usando os óculos inspirados nos velhinhos de Porto Alegre?”, diverte-se.

Na Anglo Accessories há uma espécie de arquivo com todas as fotos e objetos de referência colhidos por Stein e seus colegas. “Isso oxigena o setor de criação”, conta. A construção desse armazém de idéias, no entanto, é só metade do trabalho do trend hunter. Há ainda o momento crucial de juntar os elementos dispersos e transformá-los num quadro coeso que redundará numa tendência e, em seguida, em dezenas de modelos de óculos. Segundo o designer, é o momento de “viajar”.

 

Profissão abstrata

Durante a entrevista, Stein se surpreendeu com a natureza do próprio trabalho. “Criar óculos parece abstrato, não é mesmo?!”. Sim. Mas mesmo a abstração tem lá sua lógica. “A gente pensa nas referências que pesquisou, imagina um grupo de pessoas para elas, depois pensa os óculos com base nesse grupo e nas informações de mercado que a empresa nos dá; em seguida, criamos os modelos e os apresentamos para os compradores da empresa, que são os responsáveis por dizer quais óculos vão para as lojas e quais não vão”, descreve Stein.

A reunião com os compradores é fundamental, diz o trend hunter. “Eles entendem de design, mas entendem mais de mercado, do que vende ou não, e isso é bom, senão nossos óculos não iam vender porque só íamos colocar coisas loucas nas lojas” (risos).

Mas em Londres até as loucuras vendem. Stein pensou nuns óculos cujo fio que passa por dentro da armação e dá cor à sua estrutura era o mesmo fio que servia para pendurar os óculos no pescoço do usuário. “Vendemos muito desse modelo!”. Com uma colega designer, ele criou um par de óculos com lentes em forma de coração. “A Kelly Osbourne (atriz e filha do músico Ozzy Osbourne) apareceu no jornal usando esses óculos. Foi louco ver aquilo”, comemora, orgulhoso das próprias “viagens”.

 

 

 Fenômenos e tendências

Caçar tendências tem ficado complexo nos últimos cinco anos. Stein diz que o fenômeno da globalização homogeneizou a moda. Quando foi ao Japão em 2007 para oxigenar as idéias, encontrou a juventude nipônica copiando a inglesa. “O mundo está híbrido”, reclamou. Por isso, na opinião dele, os países mais propensos a ditar novas tendências são aqueles de cultura mais “isolada”, como Islândia e Dinamarca.

Outra consequência da globalização na moda é a releitura de passados cada vez mais recentes. “Nos anos 90 existiu o revival dos anos 70, nos anos 2000 o revival dos anos 90, e nessa era de informação rápida, coisas que eram legais há cinco anos já estão sendo resgatadas de novo. É como o cachorro correndo atrás do próprio rabo; uma hora ele vai morder o rabo e, quando esse choque acontecer, vai ter que surgir algo totalmente novo”.

E esse novo, diz o designer, pode estar num passado de 100 e até de 600 anos. “Estamos pesquisando agora os óculos do início do século XX, feitos de um tipo de plástico chamado baquelite; eram modelos redondos, pequenos. Os óculos estão ficando menores, minimalistas. Também estamos buscando tendência na época Medieval. São períodos únicos que podem inspirar a fazer coisas novas”, diz Stein, deixando entrever o que existe em sua cabeça de trend hunter que vive bem longe, lá no futuro.

 

 

BOX

OVELHA NEGRA LUCRATIVA

Com 200 óculos na bagagem, o designer Maurício Stein desembarcou no Brasil em março de 2007 com uma missão: vender a brechós de Porto Alegre os óculos que produziu para as lojas Topshop e Topman e que foram rejeitados por elas. “Rejeitaram porque muitos eram vanguarda demais. Mas isso é normal. De mil óculos que a gente cria por ano, apenas 20% vão para as lojas”, revela. Em cada brechó, Stein explicou a história dos óculos aos compradores. “Disse que a maioria havia sido feita para a coleção da Kate Moss e que ela mesma aceitou os óculos, mas a empresa não. Alguns toparam comprar na hora, outros rejeitaram, dizendo que pareciam óculos de camelô porque não tinham marca (risos). O Brasil ainda é muito ligado a marca, e os meus óculos, que batizei de Rejected Samples (Exemplares Rejeitados), são a não-marca por excelência. Eu gosto disso”.

Dos 200 modelos “non-gratos”, 150 foram vendidos. Os outros 50 já estavam prometidos de antemão aos amigos e familiares de Stein, que os aceitaram felizes, sem qualquer objeção.

 

Reportagem publicada na revista View, ed 88, maio/2008

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fotos/Jackie Dewe Mathews

fotos/Jackie Dewe Mathews

 Apesar dos imprevistos que poderiam ter inviabilizado seu projeto, a fotojornalista inglesa Jackie Mathews pôs câmeras e filmes na mochila e desembarcou na Índia para contar duas histórias delicadas

 

Para o fotojornalista que escolhe pessoas como objeto, tão importante quanto a qualidade da câmera, filmes e lentes que utiliza para captar a história a ser contada, é a capacidade de entrar na vida da fonte sem intimidá-la e, quando for o caso, de romper sua resistência sem perder a diplomacia. “Fotografar é a parte mais fácil. Dificil é seguir em frente mesmo depois de receber só ‘nãos’ como resposta”, diz a fotógrafa e assistente de câmera inglesa Jackie Dewe Mathews, de 29 anos, que em 2007 passou um mês na Índia realizando o que foi seu primeiro grande trabalho fotojornalístico.

Jackie graduou-se em filosofia em 2000, concluiu em 2007 um mestrado em fotojornalismo na Universidade de Comunicação de Londres e, apesar da pouca idade, realizou um trabalho de fôlego na Índia, tanto pelo tema quanto pela qualidade das fotos.  Ela retratou a rotina de duas comunidades, a das Devadasis e a dos Jogappas.  A primeira é formada por mulheres dedicadas desde jovens pelos pais à deusa Yellamma, da religião hindu. Como parte dos serviços que prestam à deusa, as mulheres oferecem orações à divindade e o corpo aos homens, dos quais cobram pelo serviço; são prostitutas e religiosas ao mesmo tempo. Os Jogappas – que Jackie conheceu por acaso enquanto visitava as Devadasis – são homens que também se dedicam a Yellamma, vestem-se como mulheres, rezam e fazem sexo com homens em troca de dinheiro. São homossexuais dedicados à prostituição e, tanto quanto as Devadasis, carregam uma aura de sacralidade.

Pisando em um terreno duas vezes delicado – que agrega religião e prostituição –, Jackie levou mais de um mês até conseguir sua primeira resposta positiva para aproximar-se das duas comunidades. “Há tempos eu queria fazer um trabalho cujo tema fosse a mulher. Pesquisei e acabei encontrando a história das Devadasis. Estava ainda na Inglaterra e entrei em contato por e-mail com algumas ONGs na Índia que lidavam com esse grupo, pedi informações, falei do meu projeto, pedi ajuda com tradutor.  Alguns se mostraram entusiasmados com a idéia, mas não podiam ajudar por não terem recursos ou porque estavam muito ocupados. Por fim, a organizadora de uma das ONGs se dispôs a ajudar. Então eu achei que esse contato era suficiente e comprei as passagens para a Índia. De repente ela parou de responder meus e-mails. Quando voltou a responder, disse que já não poderia me ajudar mais, não poderia me colocar em contato com as Devadasis nem conseguir tradutor. Eu já estava com as passagens compradas e decidi ir mesmo assim. Foi assustador. Entrei no avião sem nada nas mãos”, relata Jackie.

