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Archive for the ‘Reportagem’ Category

um véu e duas rodas

Alema, Anisah e Bushra

Em alguns países, o islamismo impede que mulheres andem de bicicleta. Por isso, Alema, Anisah e Bushra, londrinas filhas de muçulmanos, cresceram sem saber pedalar. Hoje, mesmo sob os olhares reprovadores, circulam orgulhosas em suas magrelas. Alema Akthar é uma das centenas de filhos de bengaleses nascidos na capital inglesa. Muçulmana praticante, ela tem 19 anos e, em meio às modernidades com as quais convive em Londres, toca um curso no mínimo curioso – para não dizer revolucionário. Depois de anos com uma inquietação no peito e nas pernas, resolveu não só aprender a andar de bicicleta, tarefa proibida para quem segue os preceitos islâmicos, mas também ensinar outras garotas como ela a pedalar.

Fez questão de me encontrar para falar sobre suas aulas antes que eu entrevistasse qualquer de suas alunas. Começou dizendo que seu curso existe há quatro anos em Londres e já ajudou mais de 300 muçulmanas entre 18 e 65 anos – a maioria imigrante de Bangladesh, Índia, Irã e Paquistão – a pilotar uma bicicleta. Por causa das crenças patriarcais da cultura daqueles países, muitas mulheres asiáticas (e mesmo as inglesas que nascem em famílias de imigrantes) estão imersas numa realidade de repressões e imposições.

Na Índia, por exemplo, meninas são forçadas a casar ainda crianças, são alijadas da escola, do convívio social e, porque não podem trabalhar, dependem financeiramente do marido e dos filhos homens. No Irã, mulheres que protestam em público por seus direitos, mesmo que pacificamente, não raro são agredidas pela polícia, presas e julgadas pelos crimes de violação à segurança nacional e à propaganda contra o governo. Em Bangladesh, uma mulher que recusa o flerte de um pretendente corre o risco de ter o rosto desfigurado pelo ácido que o próprio lhe atira como vingança; em outras ocasiões, pode ser vítima, mesmo na Inglaterra, do chamado “assassinato de honra”: ao negar um casamento arranjado ou se apaixonar por um homem que não tenha sido aprovado pela família, é morta pelo próprio pai ou outro parente do sexo masculino.

EMANCIPAÇÃO
Uma faceta, digamos, mais “prosaica” da cultura patriarcal de alguns países asiáticos está relacionada ao exercício físico. As mulheres são “desaconselhadas” a andar de bicicleta e praticar outros esportes quando atingem a adolescência, e isso é regra até o fim da vida. Porque esporte não é coisa para mulheres. Simples assim. A própria Alema só aprendeu a pedalar aos 16 anos. Nunca foi proibida pelos pais, mas jamais viu as mulheres de sua família pilotando uma bicicleta. Há apenas três anos ela ousou pôr as rodas nas ruas e conseguiu ir até mais longe que suas iguais: submeteu-se a treinos específicos de ciclismo e tornou-se uma instrutora qualificada. “Se eu posso fazer isso, imagino que outras meninas possam também”, diz, fiando-se no bom senso de pais como os dela, que, após absorverem a cultura inglesa, não se opuseram à “emancipação” da filha.

Jagonari, que significa “mulheres, despertem”, é o nome do centro cultural onde Alema trabalha e que oferece, além do curso de ciclismo, capacitação e alfabetização para mulheres da comunidade asiática concentrada em Whitechapel, bairro londrino povoado por imigrantes praticantes do islamismo. “Elas
precisam ficar em casa cuidando dos filhos enquanto os maridos trabalham e quase não têm vida social. O Jagonari é um lugar bilíngue, onde elas aprendem inglês, exercitam-se e interagem com outras mulheres”, explica Alema. Financiados com verbas do governo inglês, esses cursos são gratuitos para as alunas da comunidade. O de ciclismo ainda oferece empréstimo de bicicleta, mesmo após o fim do curso.

CORES DISTINTAS
Alema, em nossa segunda entrevista, desta vez realizada num parque, usava um véu cinza que ocultava quase toda a testa, metade das bochechas, pescoço e até os cantos dos olhos. Sob uma jaqueta parda, ela vestia um jilbab, a túnica negra que cobre as muçulmanas até os pés. Anisah e Bushra usavam seus véus – mas não jilbabs – nos mesmos moldes que Alema, porém, ousavam nas cores: o véu de Anisah era violeta vivo, o de Bushra, azul-celeste. Enquanto papeávamos, uma dona de casa bengalesa de 38 anos aproximou-se, atraída pelas meninas de véu, suas iguais, montadas em reluzentes bicicletas de alumínio. Alema perguntou-lhe se queria pilotar. A mulher riu e disse que não. Desconversou, mas admitiu que, provavelmente, o marido não aprovaria. “Você viu? Ela estava interessada, mas ainda não tem coragem. Isso é porque está em Londres há menos de seis meses. As mulheres imigrantes, depois de uns dez anos aqui, tornam-se muito mais livres”, disse Alema.

Uma década parece muito para que uma mulher, ali pelos seus 40 anos, conquiste autonomia para aprender a usar uma bicicleta. Alema, Anisah e Bushra, por serem inglesas, “emanciparam-se” antes. Talvez por terem nascido num ambiente tão díspar daquele de onde seus pais vieram, as jovens ciclistas não têm ideia da importância de suas pedaladas. As meninas do Jagonari desfazem preconceitos, redefinem comportamentos, transformam o mapa social de onde vivem e reconquistam liberdades básicas para suas iguais mais velhas. Quando vestem seus véus e jilbabs e montam em suas bicicletas, estão incitando nada menos que uma histórica revolução sobre rodas.

ENQUANTO ISSO, NO BRASIL.
Se o sheikh Mohamad Al Bukai fosse casado, não veria problemas em sua esposa andar de bicicleta. Nascido na Síria, há dois anos ele vive em São Paulo e é líder espiritual da mesquita do Pa­ri, uma das maiores do Brasil. Para ele, as res­trições impostas às muçulmanas em alguns países não são totalmente
fundamentadas na religião. “Trata-se de política, uma decisão de governos extremistas confundida com ensinamento religioso pelos leigos. Imagine se existia bicicleta quando escreveram o Alcorão”, exalta. A interpretação do livro sagrado muçulmano explica por que mulheres de uma mesma crença têm liberdades tão distintas em diferentes partes do mundo. Alia Fayd, 17 anos, aprendeu a andar de bicicleta com os pais, libaneses que migraram para o Brasil. A tia de Alia, Nazek AlAttar, 47, se lembra de uma infância de pedaladas na Síria. Elas são exemplos da comunidade muçulmana brasileira, que tem cerca de 30 mil pessoas*. “E, em sua maioria, é formada por turcos, sírios e libaneses, vindos de países bem menos radicais”, completa o sheikh. Não é o que acontece no Reino Unido, onde a maioria dos mais de 1,6 milhão de adeptos**, que fazem do islamismo a segunda maior religião de lá, é imigrante de locais considerados mais extremistas, como Paquistão (320.767 imi­grantes), Bangladesh (154.200), Irã (42.377), Iraque (32.251) e Afeganis­tão (14.890)***. [por Paula Rothman]

*Último Censo do IBGE, de 2000, apontava 27.239 muçulmanos. **2001 Census England and Wales. ***Institue for Public Policy Research, do Reino Unido.

Reportagem publicada na ed 86 (abril/09) da revista TPM

Foto: Marina Chevrand

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Emicida

Numa lanchonete da rua Marconi, no miolo do centro de São Paulo, Leandro Roque de Oliveira, de 23 anos, pediu uma vitamina mista. Quando o garçom colocou a bebida na mesa, uma surpresa: o líquido preenchendo o copo era cor-de-rosa-chiclete-de-morango-vivo, e não aquele laranja lívido do mamão que dá cor às tradicionais vitaminas mistas. E aí, vai beber assim mesmo?, perguntei. Claro!, respondeu Leandro, sem reticências. Com ele não tem tempo (nem vitamina) ruim. Aprendeu a ser assim no fim da década de 80, quando, aos quatro, cinco anos, sentia umas pontadas de fome e, a fim de acalmá-las, frequentava cultos cristãos no bairro pra descolar algo de comer depois da pregação do pastor. A comida era pouca em casa para ele, a mãe (desempregada à época), o pai e os três irmãos. “Pra qualquer santo que desse comida eu tava rezando”. Rezando e cantando: foi pra Jesus que Leandro fez suas primeiras rimas. Ele via como cantavam os fiéis na igreja e reproduzia os louvores em casa, mas com letras suas. Senhooooor Jesuuuus, entoava sozinho, com a voz fininha, de rato, como ele mesmo descreve.

Leandro aprendeu a ignorar o tempo ruim quando tomava uns sapecos da mãe ao tentar se imiscuir entre os adultos nos bailes black que ela e o pai ajudavam a organizar na rua onde moravam, no bairro Vila Zilda, zona norte de São Paulo. James Brown,  Marvin Gaye e The Manhattans esquentando o povo lá fora e Leandro, ainda criança, cobiçando a música do lado de dentro da casa. Não se deixava vencer, no entanto, e buscava refúgio onde houvesse: se não tinha Gaye nem Brown, ele ouvia Xuxa (!) na vitrola. Quando Xuxa exauriu seu gosto e paciência, ele apelou para si mesmo, para as rimas que continuou criando com a intenção de suprir sua necessidade por música – eram poucos os discos em casa e grande a vontade de encaixar rimas nos sons que ouvia. Fechado, meio bicho do mato, Leandro nunca quis mostrar a ninguém as letras de rap, histórias em quadrinhos e os zines que criava. Tinha vergonha. Quando cedeu, aos 15 anos, e mostrou um rap seu para um amigo, não se arrependeu. “Ele ficou maluco”,lembra.

Arrastado pro palco

Em 2001, participou como ouvinte de um worskshop sobre rap “para não iniciados” que aconteceu no Itaú Cultural, em São Paulo. Leandro foi “arrastado” para o palco por um maluco que se sentou ao lado dele e insistiu, durante toda a palestra, que eles deveriam pegar o microfone e improvisar um rap ali mesmo, de surpresa. No intervalo do workshop, o desejo foi cumprido. O homem puxou Leandro pelo braço e subiu com ele ao palco. O anônimo cantou primeiro, de improviso, e passou o microfone a Leandro. Na vez deste, porém, as palavras duraram uma única frase, e o menino que fluía nos louvores a Jesus, de repente, travou. Foi horrível, ele disse. Voltou pra casa não querendo comparecer no segundo dia de palestra. Mas compareceu – em casa, escreveu e decorou um rap com a intenção de apresentá-lo no dia seguinte como um autêntico improviso. Subiu ao palco de novo, pegou o microfone e. esqueceu toda a letra. Tempo ruim? Que nada. Leandro improvisou (sem truques) e foi aplaudido.

Leandro Roque de Oliveira é, hoje, E.m.i.c.i.d.a, rapper e MC da nova geração cada vez mais expoente graças à trinca talento, visibilidade via internet (Myspace) e fidelidade do público que se encarrega da propaganda boca-a-boca. Além de ser uma sigla (Enquanto Minha Mente Compor Insanidades Domino a Arte), Emicida (quase homicida) é também uma provocação: assassino de MCs. O músico deu-se a alcunha ao enfrentar e vencer muitas batalhas contra MCs. Nessas batalhas (ou rinhas, como são chamadas), organizadas em campeonatos oficiais ou eventos de rua, vence quem mais humilhar o adversário com rimas improvisadas (ou freestyle). “Eu já aposentei vários caras”, ele garante. Alguns MCs saem tão humilhados da disputa que não ousam competir nunca mais. O Youtube traz dezenas de vídeos dessas rinhas. Muitos deles mostram Emicida desintegrando o oponente com suas rimas ácidas, debochadas e precisas. Magrelo e de olhos inofensivos, o rapper da zona norte vira um totem de ironia e calma quando ouve os impropérios dos adversários. Emicida sabe que a tranquilidade é a virtude que o ajuda a encontrar as palavras que mais ferem o oponente e que, além disso, livram-no de morrer pela boca dizendo o que não deve – uma rima mal colocada, uma ofensa boba ou uma réplica sem coerência.

Dois reais na minha mão

Agora mesmo Emicida está sem tempo pra duelar, compor raps ou se dedicar aos shows pelo país – cerca de 10 por mês em tempos de maré boa. O rapper e MC empreende uma outra correria: vender 1000 cópias por semana de sua primeira mixtape, lançada em maio desse ano. Pra quem já mordeu cachorro por comida, até que eu cheguei longe é o título do CD com 25 faixas que ele gravou durante três meses em parceria com amigos e que financiou com grana do próprio bolso e pelo próprio selo, Laboratório Fantasma. O título da mixtape surgiu de uma história real do rapper. Num episódio tragicômico, Emicida mordeu Afrodite, a cadelinha da família, quando ela lhe roubou o único pedaço de pão que ele tinha pra comer em casa. E o tempo ruim, de novo, pôde menos contra ele: o MC fez do episódio título de projeto independente que está vendendo a rodo.

Desde que começou a comercializar a mixtape, no início de maio, o músico tem atingido a audaz meta de um milhar por semana vendido a preço popular – dois reais a cópia em camelôs e dez reais em lojas do centro de São Paulo – a produção de cada cópia sai por cerca de um real. Em todos os pontos de distribuição é ele mesmo quem negocia a revenda com lojistas e donos de barracas. Pra chegar mais longe, Emicida faz freestyle na rua e até nos trens da cidade, apresenta o produto aos que o assistem e vende, à la ambulante, os CDs – nos trens, porém, o trabalho é mais difícil por causa da fiscalização. Na mão do músico a cópia também sai por dois reais. Os pedidos chegam ainda via e-mail, alguns de fora de São Paulo e outros até do exterior, como Japão e Irlanda.

O processo de produção das mixtapes é totalmente artesanal. O próprio MC, com a ajuda da namorada, do irmão e de amigos, é quem grava e numera os CDs em casa, imprime os encartes com as músicas e carimba o logotipo nas embalagens (feitas em papel pardo rústico). À custa de burlar a lógica burocrática e custosa da indústria musical, Emicida projeta-se cada vez mais no mercado e faz o que poucos artistas independentes conseguem: viver só de música.

No dia em que combinamos essa entrevista, Emicida chegou ao centro de São Paulo acompanhado por dois jovens. Amigos, pensei. Mas eram fãs que o reconheceram na rua e colaram nele pra pedir autógrafo. “Pô, Emicida, tem a moral de me dar um autógrafo aí, na humilde, cara?”, pediu Isaías, o fã, trêmulo de tão nervoso. “Pô, moleque, deixa disso”, suavizou o MC, com humor – mas gostando da honraria, claro. Caderno assinado e foto tirada ao lado do tiete, Emicida se despediu dos rapazes com aperto de mão e um sorrisinho de contentamento, como se uma certeza reverberasse nele secretamente: pra quem já mordeu cachorro por comida, até que eu cheguei longe.

 

ENTREVISTA

Acha que teus pais são responsáveis pelo teu dom pra música?
Meu pai era DJ no bairro. Mas eu tive pouco contato com ele. Meu pai morreu quando eu tinha seis anos. Eu sei mais que ele era DJ porque as pessoas me contam. Nem os discos dele eu vi, ele deu pra uns amigos, foi um vacilo. Minha mãe me ligou esses dias e disse que eu era a continuação dessa parada. Acho que o pai da minha mãe também fazia alguma coisa com música. Acho que tem alguma coisa meio ancestral, tipo alguém vai ter que fazer música nessa família. Os dois outros não conseguiram, mas eu tô tentando (risos).