 

Conhecer o terreno

Foi só ao pisar em solo indiano que Jackie descobriu o caminho das pedras. “Além dos “nãos” de algumas ONGs, tinha nas mãos um par de endereços de outras instituições. Fui atrás dos organizadores e expliquei meu projeto. Uma dessas pessoas disse que estava farta de jornalistas querendo retratar as Devadasis como vítimas. Eu percebi que meu discurso era esse;  só então entendi que lá existe um conflito de opiniões, de um lado as ONGs que tratam as Devadasis como coitadas, do outro, as que as vêem como profissionais”, disse a fotógrafa, que depois desse episódio colheu, in loco, mais informações sobre as Devadasis, mudou o discurso – mais antropológico e menos militante – e conseguiu o primeiro sim da diretora de uma ONG local. “Pesquisa é fundamental. Hoje teria estudado mais o assunto, conhecido mais pessoas e não apostado todas as fichas em um só contato feito por e-mail. Mas mesmo com muita pesquisa à distância, nada substitui o contato cara a cara com a fonte, que percebe sua seriedade e vê que você está ali para trabalhar mesmo”.

Com a ajuda da ONG, a fotógrafa passou um mês na cidade de Sangli, sudoeste indiano próximo à capital Mumbai, visitando diariamente Devadasis e Jogappas, almoçando com eles, conhecendo suas famílias, sua rotina e, com a ajuda de um intérprete, absorvendo as histórias que estava disposta a contar por meio das fotos. “Eu acordava muito cedo, preparava minha comida e ia para a casa de alguma fonte. Me vestia como as mulheres solteiras indianas, com uma espécie de túnica, não mostrava nada do corpo porque eles são muito restritos nesse aspecto. Também tomei cuidado de não fumar nem beber em público, já que as mulheres indianas não fazem isso”, explica  a fotógrafa. “Me senti muito à vontade com os Jogappas e Devadasis, são pessoas amáveis e divertidas”.

 

Bagagem certa para o incerto

Se Jackie não sabia quem encontraria na Índia, tampouco tinha certeza sobre o tipo de cenário para suas fotos. Por isso se preparou com câmeras, filmes e lentes que, segundo ela, poderiam se adaptar a situações opostas e adversas. Na bagagem a fotógrafa carregou uma Leica (35mm) e uma Mamiya médio formato.  “A Leica é fantástica porque é discreta e silenciosa, ideal para situações intimistas e também de pouca luz. A Mamiya é mais difícil de usar já que é o oposto da Leica nesses aspectos, mas a qualidade da imagem compensa”, explica Jackie. Segundo ela, a escolha da câmera de filme em vez da digital se deu por razões estéticas e de praticidade. “Eu prefiro o filme pela beleza, pela granulação que é mais interessante. A digital tem a vantagem de mostrar o resultado na hora, mas por outro lado consome mais bateria, você precisa de eletricidade, de um laptop, e naquela viagem eram recursos difíceis de se conseguir. Fora isso, se alguma coisa vai mal com a câmera digital, é muito mais difícil encontrar alguém que saiba consertá-la, enquanto o mecanismo da câmera de filme é muito mais simples de ser entendido”.

Ao escolher as lentes, Jackie usou a mesma lógica das câmeras: uma 35mm, mais discreta, e outra 50mm, para chegar um pouco mais perto. Na maior parte do tempo ela usou a 35mm “porque é mais verdadeira para o olho”. Como a maioria das fotos foram tiradas nas pequenas casas dos fotografados, Jackie sentiu falta de uma lente wide para abarcar melhor o ambiente. “Eu senti falta também de uma 80mm, para chegar ainda mais perto, mas levar poucas lentes é um sacrifício que a gente faz. Nesse tipo de trabalho não dá pra trocar de lente o tempo todo porque você perde boas fotos com isso”. Jackie também carregou na mochila um fotômetro e mais 150 rolos de Kodak Portra NC asa 400, filme profissional que ela preferiu levar em estoque para não correr o risco de ficar sem e não encontrar para comprar na Índia. “É um filme muito natural, o resultado é muito próximo do que o olho vê e funciona bem em situações extremas, com muito brilho, muitas cores, pôr do sol, pouca luz. Se eu tivesse escolhido um filme mais lento que asa 400 teria tido problemas por causa da pouca iluminação”, explica a fotógrafa.

A revelação foi outra sinuca. Por causa da inexistência de laboratórios “confiáveis”, ela preferiu revelar todos os filmes ao chegar à Inglaterra. “Foi um risco tremendo. Se tivesse tido algum problema com o resultado, seria impossível voltar à Índia e refazer tudo”, conta. Uma das suas preocupações foi o fato de que, em algumas fotos, Jackie alterou a exposição do filme de asa 400 para asa 800. “Queria ter uma imagem mais saturada e contrastante; fiz isso em algumas, mas depois tive receio de ter um trabalho desigual em termos de imagem. No fim percebi que se tivesse alterado a exposição de todas as fotos teria sido bom. Fotografar é isso, é questão de construir o conhecimento com base na experiência”, afirma.

Uma solução apontada pela fotógrafa para o problema da revelação seria enviar os filmes via correio para que alguém os revelasse na Inglaterra e lhe desse um retorno sobre a qualidade das imagens enquanto ela ainda estivesse na Índia. Mas mesmo assim haveria riscos. “Os correios não são 100% confiáveis. Se os filmes fossem extraviados, o problema seria também insolúvel”. No fim das contas o resultado foi positivo, e Jackie teve mesmo dificuldade para escolher as 35 melhores fotos entre as quatro mil que tirou.

 

Velha e nova escolas

Interessada na imagem e na história de vida dos seus personagens, Jackie, com a ajuda do intérprete, entrevistou cada um dos seus fotografados e colocou suas histórias junto às fotos que exibe em seu site. “Antigamente os fotógrafos iam a outros países, fotografavam outros povos e davam a própria interpretação sobre o que viam. Hoje, com recursos como a internet, as pessoas têm sua própria voz e querem falar por si mesmas, e foi isso que tentei fazer”, explica. Jackie afirma que as entrevistas deixavam os fotografados mais à vontade para se mostrarem como queriam ser vistos. “Saber da vida das pessoas ajuda a ler melhor as expressões nas fotos”.

O clima de penumbra e mistério é uma constante nas fotos de Jackie, tanto nas das Devadasis quanto nas fotos dos Jogappas. Segundo ela, a pouca luz ajudou a acentuar o claro-escuro da vida de seus personagens, que ao mesmo tempo em que têm orgulho do que são, não escondem as dores que viveram e vivem por causa da profissão. “Como fotógrafa eu me envolvo com as pessoas, gosto de saber sobre elas, mas não as julgo e tento mostrar todos os lados da história”. Em cada conjunto de fotos, ela procurou abarcar quatro características essenciais ao objetivo da foto jornalística de contar uma história: o primeiro conjunto de fotos mostra o ambiente, o segundo oferece retratos das pessoas, o quarto mostra as pessoas se relacionando entre si e, por fim, o quinto conjunto mostra os personagens trabalhando. “Para editar as fotos levei em conta esse padrão. Contei com a ajuda de outros profissionais para fazer isso, já que estava tão envolvida com o trabalho que dificilmente ia conseguir ser objetiva ao escolher e rejeitar fotos”, ela diz.

Hoje Jackie busca jornais e revistas interessados em publicar suas fotos, divulgar seu trabalho e, de alguma forma, reaver as três mil libras (cerca de R$ 10 mil) que investiu na viagem, entre equipamentos, passagens, seguro, hospedagem e revelação. “Investi dinheiro meu nisso, mas não tinha de antemão nenhum veículo contactado, ninguém que co-patrocinasse o trabalho. No próximo projeto vou buscar interessados em comprá-lo antes de partir para a ação. De qualquer forma, foi uma das melhores experiências que já tive”.

 

 

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Reportagem publicada na revista Fotografe Melhor, maio/2008

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           Uma fábula morta-viva sobre um museu surreal em Londres 

 

Breton já estava morto há 42 anos quando, em 2008, alguém sobre a Terra chamou-o pelo nome.

– Breton, Breton.

Breton não respondeu. Cochilava sentado daquele outro lado do mundo. A voz do além insistiu:

– Ei, Breton, psssst… – mas Breton, de novo, nada.

A voz, então, o interpelou com piti de impaciência:

– É sobre o manifesto, Breton, é sobre o manifesto!

Breton, interando-se de que aquilo era algo que lhe dizia respeito, decidiu responder, mas sem muita ênfase.

– Sim, sim, o manifesto… e quê?

E a voz do além: – é amigo, fui longe dessa vez, comi teu manifesto. Agora o digeri, e te digo: vai virar um negócio e tanto!

Breton levantou-se, olhou lá pra baixo e coçou a nuca. “Mais um atrasadinho”, resmungou, deixando-se cair com fastio no puff de nuvens.

Quando escreveu o manifesto surrealista, em 1924, o filósofo francês André Breton soava como aquele homem que o chamava desde a Terra: um desbravador cheio de expectativas e audaz, na iminência de pôr de ponta cabeça o mundo enfadonho no qual vivia. Breton não tinha dúvidas, então, de que ele e o escritor Philippe Soulpault, que o ajudou a idealizar o manifesto, conseguiriam levar a cabo uma certa revolução surrealista: destruir por completo a sociedade racional – que, diziam eles, “era hostil a todo impulso de liberação intelectual e moral” – e erguer em seu lugar uma outra totalmente nova, baseada na hegemonia do subconsciente do homem, da fantasia e da imaginação livres de qualquer domínio da mente.

Mas ali, sentado sobre o puff celeste desde 1966 até a eternidade, Breton puro espírito já não se parecia mais ao Breton carne-osso-e-sonho do manifesto. Estava tranquilo demais, satisfeito com a paz e plenitude que amealhara na morte. Além disso, o surrealismo, como ele o havia idealizado, provara-se impraticável em sua totalidade – e foi preciso a visão panorâmica da morte para que Breton e Soulpault o percebessem. Aquela idéia de “automatismo psíquico puro pelo qual se propõe exprimir, seja verbalmente, seja por escrito, seja por qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento”, fora tão além do que a Humanidade (com seus formalismos) poderia abarcar que ultrapassara as décadas pelo alto, fazendo breves pousos entre uma e outra, conquistando espíritos artísticos aqui e ali, mas sem lograr atingir a totalidade das mentes como queriam os sonhadores franceses, como queria, provavelmente, aquele homem do além que incomodava o cochilo do filósofo. Seu discurso seria semelhante ao de outros tantos que, de tempos em tempos, procuravam pelos auspícios do pensador defunto. A revolução, Breton! O momento é agora! Descobrimos um novo sentido para a existência! A imaginação tomará à razão o lugar e, finalmente, seremos livres, livres, livres! O que você nos diz, hein, hein?”, clamaria o homem da Terra. Pfff, pfff, pfff”, lhe contestaria Breton, com desdém. Em mais de três décadas de morte suas idéias já estavam bastante curtidas pra se animarem com as boas-velhas que lhe davam desde o lado de lá, previsível e chato.

– Oh, imaginação querida, o que sobretudo amo em ti é não perdoares – balbuciou Breton, sorrindo meio murcho para Deus que passava por ali no momento e lhe adivinhava a nostalgia.

– Ei, Breton, e então? Te conto minha idéia? É a tua cara, amigo!

O homem do além seguia no encalço do filósofo. Pior que alma penada esse aí, reclamou o francês, e voltou a dormitar. Virou de um lado pro outro, afofou o puff, mas o sono não vinha. Aquela referência ao manifesto feita pelo homem que o chamava levou Breton a uma volta forçada ao passado, aos tempos fervorosos de pensador jovenzinho, nem trinta anos ainda, e já tão arrojado. Com os olhos fechados enxergava melhor – habilidade dos tempos de sonhos frequentes – e foi assim, embalado pelo torpor do semi-sono, que Breton defunto viu, escritas em cor prata, frases que lhe justificaram em vida. Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação; “só a imaginação me dá contas do que pode ser, e é bastante para suspender por um instante a interdição terrível; é bastante também para que eu me entregue a ela, sem receio de me enganar; “o sonho não pode ser também aplicado à solução das questões fundamentais da vida?”. Estava saudoso o velho filósofo, pela primeira vez na morte. Levantou-se e decidiu limpar da memória a poeira.

– Ei, pssst, você aí embaixo, quer falar comigo?

– Breton, é você?! – perguntou o homem vivo, feliz com a honraria.

Oui, je suis, André. Que idéia é essa que você diz ter? Digeriu meu manifesto, foi?

Lá embaixo estava Fraser Laing, o homem do além, escocês, amigo de Breton pelos registros da História – não se cruzaram em vida – e admirador das suas fantasias. Sentado numa cadeira aos fundos da Arckiv, sua loja de óculos vintage instalada num pequeno galpão de tijolo à vista de 1850, encalacrado numa quina do mercado de Camden Town, ao norte de Londres, Fraser mexia e remexia o amontoado de objetos misturados numa caixa de madeira. Ali estavam os planos dele, seu bolo alimentar marinado nas idéias surrealistas de Breton que ele pretendia transformar, em breve, numa particular revolução. Um por um, Fraser foi retirando os objetos de dentro da caixa e dispondo-os sobre a mesa para que o filósofo os visse de lá do outro além: óculos quebrados, protótipos, placas de acetato bruto, armações inacabadas, com uma haste a menos ou uma fita adesiva a mais.

– Esse é meu plano, Breton – ele disse, sobrolho desafiador.

– Hã? – retrucou o filósofo, com o cenho entre o ceticismo e a chacota. – Seja mais específico, rapaz, e breve, porque a eternidade é longa, mas minha paciência não.

Fraser Laing não tinha o que temer diante de Breton. Conhecia em profundidade a obra do francês, e não incorreria em impropriedades com o mestre. Ele também não tinha o que temer pelo seu plano: era inusitado, visceral e onírico, à la Breton. Talvez faltasse ao discípulo mais clareza na explicação de suas idéias. Fraser pediu um minuto a Breton, levantou-se e foi até a entrada da loja, onde estão expostos seus óculos mais extravagantes. Voltou minutos depois carregado de esquisitices: óculos com formato de boca, com geometria irregular, simulando máscaras do carnaval de Veneza, óculos duplos (dois pares emendados), óculos imitando olhos orientais, óculos desmontáveis e até um monóculo com duas hastes, próprio para quem tem um olho na testa e crânio absurdamente estreito. Breton pareceu mais interessado. Levou a mão ao queixo, meneou a cabeça e grunhiu humm com a entonação de quem se percata de algo a mais.

– Isso também faz parte do plano? – perguntou-lhe o filósofo.

– Sim, juntamente com os outros. Há milhares deles, na minha casa também. Fui juntando ao longo de dez anos, pedindo a amigos, comprando em feiras, mercados, em viagens feitas pela Europa, encontrando na rua.

– Na rua?

– Sim, como aqueles da caixa de madeira. Encontrei a maioria deles numa fábrica de óculos do século XIX na França. Estavam desativando a fábrica e jogando tudo fora. Eu passava por acaso, vi aquilo e peguei tudo: óculos, protótipos – coisas com quase um século de idade –, documentos, catálogos, livros. Tudo. Preservei pra Humanidade.