E o lance da rima freestyle, de onde vem?
Eu comecei improvisando. Acredito que o improviso nasce de uma necessidade. Você precisa fazer alguma coisa e não tem os meios pra isso, então acaba descobrindo sua própria maneira de fazer. Eu já gostava de música e escutava muito por causa do ambiente. Comecei a cantar porque não tinha CD, não tinha disco. Tinha um disco ou outro, tipo um da Xuxa. Depois que tinha decorado tudo da Xuxa queria outras coisas. Nessa época tinha bastante culto (evangélico) perto da minha casa, teve até na minha casa. Então comecei a inventar meus próprios hinos de igreja. Eu era pequeno, tinha uns cinco ou seis anos.

Chegava a mostrar os hinos pra alguém?
Mostrava nada! Morria de vergonha. Lembro que tinha um gravador na minha casa. Aí eu aprendi a mexer e gravar minhas músicas. Eu já era mais velho aí, uns oito anos. Não escrevia as letras, fazia tudo de improviso.

Você tem algumas dessas gravações?

Tenho algumas, uns clássicos, eu cantando meus primeiros raps e tocando as bases num teclado. Minha mãe me deu um teclado uma vez. eu nem sei tocar, até hoje, mas tocava (risos).

Essa gravação então é histórica, você criança, com a voz bem fina, né?
Nossa! Voz de rato! Era o auge da voz de rato (risos) iiiiii, iiiiiiiii, iiiiiiii (faz uns ganidos). Você ouve a parada e diz: meu, isso é dublagem. É engraçado ouvir isso hoje, fico com a cara formigando. É legal escutar sozinho.

(o celular toca, Emicida atende)

Era um cara pedindo mixtape. Eu tô tipo os camelôs do centro (risos). Deixo nas lojas, na galeria (do Rock, no centro de Sp), nos camelôs mesmo.

Os caras te pagam na hora?
Claro! Na hora! Eu quero ganhar dinheiro (risos). Os caras tão ganhando dinheiro pra caralho, não fizeram nada na produção do CD e tão ganhando o maior dinheiro em cima. É bom porque agora tenho lugares fixos pra deixar o CD. Acaba muito rápido, os caras vendem uns 100, 200 por semana. De resto é a gente mandando pra fora de São Paulo. Recebi uma encomenda agora do Japão, me mandaram um email pedindo 40 CDs.

Quem é esse cara do Japão, é de alguma loja?
Não sei, nem conheço.

Como ele chegou até você?
Ah, mano, tenho fã pra caralho no Japão. e no mundo também (risos). Tenho vários contatos de gente que quer distribuir em Portugal, na França. só preciso me organizar.

Você tem alguém te ajudando a administrar isso?
Não, eu tô tocando essa parte. Na verdade eu gosto de ver todas as etapas da coisa. Meu irmão tá me ajudando um pouco nisso, mas eu é que to tocando mesmo. É bom isso porque quanto mais as coisas vão crescendo, menor a chance de alguém me passar pra trás, porque aí vou conhecer todos os processos e saber como tudo funciona.

O que você fazia antes de começar a se dedicar à tua música?

Fiz de tudo. Já fui pedreiro, pintor, vendi hot-dog, fazia cestas artesanais, trabalhei na feira, fiz ilustrações. Ainda sou ilustrador – no ano passado ilustrei um livro infantil. Ainda faço uns trampos de ilustra de vez em quando. Já fiz estágio numa produtora musical. Mas hoje só faço música, graças ao bom Jesus.

Privilégio viver de música, não?
Putz, vivo com minha mina num apartamento e tô tranquilo. As pessoas não se dão tanto pras coisas que elas acreditam, e por isso as coisas em que elas acreditam acabam não se dando tanto pra elas também. Ninguém pula de cabeça na parada. Eu sou maluco. Como não tenho outra opção, tenho que fazer essa parada de música dar certo.

Você achava que poderia viver de música?
Eu nunca achei que desse pra viver de música. Eu sempre escrevi pra mim, tá ligada? Demorei muito tempo pra mostrar uma rima pra alguém, morria de vergonha. Fazia história em quadrinhos, fanzine, mas tudo era pra mim. Tinha um camarada meu, o Dijose, que foi o primeiro cara pra quem eu mostrei uma rima, aí ele ficou maluco. Eu tinha uns 15 anos.

Como foi esse estágio na produtora sobre o qual você falou?
O Carlos Magalhães, um amigo meu, me ligou uma vez e disse que tinha um trampo de dublagem pra desenho animado no estúdio onde ele trabalhava. Eu tinha uns 17, 18 anos. Eles precisavam de um cara que fizesse rimas. Eu nem sabia que existia isso de pôr voz em desenho animado. Nem dormi, fiquei empolgadão. Os caras me colocaram na cabine, fiquei horas gravando, fazendo freestyle. Eu era fechadão, tinha dificuldade pra me comunicar com as pessoas. Eu chegava no estúdio, não trocava ideia com ninguém e ficava assim ó (Emicida cruza os braços e faz cara de mau). Até porque eu era do rap, né? E a referência de rap que eu tinha era dos caras nas fotos com essa cara (faz cara de mau de novo). Tinha um cara lá, o Filipe Tixaman, que era um cara mais da rua, que falava gíria, aí ele começou a trocar ideia comigo e pensei: esse cara é um dos meus(risos). Ele que traduzia o que os caras falavam pra mim no estúdio e o que eu falava pros caras. Os caras depois me chamaram pra fazer um outro trampo parecido e depois me convidaram pra fazer um estágio lá.

Foi lá que você aprendeu mais de música?
Pô, foi. Eu não tinha idéia que as pessoas compunham uma canção, gravavam, mixavam, masterizavam, lançavam. pra mim era mágico, tipo, você fez uma música boa e puf, aparece o CD. Depois que eu vi etapa por etapa. Foram esses caras que me ensinaram.

Como é tua rotina de produção de rap? Você escreve muito?
Escrevo todo dia, umas duas músicas por dia. Isso ajuda pra caramba no freestyle, porque tenho muitas opções de rima na minha cabeça. Escrevo do que eu vivo, as situações que eu vejo, sobre meus amigos.

Como é a cena de freestyle aqui no Brasil?
Tem muita gente que faz meia boca e pouca gente que faz bem, que respeita o freestyle e que estuda. No Rio de Janeiro o ponto forte é a batalha, e na batalha o MC evolui pra caralho. Aqui em São Paulo rolou uma febre de freestyle mas já acabou. Aqui a gente tem uma cultura de sessão de improviso, e não rimo eu contra você, rimo eu com você, entende? Fazemos uma parada juntos. No Rio é batalha mesmo. Por isso os MCs lá são mais propensos a serem melhores em batalhas.

Dá pra estudar improvisação?
É muito louco. Por ser uma parada totalmente auto-didata, cada um tem seu próprio método. Tem uns caras que moram na biblioteca, ficam lendo pra caralho e aquilo entra na cabeça dos caras. Se eu ler vários livros travo minha cabeça. Eu gosto de ler quando tô a fim. Agora eu tô lendo um livro do Louis Armstrong porque eu gosto. Isso, um dia, talvez, venha a acrescentar numa rima. Mas em geral eu vejo filme pra caramba, leio notícias. Agora eu já tenho consciência de como eu rimo. Então eu só busco informações novas pra preencher isso com outro conteúdo. Mas na antiga eu ficava na biblioteca. Teve uma época que eu inventei que ia ler o dicionário.puta que o pariu! Eu nem passei daquela primeira página do (dicionário) Aurélio chamada Convém Ler. (risos). Não rola, não dá pra ler um dicionário! Uma vez me falaram que o (MC) Marechal, lá do Rio de Janeiro, que é foda, um monstro mesmo, não escrevia nada, que ele só improvisava. Aí eu ouvi um rap dele e pensei: caralho, ele faz tudo sair de improviso! Aí falei pô, preciso ser foda que nem esse cara. Então comecei a me internar mesmo, estudar, pra ficar bom. Mas depois eu descobri que ele escrevia as letras mesmo. (risos). Uma vez também um amigo me deu um dicionário de rimas.