– Ambicioso, não? – disse Breton, fazendo troça.

– Não disse que era sua cara?

O francês corou.

Fraser Laing costumava ir ao mercado de pulgas em Glasgow, na Escócia, quando era pequeno. Não se lembra se colecionava algo – talvez um tipo de porcelana de marcas famosas da época. Mas lembra-se de que havia um vendedor no mercado que possuía caixas e mais caixas de fotos de esportes dos anos 20, e que havia gente vendendo pinturas do século XVIII, e gente negociando objetos arqueológicos, e isso tudo, que ele via por entre as pernas dos adultos, era fonte de absoluto encantamento. Não era tanto a idade das mercadorias que o fascinava, mas a possibilidade da troca de História entre os negociantes – seu século XVIII pelo meu XIX; que absurdo tão palpável. Depois, mais velho e com os olhos mais treinados para a beleza das coisas, Fraser foi estudar cinema em Londres. Já aí seus planos se formavam. Terminou os estudos – mas nunca terminou de filmar um roteiro sem-fim que criou, como um sonho a emendar no outro – e, tempos depois, foi morar na Itália. Passou 10 anos por lá, cinco dos quais trabalhando num antiquário de Nápoles. Acordava às três da manhã para ir negociar nos mercados fora da cidade, tête-a-tête com gente que vendia obras Barrocas, pinturas do século XVII e outras raridades. Fraser saiu de Nápoles com o cheiro de História impregnado nas narinas, os olhos aguçados para a beleza estética e a imaginação, esta lareira, ainda mais acesa que nos tempos do mercado de pulgas em Glasgow. Em Londres, ele transformou-se num surrealista das ordinariedades. Quando vai ao trabalho, em Camden Town, Fraser escolhe sempre os caminhos com mais fantasia, como aquele em que passa diante da igreja onde John Keats, poeta inglês do século XVIII, foi batizado; ou como a rua que o deixa próximo ao jardim mortuário onde está enterrado Daniel Defoe, escritor e conterrâneo seu do século XVII. Para instalar a nova Arckiv, que Fraser reformou há pouco mais de um ano, ele escolheu o tal galpão de 1850, cuja parte dos fundos tem uma geometria espiralada, lembrando um olho, onde ele guarda suas raridades em óculos, livros e documentos. Há muita substância para a imaginação na história que permeia minha rotina, ele diz. Imaginar requer lenha e engenho.

E lá estava Fraser Laing diante de André Breton, a explicar-lhe que foi justamente nos óculos, esses objetos tão ordinários (como  ordinária é a matéria-prima do surrealismo: a vida comezinha embalsamada pelos sonhos), que ele descobriu a plataforma ideal para materializar as fantasias e desejos das pessoas. Fraser também explicou ao francês que a Arckiv nasceu, em 1998, como uma loja de óculos especializada em fornecer peças de época a produções de cinema e teatro – o que já lhe garantiu importantes encomendas para as óperas Orlando e Macbeth, para o remake do filme Charlie and the Chocolat Factory, ao musical Billy Elliot, entre outros. Mas muito antes de ser uma loja, a Arckiv era o embrião de um museu dos óculos (seu plano mestre e surreal), um museu da gênese desses objetos, que preserve e exiba seus protótipos e placas de acetato, seus modelos centenários e excêntricos, um museu que acolha em seu acervo goggles gigantescos, dolorosos pince-nez, armações sem lentes e inacabadas, pessoais pares com remendos nas hastes e pontes feitos de fita crepe ou durepox; um museu que aceite qualquer viagem estética e que proíba, terminantemente, a exposição de objetos convencionais, que não tenham sido inspirados por sonhos ou que caibam na razão humana – o que dá na mesma, enfim.

Fraser tomou da mesa um par de óculos escuros dos anos 40 sem uma das lentes, colocou-os no rosto e inclinou a cabeça para trás, deixando os olhos evidentes a Breton.

– Veja, Breton, esses são uns dos meus preferidos. Você os coloca e se parece um bicho com eles. O que acha?

O francês estava mesmo bem impressionado com Fraser. Via nele conhecimento, mas não do burocrático, das citações e apostilas…

– E o monóculo, Breton, você gosta? Esse estará logo à entrada do museu porque a tendência das pessoas é tentar colocá-lo de primeira, ainda que seja impossível.

… e sim do apaixonado, consistente, aquele que sabe as coisas de cuore (sem lirismos), e que por isso anda tão confiante e próspero, apesar, apesar…

– Fraser, meu caro, aprecio tua idéia, mas, não estará muito tarde pra falar em surrealismo?

– Tarde? Como tarde?

– Sim, tarde. Porque, veja, isso foi há mais de 80 anos. Já não dá mais caldo, amigo. Se lá, quando ainda havia lirismo e tempo, a Humanidade já era dura, que dirá agora! Que fiasco não será um museu surreal num ambiente sem tempo para sutilezas imaginativas. O que não é tangível não serve, meu caro.

– Breton, Breton… – disse Fraser, condescendente, sentando-se numa quina da mesa. – A morte tirou seu frescor, não foi?

– Talvez, mas também me deu uma visão panorâmica dos tempos muito útil.

– Olha, que os dias sejam outros, talvez mais duros hoje, eu concordo; talvez menos propícios à contemplação e fruição da fantasia, com pesar, eu também concordo. Mas, daí a dizer que é tarde, então já não compartilho com a opinião do mestre. Porque o tempo, em relação ao sonho, é circunstancial; sonho dentro do tempo, mas não preciso do tempo pra sonhar. Da essência do surrealismo, Breton, é a imaginação, atemporal e democrática.

– Humm – resmungou o filósofo, com a mesma entonação de descoberta de antes.

– E tem mais: o espírito do homem que sonha…

– … se satisfaz plenamente com o que lhe acontece.

– Portanto, Breton, se o meu museu surrealista for um fracasso, se ninguém aparecer, ou pior!, se só uma pessoa aparecer para testemunhar o malogro e depois divulgá-lo, eu direi a mim mesmo: ei, Fraser, acorda, foi tudo real. E assim, o sonho, que é perfeito, continuará íntegro.

Fraser permaneceu sentado na quina da mesa, olhando para cima e esperando um parecer de Breton, que revivia na memória, em silêncio, cada momento seu como surrealista em vida. Na eternidade, o tempo, esta convenção, é outro. O filósofo repassou a vida em segundos, mas Fraser, na Terra, esperou pela resposta por dias e dias.

– Ei, Breton, pssst! E então, amigo, o que acha do museu surreal?

Aller de l’avant! Aller de l’avant! – bradou-lhe o francês, com uma esperança inédita que foi ouvida até na última nuvem.

Fraser agradeceu ao filósofo. Saiu em seguida a caminhar pelas ruas ordinárias de Londres, sob o sol de todos os dias, à procura de mais lenha. Quanto a Breton, o sono recaía-lhe por cima. Ele ajeitou-se outra vez no puff de nuvens e procurou a melhor posição, de lado, com as mãos juntas sob a cabeça amaparando-lhe os sonhos ressuscitados. O surrealismo atua sobre a mente como os en-tor-pe-ceeenn-tessss”, balbuciou o filósofo dormente, num bocejo tão satisfeito e longo que teria durado a eternidade na Terra.