Te ajudou?
Não (risos). Foi tão inútil quanto ler o Aurélio. Na hora que ele me deu a parada pensei: caralho, vou escrever vários raps! Cheguei em casa, abri o livro, escrevi umas 15 paradas que não entendia, com umas palavras difíceis. tá lá até hoje o livro, empoeirando.

Quando você faz freestyle, você condiciona tanto seu cérebro pra buscar essas palavras que ele fica dividido em dois e você pensa muito rápido, você tá vivenciando uma situação mas pensando em outra

Você consegue explicar o que se passa na tua cabeça quando você está improvisando?
É muito louco isso, as pessoas não entendem. Passam mil coisas na minha cabeça quando estou rimando, fico olhando em volta, pra mim é tão normal como falar. Por exemplo, a gente tá conversando aqui, mas tô vendo que o garçom tá ali lavando louça, tem uma mulher ali do outro lado conversando com um bebê no colo. Quando eu rimo, eu procuro descrever o que eu vejo.

Mas tem as rimas pra dificultar, não?

Aí é que tá o lance. Quando você faz freestyle, você condiciona tanto seu cérebro pra buscar essas palavras que ele fica dividido em dois e você pensa muito rápido, você tá vivenciando uma situação mas pensando em outra. Eu posso estar numa situação que eu não gosto e ficar tranquilo, porque na minha cabeça eu tô em outro lugar.

Eu vi alguns vídeos na internet de batalhas das quais você participou. Teve até uma que você encostou no MC enquanto detonava ele na rima e ele ficou puto, mandou você não encostar nele. Quando o cara está te detonando, o que você pensa? Você chega a ficar nervoso?
O lance do freestyle é você mostrar pras pessoas que o cara que tá na tua frente é ridículo (risos). Essa é a meta. Você tem que ficar tranquilo pra pensar direito. Se o cara conseguir falar uma parada que entra na tua mente, aí fudeu, porque você vai ficar pensando o tempo todo naquela frase e vai se confundir. Tem que deixar ele falar e, talvez, rebater algumas coisas específicas que ele fala. Pode ser que de alguma coisa que ele fale vai surgir a derrota dele. Na batalha de freestyle o que leva os caras à derrota ou à vitória é o que eles dizem.

Rola briga nas batalhas?
Rola um desentendimento ou outro, mas nunca passa de uma discussão. As pessoas olham o rap de fora e acham que é tenso, mas não é, é muito tranquilo.

Vocês são amigos nos bastidores?
(risos) Olha, rola um olhar meio assim (faz um olhar meio superior, enviesado). De todos os caras de São Paulo com quem eu batalhei, eu me relaciono com vários. Do Rio de Janeiro, eu troco uma ideia com o Beleza, com a Negra Rê; com os outros a gente se cumprimenta só, não rola uma amizade. Tem uns caras que ficam putos porque eu ganhei deles no Rio, e eu sou de São Paulo.

É a rixa histórica, né?
É, isso sempre teve e vai ter pra sempre, mas eu quero que se foda, não fui eu que dividi os Estados. (risos).

Eu vi tua batalha contra a Negra Rê. Você detonou a menina.
(gargalhadas) Essa é clássica!!

Como é a batalha com mulher? Você costuma pegar mais leve ou isso não tem nada a ver?

Cara, o grande lance é ser uma batalha de MCs. Se você for pesar na da mina porque ela é uma mina, ela vai responder o quê? Que eu sou um cara? É ridículo. Isso tem que ser levado pro nível de MC. O que está em jogo não é o sexo das pessoas, mas as rimas delas, as atitudes. Pra mim a mina que batalha não é uma mina, é um MC como outro qualquer. Tem uns caras que mandam a mina ir lavar louça, dizem que o lugar dela é na cozinha. só que isso é tão velho, pô, enche o saco até.

De onde veio EMICIDA (Enquanto Minha Imaginação Compor Insanidades Domino a Arte)?
Vem de assassino de MCs porque sempre fui fissurado em batalhas. Quando escrevi o nome achei do caralho, mas aí fiquei pensando na sigla e achei mais legal, mas aí não dá pras pessoas dizerem “ei enquanto minha imaginação compor insanidades domino a arte, chega aí!” (risos). Então ficou Emicida mesmo, assassino de MC. já aposentei vários caras. (risos)

O cara desiste de competir, fica mal mesmo?

Alguns ficam. Algumas batalhas são tão humilhantes pro cara que o mundo cai e ele não batalha mais. Eu já perdi batalhas, mas nunca foi algo de cair o mundo pra mim, foi de boa porque sei o que eu sou, mas tem uns caras que não têm a mesma certeza e acabam desistindo.

Qual foi a batalha mais difícil que você já teve?
Procurar emprego (gargalhadas).

Boa. mas essa foi bem vencida, você até virou o patrão.
Agora eu sou o dono! Se quiser uma mixtape fala comigo (risos).

(o celular toca, Emicida olha de quem é a chamada, mas não atende)

Putz, é aquele mesmo mano. Ele quer uma camiseta igual essa minha aqui (na camiseta está escrito Na Humilde). Eu falei que acabou a parada e ele tá há uma semana ligando todo dia. Vou começar a fazer que nem aquelas minas que passam telefone errado pros caras. (risos)

Falando agora da mixtape, quais são suas expectativas pra ela?
Uma das coisas que quero é estudar como funciona toda essa parada de distribuição. Quero mandar pra vários lugares, administrar isso. Outra coisa é dar um levante na cena porque a parada tá bem devagar mesmo. Tem pouquíssimos lançamentos rolando. Quero criar uma expectativa em cima do meu nome e vir com um disco em seguida. A mixtape tem músicas de 7 anos atrás, coisas que eu fiz e ficaram paradas em casa.

Você tem ideia de quanto tempo vai ficar testando o mercado até lançar o primeiro álbum?
Não sei quanto tempo isso vai levar. Isso é um problema também, porque por eu ser dono das minhas coisas tenho todo o tempo do mundo pra fazer isso. Posso ficar vendendo mixtape por uns 15 anos. Meu foco vai ser distribuir essas cópias. Acho que em três meses vamos ter vendido umas 10 mil cópias.

Você está bancando toda a produção e distribuição da mixtape com a sua grana?
Eu tô fudido, meu aluguel tá atrasado dois meses! (risos) Mas a grana tá vindo. Com essa produção artesanal eu consegui baratear pra caramba os custos, dá pra distribuir a preço justo, é quase dado. Dois reais é nada pra quem compra. A gente levou três meses pra gravar. Só transporte e comida pra mim, só pra mim (enfático), nesse período, foram uns dois mil reais do meu bolso. Os caras que participaram da produção, os músicos, os caras do estúdio fizeram tudo na camaradagem.

Quantas cópias vocês venderam até agora?
Estamos na segunda semana, chegando em duas mil cópias. Estamos dentro do nosso cronograma. Na próxima semana a gente tem que estar nos três mil, senão a gente começa a perder, aí fudeu.

Como é a história dos CDs que você retirou das lojas porque os caras estavam vendendo com preço mais alto?

Tirei de uma loja da galeria (do centro de São Paulo) e carimbei dez reais na capa. Coloquei esse preço pros caras da loja ganharem a grana deles também mas respeitando o piso dos fãs, aí os lojistas estavam vendendo a 15, 20 reais.

Como você descobriu isso?
Um moleque me mandou um email dizendo que viu a mixtape na loja a 15, mas não comprou porque sabia que os 15 reais não iriam pra mim. A grande ilusão dos caras era achar que eu não era doido pra ir até lá e tomar os CDs da loja no dia seguinte ao lançamento. Mas eu sou (risos). Eu tinha fechado com um cara só pra repassar aos outros lojistas, mas ele tava revendendo a 15. Quando me viu fez aquela cara de “fudeu”. Peguei todos os CDs que estavam com ele.

Eu soube que você está se apresentando com uns caras de jazz também. Como é isso?
Putz, é do caralho, é um trio de jazz, os caras tocam uns bebop, acho demais. Eu fazia umas parcerias com a banda Projeto Nave, e o baterista deles toca num trio de jazz. Ele me chamou pra fazer uns shows e deu certo. Em casa eu ouvia uns discos de jazz e ficava tentando colocar rima nas músicas, é um tempo diferente, era um desafio pra mim. Eu sinto que tenho que encaixar minha rima em qualquer música. Fizemos umas paradas no Studio SP, em Santo André, acho que no Bar B vai rolar também (todas as casas em São Paulo). Eu tô devendo um freestyle pra vários caras.

Nos teus raps você fala muito que tem uma missão. Que missão é essa?
As pessoas estão muito distantes hoje em dia e eu acredito que tenho potencial pra fazer elas se reaproximarem. Meu maior esforço é fazer com que elas deixem de se ver pelas diferenças que têm e se vejam naquilo que têm de igual. Quero fazer todo mundo cantar junto porque a música tem esse poder.

Reportagem publicada no site da revista Trip.

Foto: Enio César, Janaína Castelo

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EXPEDIÇÃO BOGOTÁ

Entre os dias 27 de julho e 27 de agosto, a cidade de Bogotá terá suas histórias anônimas descobertas, publicadas e lidas por gente da Colômbia, Brasil e, quiçá, de outros países da América Latina.

 

O projeto 30 vidas de Bogotá é uma parceria minha com o site da revista Trip e nasceu após os dois anos e meio que vivi em Londres,  durante os quais me dediquei, entre outras coisas, a escrever perfis de anônimos. Decidi levar adiante – agora em outra cidade – esse interesse por histórias de pessoas que encontro pelas ruas, bares, ônibus e outros espaços públicos.

 

Durante os 30 dias exatos que passarei em Bogotá, sairei todos os dias às ruas da cidade procurando gente (mulheres, homens, idosos, jovens, adultos e crianças) disposta a me contar uma história pessoal – qualquer história. Com o relato em mãos – além de fotos e vídeos que farei pela cidade –, voltarei pra casa onde estarei hospedada, escreverei a história e a publicarei nesse blog aqui: www.revistatrip.com.br/blogs/30vidas (no ar a partir do dia 27). Cada um dos 30 textos será publicado em português e espanhol.

 

No dia seguinte à publicação da história, fotos e vídeos no blog, a narrativa será impressa (algumas cópias), numerada e ´´perdida´´ em espaços públicos da cidade – bancos de ônibus, praças, cafés, bares, cemitérios, bibliotecas.

 

O objetivo do projeto 30 vidas de Bogotá é descobrir e disseminar histórias de gente comum, que tenham um viés lírico, cômico ou trágico, sem a pretensão de que sejam lições de vida para os leitores, mas esperando que reflitam uma parcela da riqueza cultural e pessoal que existe em qualquer cidade do mundo e que, de outra forma, talvez nunca fosse conhecida.

 

A ideia é que, depois de Bogotá, o projeto 30 vidas passe por outras cidades, ainda a serem definidas, e que podem estar em qualquer continente. O único critério é que nelas existam pessoas e suas histórias.

 

Abraço,

  

Sabrina

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mulher agriao link estadao

Reportagem escrita por Lucas Pretti (blog do caderno Link, Estado de S. Paulo)

 

mulher agriao b-coolt

Nota escrita por Paloma Sa no B-Coolt ed. 88

 

Vídeo feito por Ivo Duran no segundo dia de caça ao tesouro na Av. Paulista

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foto JAF

fotos JAF

Parecia irrefutável o raciocínio que Letícia expôs aos colegas e ao professor durante aquela aula sobre como preparar um currículo atraente e, com ele, conseguir um bom emprego. “Se você não tem dinheiro, não tem bom estudo; se não tem bom estudo, não tem um bom currículo; e sem um bom currículo você não consegue um emprego legal”, ela disse. Alguns de seus colegas menearam a cabeça afirmativamente, concordando com o pressuposto. Não havia saída, portanto: pessoas com menor poder aquisitivo não terão, nunca, a chance de construir um currículo à altura de um emprego desejável. A réplica àquele argumento veio do raciocínio rápido de Henrique, sentado numa cadeira logo atrás de Letícia. “Mas existe muita gente com dinheiro que não quer estudar”, rebateu o rapaz de óculos e cabelos espetados. De novo as cabeças menearam afirmativamente, mas dessa vez uma nova verdade (ou uma verdade ainda escondida)começou a mudar e moldar as convicções daqueles alunos: não é tanto o dinheiro, mas a vontade determinada, o que garante um bom estudo, um currículo apresentável e, por fim, um bom emprego.
 
Bruno de Souza

Bruno de Souza

Bárbara Carveche

Bárbara Carveche

Charles Damasceno

Charles Damasceno

 

 

 

 

 

 

 

 

E falta de vontade é um problema do qual os 15 alunos daquela sala não padecem. Eles acordam cedo todos os dias (muitos deles antes das seis da manhã) e vão à escola – cursam o ensino médio em colégios públicos de Santo Amaro, zona sul de São Paulo. Terminada a aula, no início da tarde, eles encaram pelo menos uma hora de ônibus para chegar a Moema, onde estava localizada, até meados de março, a sede provisória do curso profissionalizante no qual estão inscritos. O curso começa às duas da tarde. Antes, porém, eles almoçam na padaria da esquina: alternam no prato coxinhas, sanduíches, empadas e o que mais a fome pedir; refrigerante e suco amenizam o calor seco da capital. Às duas em ponto a aula começa. Os alunos chegam à sala, vão à sala contígua onde guardam seus pertences e vestem, por cima da roupa, o avental branco que lhes confere profissionalismo – mal começaram o curso e já se parecem com técnicos em um laboratório. Mas ali não há formalismos. O professor escolhe no computador uma música qualquer que seja do repertório dos pupilos e que os distraia durante alguns minutos da rotina puxada de frequentar duas escolas. Há até funk. A audiência aprova. Avental posto, eles se sentam, ajeitam-se, trocam as derradeiras palavras com os colegas ao lado e depois ficam em silêncio após a primeira frase de boas-vindas do professor. Dali até às seis da tarde, e durante quatro horas de cada dia útil de 2009, o que Letícia, Henrique e os outros 13 alunos do curso farão será construir um currículo humano e profissional digno do posto que desejam ocupar, seja este qual for. E o melhor: no curso ninguém precisa desembolsar nem um centavo para estudar, seja um centavo para o ônibus, para a coxinha, para os aventais ou os livros e cadernos. Nada. O aprendizado, nesse caso, é “pago” apenas com a vontade.

Saiu do papel

A Fundação Abióptica, braço social da organização que congrega empresas e profissionais do setor óptico, demorou uma década para sair do papel. Graças à doação de R$ 200 mil feita em 2007 pela própria Abióptica à Fundação e à cessão, por parceiros do setor, de outros bens e serviços – como uniformes, tênis, lentes, roupas, conhecimento técnico e mesmo dinheiro –, a instituição pôde lançar esse ano seu primeiro curso profissionalizante, o de Montador Óptico, para jovens provenientes da rede pública de ensino e poder aquisitivo insuficiente para arcar com uma formação extra-escolar. Letícia, Henrique, Dayane, Otávio, Eduardo, Bruna, Charles e mais oito jovens entre 16 e 19 anos já estão sendo beneficiados pelo curso, que terá duração de um ano e acontece todos os dias durante a semana. O parceiro fundamental da Fundação Abióptica é a Fundação Projeto Pescar, criada em 1976 em Porto Alegre pelo empresário Geraldo Linck. Na mão oposta do assistencialismo, a Fundação Projeto Pescar tem como objetivo oferecer a jovens cursos básicos de formação profissional e humana que os capacite a ingressar no mercado de trabalho. Com o know-how adquirido ao longo de mais de três décadas de trabalho, a Fundação Projeto Pescar tornou-se uma franquia social, e oferece às instituições parceiras, como a Fundação Abióptica, todo o conhecimento e suporte de que dispõe para implantar e fazer dar certo os projetos educacionais que seus parceiros pretendem levar adiante.