 

 

 

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foto/andré penteado

foto/andré penteado

 Com mais mundos interiores que uma mulher, o músico alemão Gon Von Zola é o vocal, guitarra, baixo, bateria e teclado do The Budda Cakes, banda que ele criou em parceria com outros eles

 

Coubemos os quatro sentados confortavelmente no pequeno banco de madeira. Gon, o vocalista e tecladista da banda indie The Budda Cakes, já se acostumou a ter o baixista Gordon Naspick e o baterista King Prince acomodados sobre seu colo e ombros o tempo todo, mesmo quando não estão tocando. Então, eram os três num lado do banco e eu no outro, todos bem à vontade, a não ser pelo frio úmido que nos fez contrair os músculos por hora e meia. A nos ouvir estavam os mortos do Highgate Cemetery, cemitério privado construído em 1839 ao norte de Londres. Karl Marx, o defunto ilustre, nos espiou desde que chegamos e pulamos o muro do jardim mortuário até o fim da entrevista.

– A gente precisa mesmo pular o muro, Gon?

– Se formos pela entrada principal vamos ter que pagar.

Pulamos e economizamos 3 libras cada.

Quase todas as folhas das árvores estavam no chão formando um tapete inteiriço de lodo marrom. Era o início do inverno de 2007 em Londres. As lápides do Highgate emergem tortas desde o solo empurradas pelas raízes das árvores, como nos filmes de terror. Quase não há flores para os defuntos, e a cor cinza dos túmulos e dos anjos de concreto fazem a morte mais presente. A morte não atrai tanto Gon quanto seu mutismo. O silêncio do cemitério é o que mais apraz o músico e seus dois companheiros.

– Está frio demais aqui, Gon.

– É a morte – ele disse, e sorriu como se falasse de amenidades.

Até chegarmos à entrevista no cemitério, Gon e eu queimamos oito meses. Tivemos encontros fortuitos pelas ruas de Londres, fui a dois de seus shows, trocamos e-mails e mensagens de celular. Sempre que nos encontrávamos, Gon aparecia acompanhado pelos outros dois músicos. Foi assim na primeira vez que nos vimos, em abril de 2007, diante da casa de shows Roundhouse, em Camden Town, onde Gon e os amigos trabalhavam distribuindo panfletos com propagandas de shows. Aceitei um.

– Obrigada.

– Quer um panfleto meu também?

– Quero. Você faz o quê?

– Tenho uma banda, The Budda Cakes.

– The Buda? Como o Buda?

– Sim, mas com dois “dês”.

– Interessante. Você canta?

– Canto e toco teclado.

– Humm. E que tipo de som sua banda faz?

– Indie. Uma coisa mais expressionista. Vamos fazer um show logo logo. Se quiser, aparece. O endereço está no panfleto.

– Tá bom. Quero ver vocês tocando.

Gon Von Zola é alemão com descendências suíça, estoniana e indiana, gosta de gravatas e, àquela época, trabalhava pelas manhãs numa loja de brinquedos da qual, tempos mais tarde, foi demitido. Gon utilizou a coleção mais valiosa de bonecos Smurfs (trancada à chave no andar de cima da loja) para fazer uma animação com técnica stop-motion. “Meu chefe viu o vídeo no YouTube, não gostou que eu tivesse pego emprestado os bonecos sem falar com ele e me demitiu. E eu ainda coloquei os créditos da loja no fim do vídeo”, disse o músico, indignado com a ação extrema do chefe mal-agradecido.

Gon não diz a idade, não por vaidade, senão pelo gosto de ver a dúvida no rosto dos outros. Algo entre 25 e 27 anos.

– Talvez eu tenha isso mesmo –, despistou, com um sorrisinho no canto da boca.

Gon também gosta de broches e faz os próprios usando mini-fitas K7.

– Mas hoje estou sem nenhum pra te mostrar ­–, ele disse, procurando algum remanescente nas reentrâncias da jaqueta.

A uma mulher que passava, o músico estendeu a mão cheia de panfletos, da qual ela desviou olimpicamente. “Ninguém pega os panfletos”, ele reclamou. “Experimenta dizer que é de graça”, sugeri.

– Hello, sir, free flyer.

Um homem que passava agarrou os papéis como autômato. “Funcionou!”, ele riu. “Vou usar essa tática, ainda tenho tudo isso pra distribuir”.

– Agora tenho que ir, Gon. Nos vemos. See you, then.

King, Gordon e Gon, naquele primeiro encontro, se despediram de mim com dois beijos no rosto. Os três ao mesmo tempo.

 

 De corpo ausente

Às oito e quarenta e cinco da noite, o The Budda Cakes preparava os equipamentos para começar a tocar no pub Tavern, em Archway, ao norte da cidade. À cabeceira do palco Gon colocou um teclado elétrico antigo, à la The Doors, decorado com bandagem branca, e fixou sobre ele um macaco feito de meia preta no rumo da nota mais grave. Em posição vertical em relação ao teclado, ele instalou um piano de brinquedo, desses pequenos, cujas teclas juntas têm a extensão de uma mão de adulto aberta. Diante do teclado pôs um toca-fitas, um suporte com uma dezena de K7s enfileiradas e uma pequena lanterna presa com esparadrapos iluminado o set de fitas.

A luz estava concentrada na frente do palco, ela inteira sobre o alemão. Não havia guitarra preparada, nem baixo; a bateria usada pela banda que fez o show anterior ficou no fundo escuro do Tavern. E nada disso faria falta. Gordon Naspick e King Prince não subiram ao palco naquela noite. E nunca subiriam, porque não existem. Ao menos fisicamente.

Até que criassem novas canções e as gravassem em estúdio, a presença dos dois alter-egos e companheiros de Gon Von Zola não seria mais necessária. O show fora feito por eles quando entraram no estúdio para gravar. Depois disso – e sempre foi assim com o The Budda Cakes –, bastaria que Gordon e King ficassem quietos dentro de Gon e o deixassem tocar ao vivo.

– Boa noite. Bem-vindos ao show do The Budda Cakes.

Aplausos.

– Obrigado por virem. Nós do The Budda Cakes ficamos muito satisfeitos. Eu sou Gon Von Zola e meus alter-egos King Prince e Gordon Naspick estão presentes aqui nessas fitas. So… enjoy The Budda Cakes!

Um playback assumido e bem preparado. Ao vivo mesmo, apenas a voz suave de Gon, seu teclado e o piano de brinquedo. A cada música nova ele tirava a fita do tocador, procurava a próxima que estava na ordem segundo a playlist, encaixava-a no toca-fitas, apertava play e, ao vivo, tocava o teclado em perfeita sincronia com o playback da bateria, guitarra e baixo gravados em estúdio por Gordon Naspick e King Prince. Gravados por Gon, de fato.

Apesar da ausência física de outros membros na banda e da multifuncionalidade musical de Gon (que aprendeu sozinho a tocar guitarra, baixo, bateria, teclado, acordeon, triângulo e a cantar), não é possível dizer, segundo o próprio Gon, que o The Budda Cakes é uma banda de um homem só.

– King, Gordon e eu temos gostos musicais diferentes, preferências distintas e não há um caos aqui dentro, sei separar quem é quem. Por isso digo que o The Budda Cakes não é um projeto solo, mas sim de três pessoas.

 

Meu país por um vinil

Na Alemanha, Gon Von Zola tinha um grupo de rock chamado Barbie Q. Uma banda convencional na formação, com outros três músicos além dele, que tocava guitarra e cantava. Dois membros saíram do grupo e Gon não encontrou ninguém para substituí-los, então resolveu vir a Londres tentar algo diferente.

O músico chegou à capital inglesa em dezembro de 2005 com o sonho vintage de ver os próprios vinis nas lojas. “Eu gosto de discos, da estética da capa, de ter que trocar de lado pra ouvir. Na Inglaterra há uma cultura de colecionar discos e gastar dinheiro com eles que não existe na Alemanha”.