Franklin Rodrigues

Franklin Rodrigues

Henrique Silva

Henrique Silva

Iza Damasceno

Iza Damasceno

 

 

 

 

 

 

 

 

Norberto Farina, presidente do Pescar, da Fundação Abióptica e sócio-diretor da óptica Mitani, foi, ao mesmo tempo, inspirador e incisivo no discurso que fez durante a aula inaugural aos estudantes da primeira turma de montadores ópticos. “Com essa estrutura, nós estamos dando 51% da oportunidade a vocês. A única coisa que exigimos são os 49% de comprometimento de cada um”. Diante de uma platéia de jovens que, naquele primeiro dia, não tinham total certeza sobre os desafios que encontrariam pela frente e nem se era aquilo mesmo que desejavam – incertezas típicas da adolescência – Farina falava como se vislumbrasse um futuro promissor para cada um dos alunos e, ao mesmo tempo, como se temesse pela inconstância própria da juventude, capaz de abortar grandes projetos a meio caminho. “Vocês ainda não conseguem enxergar isso, são muito novos, mas acreditem numa coisa: sem educação vocês não vão a lugar algum, estão fora, e vocês não terão uma segunda chance”, disse Farina, entrecortando o discurso por duas vezes ao se emocionar.

O diretor-executivo da Abióptica, Bento Alcoforado, endossou o discurso do colega. Já Rui de Souza Lima Jr., diretor-financeiro da Sàfilo e, agora, da Fundação Abióptica, contou aos alunos sua própria trajetória de vida, marcada por uma miríade de percalços financeiros na infância e adolescência e um histórico de superações e aproveitamento de oportunidades que, de alguma forma, serviram de parâmetro aos jovens que o ouviam. Ao final dos discursos inaugurais, Farina e Lima Jr. se comprometeram diante de mais de duas dezenas de pessoas a disponibilizar, cada um, uma vaga em suas respectivas empresas aos formados da primeira turma.

Dayane Lopes

Dayane Lopes

Eduardo Nascimento

Eduardo Nascimento

Letícia Basílio

Letícia Basílio

 

 

 

 

 

 

 

 

… o santo desconfia

Cerca de uma centena de estudantes de escolas públicas da zona sul de São Paulo se inscreveram no curso oferecido pela Fundação Abióptica e foram avaliados por seus conhecimentos básicos de língua portuguesa e matemática. Também foram entrevistados pela coordenadora operacional da Fundação Abióptica, Fabiana Yoshikawa, e pelo professor do curso, Luis Carlos Pinguelo, para deixar claro suas expectativas e disposições em relação ao projeto. Desse grupo, foram escolhidos 15 jovens. Pinguelo visitou a casa de cada um deles e avaliou suas condições sócio-econômicas. “O mais importante, no entanto, era conhecer os pais e explicar o projeto para eles, porque são eles que apóiam os filhos nos estudos, são eles que os incentivam”, disse o professor.

Já se sabe que o santo desconfia quando a oferta é polpuda demais. Curso de um ano, alimentação, transporte e uniforme… tudo de graça?! “Os pais achavam que não éramos sérios, que logo daríamos um papel pra eles assinarem com alguma cobrança”, conta Pinguelo, entre risos. Picaretagem, pensaram os pais. Mas o professor foi sensível e rápido na resposta: “esse curso é tão sério que eu nem estou te dando papel pra assinar”, disse ele a um dos santos desconfiados, indicando que a palavra, naquele caso, valia mais que um contrato formal. Desfeitas as (naturais) resistências, os pais, duas semanas depois do início das aulas, já estavam cumprindo seu papel de apoiadores dos filhos e testemunhando mudanças de atitude “inimagináveis”.

sentados pelo chão

Os meninos que antes passavam grande parte do tempo livre jogando bola na rua, ou em casa jogando videogame, agora ocupam as poucas horas de ócio que têm fazendo a lição de casa que os professores do ensino médio lhes pedem. As meninas, fãs da TV, dos telefonemas e conversas demoradas com as amigas no MSN, agora aproveitam até as aulas vagas no colégio, as viagens de ônibus e o período da noite em que estão em casa para darem conta das tarefas escolares. Há até quem, durante o fim de semana, sinta falta do curso da Fundação, e lamenta – com sinceridade, que se diga – o fato de não poder passar mais tempo nas aulas do professor Pinguelo. “O curso termina às seis. Quando dá seis e meia, às vezes eu tenho que mandá-los pra casa, porque eles não saem daqui”, diverte-se o professor. Milagres da motivação.

Lucas Cardoso

Lucas Cardoso

Sirlene da Cunha

Sirlene da Cunha

Lucas Ribeiro

Lucas Ribeiro

 

 

 

 

 

 

 

 

No dia em que visitei os alunos para a produção desta reportagem, estavam todos sentados no chão da sala, em roda, divididos em três grupos e concentrados na produção do currículo fictício que o professor lhes havia pedido. Do dono do currículo, sabiam poucos detalhes, como nome, idade e escolaridade. A partir dessas informações, cada grupo foi incumbido de criar um currículo diferente. No grupo um, o currículo deveria ser muito bom; no dois, mediano, e no três, um currículo ruim, pouco informativo e nada atraente. Passei por cada um dos grupos e testemunhei o entrosamento dos alunos – nem todos eram colegas antes do curso, já que foram selecionados em três diferentes escolas. Em cada grupo havia um aluno que desenhava muito bem e que, obviamente, recebeu a missão de criar o retrato do currículo. Invariavelmente, as três turmas gastaram pelo menos 60% do tempo pensando no desenho e seus detalhes: põe cabelo espetado; não, espetado não, careca! Careca?! Tá bom, põe um cabelo ralinho. E esse nariz? Tá gigante! A sobrancelha tá ao contrário, muda isso aí! Não, tá bom assim. E se a gente desenhar o professor? (risos). Do grupo um surgiu uma dúvida crucial: a repórter já estava há muito tempo com o grupo três; estaria ela ajudando o grupo na tarefa? “Não, claro que não”, tranquilizou-os o professor, não sem antes me contar e se divertir com a suspeita. Eu precisava dividir melhor meu tempo entre eles.

Katlyn Balbino

Katlyn Balbino

Otávio Barbosa

Otávio Barbosa

professor Luís Pinguelo

professor Luís Pinguelo

 

 

 

 

 

 

 

 

Havia na sala de aula uma dessas bagunças organizadas, gente argumentando, contra-argumentando, opiniões em conflito e a busca por soluções. Mas ninguém precisou ser repreendido pelo barulho ou reconduzido ao tema por divagar em assuntos paralelos, como é comum acontecer nas classes dos colégios públicos. Em grande parte, claro, porque uma turma de 15 alunos é muito mais “manejável”  do que uma de 30 ou 40, como as que os heróicos professores da rede pública conduzem todos os dias. Mas também é verdade que a flexibilidade do currículo do curso de Montador Óptico e a didática amigável do professor Luis Carlos Pinguelo contribuem para esse interesse natural dos alunos. Apenas 40% do currículo do curso está relacionado aos temas técnicos da óptica – e os que ali se formarem não precisarão ser, necessariamente, montadores; terão conhecimento suficiente para se tornarem, também, vendedores e balconistas altamente qualificados, profissionais em falta no setor óptico, ou, ainda, auxiliares habilitados a trabalhar em outras áreas. Isso porque os demais 60% do curso estão relacionados a conhecimentos gerais de cidadania, meio ambiente e relacionamento interpessoal, tão necessários à vida profissional.