A chegada em Londres no inverno de 2005, no entanto, estava distante da poesia de ter o próprio disco numa loja. Gon tinha três libras no bolso, nenhuma guarida e muita neve sob os pés. Perambulou pelas ruas geladas de Camden Town, bairro de músicos e punks, até encontrar, por acaso, duas brasileiras trabalhando numa casa de crepe.

– Começamos a conversar e elas me convidaram para morar com outros brasileiros e alguns portugueses num squat.

Squats são casas e prédios abandonados comumente invadidos por sem-teto, artistas, junkies e gente dura de toda ordem. Gon topou a idéia do squat e, dois dias depois, ainda ganhou um emprego na casa de crepes, também com a ajuda das brasileiras. Necessidades básicas garantidas, dinheiro para comer e morar, Gon tratou de buscar um lugar para a sonoridade do Budda Cakes nos pubs da cidade.

– Uma das primeiras coisas que fiz quando comecei a tocar em pubs em Londres foi introduzir o teclado elétrico antigo e o piano de brinquedo. Para mim o som do teclado é mágico e o piano de brinquedo é um dos instrumentos mais puros que já foram feitos. A influência musical continuou vindo do som que curto, como Rogers & Hammerstein, Motown, The Doors, Einstuerzende Neubauten e Bach.

O surgimento dos alter-egos King Prince e Gordon Naspick não era uma necessidade, segundo Gon, mas ao mesmo tempo o The Budda Cakes, pela diversidade de habilidades criativas do músico, seria mais completo com a ajuda de outras pessoas que ele tratou de caçar em si mesmo.

Além de cantar e tocar teclado, Gon Von Zola cria a estética do grupo e cuida da divulgação dos shows por meio da distribuição de panfletos e atualização do myspace da banda; Gordon Naspick toca baixo e guitarra e desenha quadrinhos; King Prince é baterista e também responsável pela porção eletrônica na música do Budda Cakes.

– Fisicamente sou eu que toco todos os instrumentos e canto, mas cada instrumento é tocado com personalidades diferentes. Gordon Naspick gosta do som dos seus dedos deslizando sobre as cordas flatwound do baixo; eu adoro o vocal quando consigo chegar ao meu tom mais agudo; King Prince toca uma bateria pesada e busca o som profundo da percussão.

Do ponto de vista estético, idéias colhidas nas ruas de Londres e no dia-a-dia do músico alemão deram corpo e rosto ao grupo. Do cartunista norte-americano Tony Millionaire, Von Zola incorporou o personagem Sock Monkey, o macaco de meia (batizado Uncle Marmelade) que acompanha o Budda Cakes sentado sobre o teclado, numa versão caseira feita com as próprias mãos e meias de Gon. De outro cartunista, Jim Woodring, o músico tomou o nome de seu personagem favorito, Frank, e deu nome ao pequeno estúdio que criou para gravar as músicas da banda (e sobre o qual faz mistério). “Não falo muito sobre o Monti Shnabl Input Frank para não tirar a mágica que ele tem. Mas posso descrevê-lo: é uma pequena biblioteca com prateleiras, livros, instrumentos musicais e equipamentos de som que fui construindo pouco a pouco. Lá tenho uma vela para as gravações que só acontecem à noite. Cada música não consome mais que o tempo de três velas para ser finalizada. Há uma foto do David Lynch em uma das paredes e um cartão postal do filme Angela, de Luc Besson. Existe também um homem morando um andar acima do estúdio e que desce toda noite de gravação para reclamar do som”.

Mesmo depois de chegar à capital inglesa e se estabelecer no squat em 2005, o músico ainda voltou algumas vezes à Alemanha para tocar. A vida por lá ficou inconclusa para Gon, que largou a faculdade de comunicação e só vai terminá-la “se um dia quebrar os dois braços e as duas pernas e não puder mais tocar”.

 

Um Budda vendável

No final de 2007, o som da banda agradou o gerente do pub Enterprise, em Camden Town, e o Budda Cakes ganhou dois meses de residência por lá. Na mesma época foram convidados a participar do single da banda electro punk Robots in Disguise, lançado pelo selo President. Com o cover da música The sex has made me stupid, o alemão ganhou o lado B do disco.

Num dos últimos shows que fizeram em novembro de 2007, o The Budda Cakes recebeu a visita de uma olheira da EMI, selo poderoso da indústria musical. Não se conheciam pessoalmente. Ela disse o nome e os olhos de Gon se abriram. “Ah, então é você!”, ele disse. Ela havia colocado um anúncio no Gumtree, site inglês de relacionamento, compra, venda e afins, buscando novas bandas. Gon respondeu em nome do Budda, e ela apareceu no show.

– Fazia um tempo que estávamos trocado e-mails. Naquele dia da visita ela me disse que gostaria de conversar depois da apresentação. Só que o show acabou e ela foi embora imediatamente. Mandei e-mails e ela não respondeu. Ela deve ter achado que a banda era alguma piada por causa do macaco de meia ou por causa da Britain Kitten.

Britain Kitten é uma modelo norte-americana de 24 anos que faz performances em clubs de Londres com dança burlesca e eletrochoque. Conheceu Gon em agosto de 2007 e foi convidada por ele a ficar sentada ao seu lado no palco durante os shows do Budda Cakes. “Assim as pessoas não ficam entediadas de olharem pra minha cara o tempo todo, podem olhar para mais alguém durante a apresentação”, justificou o músico.

O dia da visita surpresa da olheira da EMI era, por coincidência, o dia da estréia de Kitten ao lado de Gon no palco. Com orelhas, rabo e maquiagem de gato, meia arrastão e um top que evidenciava seus seios maciços, Kitten era, ela mesma, uma outra atração. Informação demais para a olheira da EMI. Talvez a olheira tivesse se escandalizado menos se visse o rapaz que Gon convidou tempos depois para sentar-se ao lado dele: um jovem de aparência e vestes bem normais, que passa o show inteiro descascando cebola e oferecendo alguns nacos à platéia.

Em dois anos de Londres o The Budda Cakes gravou um EP com cinco músicas, produziu 13 vídeos caseiros contando a rotina da banda, fez dois ensaios fotográficos, dezenas de shows em pubs e clubs e gravou no Highgate Cemetery o clip da música Crystal in the Shadow (que até às duas da tarde do dia primeiro de novembro de 2008 havia sido acessado 2,584 vezes no Youtube). Em maio desse ano, o Budda Cakes lançou o álbum X, o primogênito da banda, que pode ser ouvido e baixado no site da rádio Last FM. Com doze faixas, o álbum é uma crônica da vida da banda na cidade dos moicanos e turbantes, do fish and chips e falafel, com referências urbanas e humor non-sense, utilitarismo e algum amor.

Hoje, Gon e os alter-egos não vivem mais em squat – foram expulsos pela polícia –, pagam aluguel numa casa em Archway, ao norte da cidade, continuam trabalhando com distribuição de panfletos (porque a música ainda não dá dinheiro) e recebendo convites de pubs e festas para tocar, inclusive fora de Londres.

Não deixam passar sem registro no Myspace nada do que acontece na vida deles, como a recente, e frequente, participação de um baterista e um baixista (em pessoa!) nos shows do Budda, a inclusão de músicas da banda na playlist de duas rádios inglesas, e o misterioso desaparecimento do macaco de meia Uncle Marmelade, em fevereiro de 2008 – com direito a cartaz de ´Procura-se` no Myspace.

O plano dos vinis continua em vigor. Gon Von Zola já sondou algumas gravadoras. “Me disseram que é possível fazer uma pequena edição de discos, mas eu ainda não os convenci totalmente. Mas tenho certeza de que o The Budda Cakes é vendável em muitos aspectos, há as músicas, os shows, os vídeos, os quadrinhos do Gordon, e as pessoas gostam disso”.

E ainda que Gon não acreditasse na “vendabilidade” da banda, isso talvez não fizesse tanta diferença para os planos futuros e continuidade do Budda Cakes.

– A variedade é uma necessidade pra mim – ele disse, e sorriu por três.

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foto/andré penteado

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 Grandes e desajeitados, os óculos oftálmicos que sempre deram cara aos impopulares nerds, agora saem das salas de aula e entram no circuito da moda high-street, cheios de ironia e nenhum grau

 

Sentado sempre no banco da frente na classe, uniforme limpo e bem passado, cabelo reluzente de gel e os inconfundíveis óculos de grau quadrados, negros, um descalabro de grandes. Ao longo da história popular das salas de aula, o nerd (ou CDF) sempre foi visto pelos colegas da mesma forma anacrônica e desencaixada, com muita massa encefálica e nenhum estilo. Alvo das chacotas e bolinhas de papel vindas do fundão, essa espécie que sempre conta com pelo menos um exemplar em cada sala de aula, jamais poderia imaginar que algum dia seu visual desajeitado e tímido seria copiado até pela turma dos populares.

Pois bem, mas esse dia chegou, e a vingança veio doce, internacional e com o respaldo de gente que entende de moda e estilo. O visual nerd (ou geek), marcado especialmente pelos óculos de grau big size, hoje viraram tendência mesmo entre as pessoas que não precisam deles para corrigir problemas visuais. Graças ao dinamismo da moda e ao talento dos designers, já estão chegando às lojas das principais capitais do mundo os chamados óculos de lente plana (clear lenses), que imitam a estética dos óculos oftálmicos e suas lentes transparentes, mas que não possuem grau.

“A pessoa que vai usar esses óculos não é a que quer ficar bonita e sexy, até porque os óculos de grau nunca estiveram associados à nossa percepção de beleza. Quem vai usar os óculos de lente plana são as pessoas que querem marcar um estilo interessante, inteligente, que pode ficar até feio, mas isso não importa, porque a idéia é acentuar a personalidade”, explica o designer de óculos Maurício Stein, responsável pelas coleções das redes de lojas inglesas TopShop e TopMan, duas gigantes no setor de moda high street para mulheres e homens, respectivamente.

O visual nerd das próximas estações conta com as clássicas armações quadradas e negras e suas variações. “As armações continuam pesadas e marcantes nas cores azul-marinho, vermelho, amarelo, fluorescente, cores caramelo, cor negra, degradês, listras, quadriculados e estampas de tartaruga”, elenca Stein, acrescentando que o acetato continua dando as cartas. O formato quadradão vai dividir espaço com os redondinhos à la John Lennon, e também com os ovalados aviador no melhor estilo “avô dos anos 70”. Apesar de começar a dar as caras agora ao grande público, as lentes planas devem chegar com força mesmo dentro de um ano, segundo Maurício.

Consumidores no Japão, Islândia, Alemanha – na Europa em geral – e na Califórnia, Estados Unidos, já começaram a adotar o visual geek. Em Londres, TopShop e TopMan abastecerão o inverno 2008 dos ingleses com os óculos clear lenses. Na TopShop, cerca de 80 modelos de lentes planas foram criados para o verão 2009 – o que representa 20% de toda a coleção. “A TopShop troca os óculos a cada estação, mas por causa da força dessa tendência decidiram manter esses modelos durante 2008 e todo o ano de 2009”, revela Stein.

 

Voltar no tempo

O primeiro vestígio dos óculos na História remonta ao ano 500 a.C. e foi encontrado nos textos do filósofo chinês Confúcio, compilados por seus discípulos. Segundo os documentos, naquela época os óculos eram apenas um adereço pessoal com função estética e social: as lentes de vidro sem grau só podiam ser usadas pelo imperador e pelos aristocratas chineses. Hoje, mais de 2.500 anos depois, os óculos recobraram sua função primordial de adorno, mas perderam o viés discriminatório no rosto irônico de jovens como os londrinos, adeptos da estética absurda, surrealista, feita de plástico descartável e reutilizável.

“Comecei a usar óculos sem lentes quando ainda estava no Brasil, há três anos. Meu avô tinha um RayBan da década de 70 que estava com uma das lentes quebradas. Quebrei a outra, tirei tudo e comecei a usar só a armação”, conta o estudante de moda goiano Alain Croceti, 22 anos, que hoje vive em Londres. Croceti foi mais longe e também se interessou pelos óculos da avó que, segundo ele, tinha uma considerável coleção de armações dos anos 70. Apesar da estranheza, a avó cedeu aos apelos do neto e legou a ele a tal coleção vintage.

“Com essa tendência os óculos viraram acessórios puros para serem combinados com a roupa e com outros adereços. Como consequência, acredito que as vendas de óculos de lente plana com armações coloridas vão aumentar e as pessoas que usam lentes de contato vão se sentir mais à vontade para usar óculos só para compor um visual”, analisa Maurício Stein.

Um pouco mais à frente de Confúcio e dos aristocratas chineses, os designers de óculos recorreram aos anos 60 para buscar inspiração e criar novos modelos de lentes planas. Nos arquivos daquela época encontraram os Beatles, meninos engravatados, mocinhas com cabelo cogumelo e eles, os óculos oftálmicos enormes agarrados ao rosto da juventude. Depois, na década de 90, designers como Stein encontram ainda mais referências, especialmente no Britpop, o rock inglês daquela época marcado por nomes como Oasis, Blur e Supergrass.

“Fiz uma viagem à China recentemente e vasculhei os arquivos das décadas de 60 a 90 de algumas fábricas de óculos. Encontrei boas idéias por lá também, como uns óculos redondos pequenos, bem geek”, acrescenta o designer. Outras fontes para Stein foram as festas de Londres frequentadas por artistas e gente ligada à moda, sites com fotos dessas festas (dirtydirtydancing.co.uk e weknowwhatyoudidlastnight.com) e, mais concretamente, o ator Johnny Deep, protagonista do filme Piratas do Caribe, e a atriz Chloe Sevigny, que atuou nos longas Melinda and Melinda, de Woody Allen, e Dogville, de Lars Von Trier. Para Stein, os dois artistas têm o estilo e aparência que combinam com o geek e serviram como modelos-nerd nos quais se inspirou para criar as novas coleções da TopShop e TopMan.

O jornalista Luís Falconeri, 23 anos, natural de São Paulo, mas que também vive em Londres, não causa estranheza nenhuma quando sai às ruas da capital inglesa com um par de lentes planas e camisa social com botões fechados até o alto, como os meninos engravatados das escolas preparatórias britânicas. Mas quando esteve no Brasil recentemente notou, já no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, que muitos olhares sobre ele eram de estranheza. “É que no Brasil as tendências sempre chegam um pouco depois, mas apesar disso vi gente no Rio e em São Paulo com visual geek e lentes planas”, afirma.

Chegando antes ou depois, não importa. O certo é que agora os óculos de lente plana estão mudando o status dos óculos em geral, elevando-os de item médico a acessório em pé de igualdade com bolsas, cintos e adereços. A moda agora é nerd, e os engomadinhos dos bancos da frente da classe terão sua vez em grande estilo.