Filmes, programas de TV, dinâmicas de grupo e teatro são frequentemente utilizados como instrumentos de apoio às aulas. E os alunos apreciam essa variedade que dificilmente encontram nas salas de aula convencionais. Quando Pinguelo deixou o recinto por alguns minutos para buscar folhas sulfite, perguntei aos alunos o que achavam do professor. Entre as afirmações de “muito legal, gente boa e divertido”, uma me chamou mais a atenção: “ninguém tem medo de perguntar nada pra ele”, disse-me um dos alunos, e os demais concordaram. Também, pudera: já no primeiro dia de aula, Pinguelo fez um trato com os pupilos: ninguém ali precisaria ter vergonha de perguntar nada – e não haveria espaço para tiração de sarro de quem pergunta – porque para ele, como professor, não há perguntas bobas nem desnecessárias.

Por isso, acostumados que estão a perguntar o que lhes dá na telha, naquele dia nem a repórter escapou às questões: você voltará outras vezes pra visitar a gente? Quantos anos você tem? Vai publicar nossa foto? É difícil ser jornalista? Quando vai sair a revista? Onde ela sai?A gente vai ganhar uma cópia pra levar pra casa? A possibilidade de darem uma entrevista e saírem nas páginas de uma publicação que circula no Brasil todo deixou-os mais que animados. A revista será publicada em abril e, claro, cada um receberá uma cópia (ou duas, porque há a cópia dos pais também). Tenho quase certeza de que quando receberem o exemplar, afoitos, eles buscarão a página da reportagem e quererão ver, primeiro, a foto na qual aparecem, e, em seguida, os próprios nomes impressos nas páginas: Henrique, Sirlene, Letícia, Bárbara, Charles, Lucas (o Cardoso), Michelle, Iza Karla, Katlyn, Dayane, Bruno, Eduardo, Lucas (o Rodrigues), Otávio e Franklin. Estarão todos lá (ou melhor, aqui), impressos e familiares aos olhos de cada um dos alunos. Depois lerão o texto, primeiro individualmente, em seguida uns para os outros (agora mesmo há alguém lendo), comentando um trecho aqui e ali, rindo, identificando-se nas aspas e nas atitudes descritas. Os alunos da Fundação Abióptica guardarão seus exemplares da View com muito cuidado, numa gaveta, talvez embrulhados num envelope pardo ou numa sacola de supermercado – umidade e sol não vão bem com papel. As revistas ficarão tão bem guardadas que os personagens dessa história eventualmente se esquecerão delas. Mas haverá o dia – daqui dez, 15 anos, talvez – em que os alunos, já bem empregados e com a vida cada vez mais próspera, terão a ocasião de contar a alguém o trajeto que percorreram até chegarem à maturidade profissional e pessoal que tanto esforço exigiu deles. Com saudosismo, tirarão as revistas do fundo da gaveta, lerão a reportagem em voz alta e de novo se lembrarão, orgulhosos de si mesmos, do dia em que, de avental branco, lápis e borracha nas mãos, começaram a preparar o currículo que lhes transformaria a vida para sempre.

Reportagem publicada na ed. 95 da revista VIEW (abril/2009)

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Alema, Anisah e Bushra: revolução sobre rodas

Alema, Anisah e Bushra: revolução sobre rodas

Alema, Anisah e Bushra cresceram sem saber pedalar, mas hoje circulam orgulhosas em suas magrelas

Em alguns países, o islamismo impede que mulheres andem de bicicleta. Por isso, Alema, Anisah e Bushra, londrinas filhas de muçulmanos, cresceram sem saber pedalar. Hoje, mesmo sob os olhares reprovadores, circulam orgulhosas em suas magrelas. Alema Akthar é uma das centenas de filhos de bengaleses nascidos na capital inglesa. Muçulmana praticante, ela tem 19 anos e, em meio às modernidades com as quais convive em Londres, toca um curso no mínimo curioso – para não dizer revolucionário. Depois de anos com uma inquietação no peito e nas pernas, resolveu não só aprender a andar de bicicleta, tarefa proibida para quem segue os preceitos islâmicos, mas também ensinar outras garotas como ela a pedalar.

Fez questão de me encontrar para falar sobre suas aulas antes que eu entrevistasse qualquer de suas alunas. Começou dizendo que seu curso existe há quatro anos em Londres e já ajudou mais de 300 muçulmanas entre 18 e 65 anos – a maioria imigrante de Bangladesh, Índia, Irã e Paquistão – a pilotar uma bicicleta. Por causa das crenças patriarcais da cultura daqueles países, muitas mulheres asiáticas (e mesmo as inglesas que nascem em famílias de imigrantes) estão imersas numa realidade de repressões e imposições.

Na Índia, por exemplo, meninas são forçadas a casar ainda crianças, são alijadas da escola, do convívio social e, porque não podem trabalhar, dependem financeiramente do marido e dos filhos homens. No Irã, mulheres que protestam em público por seus direitos, mesmo que pacificamente, não raro são agredidas pela polícia, presas e julgadas pelos crimes de violação à segurança nacional e à propaganda contra o governo. Em Bangladesh, uma mulher que recusa o flerte de um pretendente corre o risco de ter o rosto desfigurado pelo ácido que o próprio lhe atira como vingança; em outras ocasiões, pode ser vítima, mesmo na Inglaterra, do chamado “assassinato de honra”: ao negar um casamento arranjado ou se apaixonar por um homem que não tenha sido aprovado pela família, é morta pelo próprio pai ou outro parente do sexo masculino.

 

EMANCIPAÇÃO

Uma faceta, digamos, mais “prosaica” da cultura patriarcal de alguns países asiáticos está relacionada ao exercício físico. As mulheres são “desaconselhadas” a andar de bicicleta e praticar outros esportes quando atingem a adolescência, e isso é regra até o fim da vida. Porque esporte não é coisa para mulheres. Simples assim. A própria Alema só aprendeu a pedalar aos 16 anos. Nunca foi proibida pelos pais, mas jamais viu as mulheres de sua família pilotando uma bicicleta. Há apenas três anos ela ousou pôr as rodas nas ruas e conseguiu ir até mais longe que suas iguais: submeteu-se a treinos específicos de ciclismo e tornou-se uma instrutora qualificada. “Se eu posso fazer isso, imagino que outras meninas possam também”, diz, fiando-se no bom senso de pais como os dela, que, após absorverem a cultura inglesa, não se opuseram à “emancipação” da filha.

Jagonari, que significa “mulheres, despertem”, é o nome do centro cultural onde Alema trabalha e que oferece, além do curso de ciclismo, capacitação e alfabetização para mulheres da comunidade asiática concentrada em Whitechapel, bairro londrino povoado por imigrantes praticantes do islamismo. “Elas precisam ficar em casa cuidando dos filhos enquanto os maridos trabalham e quase não têm vida social. O Jagonari é um lugar bilíngue, onde elas aprendem inglês, exercitam-se e interagem com outras mulheres”, explica Alema. Financiados com verbas do governo inglês, esses cursos são gratuitos para as alunas da comunidade. O de ciclismo ainda oferece empréstimo de bicicleta, mesmo após o fim do curso.

 

 

Anisah e Alema durante passeio no parque com a instrutora Lesley

Anisah e Alema durante passeio no parque com a instrutora Lesley

 

ESPORTES E VÉUS

Uma atividade que pode parecer corriqueira para qualquer mulher ocidental exige esforço e determinação dessas alunas. No curso, elas aprendem a desviar de obstáculos, guiar por lugares estreitos e sinuosos e entender placas de trânsito – para, finalmente, pilotar nas ruas. Tudo em meio aos olhares de transeuntes que nunca viram uma mulher muçulmana, com o véu a ocultar os cabelos e uma túnica negra sobre o corpo, andar de bicicleta em público.

Mas, afinal, o islã teria algo a ver com a proibição da prática de esportes por mulheres? Era preciso ser delicada na abordagem desse assunto porque, desde julho de 2005, quando atentados à bomba contra o transporte público de Londres mataram, pelas mãos de muçulmanos extremistas, mais de 50 pessoas, tocar em temas ligados aos costumes islâmicos se tornou uma tarefa espinhosa. Mas, como Alema não tocava no tema, decidi ser direta. “Existe algo explícito no Alcorão proibindo as mulheres de se exercitarem?”, perguntei. “Absolutamente nada”, responde. “Senão, as mulheres não ousariam ter aulas de ciclismo. No entanto”, e aí Alema foi mais precisa, “é fato que, no islã, meninas e meninos, em teoria, não devem se misturar sem necessidade, e isso se torna também uma barreira para a prática de esportes, que são, majoritariamente, praticados por meninos.”