 

Reportagem publicada na revista View, ed 90, julho/2008

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domínio submisso

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foto/andré penteado

 Com beleza excepcional e atitude servil em relação aos homens, jovens japonesas ganham a vida como hostess, uma versão com salto alto e sem kimono das tradicionais gueishas

À espera do primeiro cliente, Midori, 26, conversa sem pressa com outras 12 mulheres que trabalham com ela numa boate no centro de Tóquio, capital do Japão. Está nos bastidores e só ouve o jazz ambiente, o tilintar de copos sobre o balcão do bar e o burburinho de homens conversando. Nesse dia ela usa o vestido verde acetinado que toca o chão e deixa suas costas à vista. O gerente da boate aparece. “Midori, cliente pra você”. Ela caminha até o bar, onde o diretor de uma multinacional japonesa a espera afrouxando a gravata. Aquela era a sexta noite consecutiva em que o tal cliente a procurava disposto a pagar o equivalente a 2 mil reais pelo mesmo serviço: 300 minutos de uma conversa trivial com Midori – trabalho, negócios, rotina – durante a qual, ela, com um sorriso perpétuo e lindo, olhos fixos nos olhos dele, estrategicamente lhe diria o quanto ele é bonito, rico, inteligente e poderoso, mais que todos naquela boate, mais que todos os outros executivos de Tóquio. Ela estava sendo paga para aquilo e não poderia defraudar o consumidor dos seus serviços sendo-lhe sincera. Por isso, todas as vezes em que aquele executivo a procurava, Midori lhe dizia as mesmas mentirinhas brancas que valiam, a ela, os dois mil reais numa única noite, e a ele, o prazer de mais um fetiche consumado.

Sete noites por semana, cinco horas por noite, Midori (nome fictício) trabalhou durante quatro anos como hostess (acompanhante de luxo) em boates japonesas chamadas kyabakura, palavra que em japonês significa um misto de cabaré e club. Famosas por recrutarem apenas jovens de beleza excepcional entre 20 e 25 anos, as kyabakuras são o paraíso dos altos executivos japoneses de meia idade, que se comprazem não com sexo, mas com palavras e atitudes servis: estão ali para serem cortejados e elogiados por mulheres lindas e disponíveis, que parecem existir só para eles. “O cliente chega à boate e tem mais de uma centena de garotas à disposição. Pede uma ao gerente – é o gerente quem escolhe a hostess –, paga e passa a noite bebendo e ouvindo elogios dela. Se ele não gosta da garota, fala pouco, se desinteressa, e acaba pedindo outra. Há alguns que já chegam querendo uma hostess específica, e pagam mais caro pela vantagem da escolha. Agradar o homem faz parte da cultura japonesa, por isso a hostess é como uma gueisha moderna”, define Midori. Apesar de soar acostumada ao patriarcalismo da cultura nipônica, Midori admite que não se sentia cem por cento confortável com a submissão instituída do seu trabalho como hostess. “Às vezes eu passava quatro, cinco horas tendo que conversar com um homem gordo e feio, careca, sorrindo pra ele, dizendo que ele era maravilhoso e, na verdade, ele era simplesmente um nojo”.

Na centenária cultura das gueishas, as mulheres são preparadas para entreter seus convidados – em geral homens – nas casas de chá. Executam danças e músicas tradicionais, preparam bebidas, falam de amenidades e oferecem aos olhos dos convidados sua beleza de porcelana envolta no tradicional kimono. Dessa cultura, que ainda existe como ofício no Japão, as hostess absorveram o cerne: o senso de serviço aos homens. “Se o homem vai ao banheiro, a hostess espera por ele à porta e oferece uma toalha para ele secar as mãos. Ele trabalha o dia todo e quer relaxar sendo servido pelas mulheres”, explica a ex-hostess.

A porção moderna das novas gueishas está nos acetinados vestidos de cores fortes,  cortes justos e sensuais que subsituíram os pesados kimonos, no salto alto em lugar dos chinelos de madeira, no karaokê fluorescente e suas músicas cheias de tecladinhos e efeitos eletrônicos em vez do rústico shamisen (espécie de banjo japonês), e do ambiente escuro da boate em contraste com o bucolismo associado às tradicionais gueishas. “Ser hostess é bem mais fácil”, admite Midori.

 

Cartões de visita

Natural de Kyushu, sul do Japão, Midori, hoje com 30 anos, começou a trabalhar como hostess aos 23 quando morava em Ibaraki, cidade interiorana. Dois anos depois mudou-se para Tóquio e foi convidada por uma amiga a trabalhar numa das mais luxuosas kyabakuras da capital. “Em um mês eu era a quarta mais popular entre 162 meninas. Cheguei a ter mais de 200 cartões de visita de diretores e presidentes de empresas”, ela conta, mantendo segredo sobre nomes famosos. “Se você não tem um propósito, se vicia no trabalho, porque o dinheiro é abundante e fácil. Eu tinha um propósito: queria vir a Londres ser maquiadora”, diz Midori, que vive há dois anos na capital inglesa realizando o sonho profissional.

 No caso dos homens o vício é o oposto. Em uma noite um executivo pode gastar o equivalente a quatro mil reais em bebidas e diferentes hostess. Os que se tornam “dependentes” das meninas voltam noite após noite para vê-las, assediados também pelos e-mails e mensagens de celular que elas enviam perguntando sobre a vida deles, trabalho e, claro, sobre o próximo encontro. “Se as mulheres deles fizessem isso por eles, você acha que os executivos procurariam a hostess? ”, questiona Midori, quase que propondo um desafio.

 

Tradição e sexo

Conhecido como povo de cultura tradicional e reservada em âmbito público, os japoneses surpreendem quando expressam sua sexualidade em locais privados – mesmo em locais não tão privados quanto uma kyabakura. O tema sexo quase não é mencionado na TV, nem mesmo em campanhas de saúde pública; apesar disso, não é difícil encontrar sexshops que vendem calcinhas usadas em máquinas acionadas por moedas – como as de refrigerante – e homens lendo mangás pornográficos no metrô. “No Japão não falamos de sexo nem com melhores amigos”, conta Midori, que ainda se espanta com a livre abordagem de temas picantes nas novelas inglesas.

A kyabakura, como um macrocosmo da vida íntima de um homem médio japonês, é a metáfora do claro-escuro presente na sexualidade nipônica. Na boate estão proibidos beijo, abraço e toques; nudez e dança sensual por parte das meninas também. Isso, claro, dentro da boate. O dohan, encontro entre hostess e cliente fora da kyabakura, é prática comum. Ambos saem para almoçar ou jantar e, não raro, o sexo acontece. “Eu fiz dohans, mas nunca fiz sexo com clientes”, garante Midori, que preferiu não revelar a identidade por saber que a profissão, apesar de popular, é mal vista pela sociedade japonesa. “Não sou prostituta”, ela insistiu quase uma dezena de vezes durante a entrevista.

Em menor grau, as antepassadas gueishas também inspiram uma certa dúvida popular. “As pessoas confundem gueishas com prostitutas, mas elas não são”, defende Midori. Quanto às hostess, ela confirma as especulações, mas faz uma ressalva. “Não vou negar que algumas meninas se prostitutem, mas isso não é a regra da profissão”. A prostituição, ela diz, acontece não tanto nas kyabakuras quanto nos clubs, boates onde trabalham as hostess mais velhas, entre 30 e 40 anos, que atendem os clientes na faixa etária acima dos 50. “Lá as hostess são mais experientes, mais cultas, mas não são tão bonitas e por isso ganham mal. Para ganhar mais algumas oferecem sexo”. Para a profissão de hostess, Midori garante que o sexo não é necessário. “Os homens se encantam com as meninas e, ao mesmo, tempo se frustram porque não podem tê-las. Por isso voltam com frequência para terem a sensação de que as possuem”, ela diz, deixando claro que a hostess, assim como a tradicional gueisha, carrega na beleza o poder de servir os convidados ao mesmo tempo em que os submetem.

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