Os braços de Anisah Khadim tremulam ao segurar o guidão. A pequena praça ao lado do centro Jagonari é o lugar perfeito para as pedaladas da iniciante de 13 anos, uma das mais jovens alunas do curso. Anisah diz não ter vontade de pilotar na rua, mesmo que um dia domine a bicicleta sem claudicar. “Há muitos carros”, diz a inglesa filha de bengaleses. Bushra Chowdhury, outra inglesa com raízes em Bangladesh, tem 20 anos e pedala há quatro meses. Está visivelmente mais segura na direção do que a colega Anisah, ciclista há apenas duas semanas. Bushra olha sempre para a frente, não vacila e até ousa um pouco mais na velocidade. Ela, que tem pavor de coisas que se movem, de aranhas a carros, também diz que não pretende ir pra rua com a bicicleta por­que “as pessoas dirigem como lunáticas hoje em dia”. Já a instrutora Alema é pura confiança. Ela pilota na praça, na rua e até acena com uma das mãos quando repara que eu a observo. Apesar da diversidade de experiências, as três jovens são unânimes em duas afirmações: a primeira, de que andar de bicicleta é agradável pela sensação de liberdade; a segunda, de que os olhares reprovadores de alguns homens asiáticos mais velhos ainda as deixam desconfortáveis e ofuscam a liberdade adquirida.

 

CORES DISTINTAS

Alema, em nossa segunda entrevista, desta vez realizada num parque, usava um véu cinza que ocultava quase toda a testa, metade das bochechas, pescoço e até os cantos dos olhos. Sob uma jaqueta parda, ela vestia um jilbab, a túnica negra que cobre as muçulmanas até os pés. Anisah e Bushra usavam seus véus – mas não jilbabs – nos mesmos moldes que Alema, porém, ousavam nas cores: o véu de Anisah era violeta vivo, o de Bushra, azul-celeste. Enquanto papeávamos, uma dona de casa bengalesa de 38 anos aproximou-se, atraída pelas meninas de véu, suas iguais, montadas em reluzentes bicicletas de alumínio. Alema perguntou-lhe se queria pilotar. A mulher riu e disse que não. Desconversou, mas admitiu que, provavelmente, o marido não aprovaria. “Você viu? Ela estava interessada, mas ainda não tem coragem. Isso é porque está em Londres há menos de seis meses. As mulheres imigrantes, depois de uns dez anos aqui, tornam-se muito mais livres”, disse Alema.

Uma década parece muito para que uma mulher, ali pelos seus 40 anos, conquiste autonomia para aprender a usar uma bicicleta. Alema, Anisah e Bushra, por serem inglesas, “emanciparam-se” antes. Talvez por terem nascido num ambiente tão díspar daquele de onde seus pais vieram, as jovens ciclistas não têm ideia da importância de suas pedaladas. As meninas do Jagonari desfazem preconceitos, redefinem comportamentos, transformam o mapa social de onde vivem e reconquistam liberdades básicas para suas iguais mais velhas. Quando vestem seus véus e jilbabs e montam em suas bicicletas, estão incitando nada menos que uma histórica revolução sobre rodas.

 

ousadia púrpura de Anisah

ousadia púrpura de Anisah

ENQUANTO ISSO, NO BRASIL (por Paula Rothman)

Se o sheikh Mohamad Al Bukai fosse casado, não veria problemas em sua esposa andar de bicicleta. Nascido na Síria, há dois anos ele vive em São Paulo e é líder espiritual da mesquita do Pa­ri, uma das maiores do Brasil. Para ele, as res­trições impostas às muçulmanas em alguns países não são totalmente fundamentadas na religião. “Trata-se de política, uma decisão de governos extremistas confundida com ensinamento religioso pelos leigos. Imagine se existia bicicleta quando escreveram o Alcorão”, exalta. A interpretação do livro sagrado muçulmano explica por que mulheres de uma mesma crença têm liberdades tão distintas em diferentes partes do mundo. Alia Fayd, 17 anos, aprendeu a andar de bicicleta com os pais, libaneses que migraram para o Brasil. A tia de Alia, Nazek AlAttar, 47, se lembra de uma infância de pedaladas na Síria. Elas são exemplos da comunidade muçulmana brasileira, que tem cerca de 30 mil pessoas*. “E, em sua maioria, é formada por turcos, sírios e libaneses, vindos de países bem menos radicais”, completa o sheikh. Não é o que acontece no Reino Unido, onde a maioria dos mais de 1,6 milhão de adeptos**, que fazem do islamismo a segunda maior religião de lá, é imigrante de locais considerados mais extremistas, como Paquistão (320.767 imi­grantes), Bangladesh (154.200), Irã (42.377), Iraque (32.251) e Afeganis­tão (14.890)***.

*Último Censo do IBGE, de 2000, apontava 27.239 muçulmanos. **2001 Census England and Wales. ***Institue for Public Policy Research, do Reino Unido.

 

FOTOS: Marina Chevrand

Reportagem publicada na revista TPM, ed 86, abril/2009

 

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great landscapes of London

great landscapes of London

Ele é capaz de agregar valor a um produto ou espaço físico, atrair clientes e aumentar vendas. O design pode mudar o rumo de qualquer produto físico comercial. Em Londres, o design, em muitos aspectos, não é só diferencial, mas pré-requisito para que um produto ou espaço sejam dignos de receber um olhar de interesse do consumidor inglês, acostumado às artes e à criatividade 

Quando desembarquei no aeroporto internacional de Heathrow, em Londres, em fins de setembro de 2006, logo notei importantes diferenças no ambiente da capital inglesa em relação à capital paulista, que havia deixado há apenas um dia. Pessoas altas, cabelos louríssimos ou ruivos, e o inconfundível inglês britânico que se ouvia ao redor. É verdade que o gigantismo de Heathrow ainda me lembrava São Paulo, com escadas e esteiras rolantes encurtando as longas caminhadas entre um ponto e outro. Mas foi no claustrofóbico metrô que fica dentro do aeroporto e que conduz ao centro da cidade, que notei uma segunda grande diferença: apesar de compacto, com teto baixíssimo e poltronas pequenas azul real, os vagões do metrô londrino são apinhados de cartazes com propagandas de empresas privadas e mensagens institucionais do governo. Não há espaço desperdiçado: plataformas de embarque, corredores, o entorno das bilheterias e até as paredes que ladeiam as escadas rolantes viram suporte para publicidade. Algumas dessas propagandas são verdadeiras obras-primas de design gráfico, com um acurado senso estético e preocupação em fazer das imagens e palavras uma peça única em termos gráficos, e por isso repletas de significado. Outras são inovações tecnológicas: painéis eletrônicos, dezenas deles, que não param de exibir imagens e seduzir os olhos mesmo de quem passa apressado diante deles.

E não foram necessárias muitas viagens de metrô ou caminhadas pela cidade para perceber que a preocupação com o design, seja dos cartazes, das roupas, dos óculos, das construções, da decoração dos pubs ou dos cortes de cabelo, é algo recorrente na vida londrina de todos os dias, fruto, certamente, da educação formal recebida desde cedo que ressalta o valor das artes, da cultura e da criatividade em geral.

O design é o tempero de toda obra material e é o que lhe agrega valor. É ele que nos faz crescer os olhos sobre a beleza de um produto, por exemplo, e nos faz optar por ele em detrimento de outro de mesma utilidade, mas com desenho convencional. Design, porém, não tem a ver só com aparência bem elaborada. Pelo menos não na concepção geral e moderna de design, que envolve, além de estética, os conceitos de usabilidade (termo livremente traduzido do inglês e que designa a utilidade e praticidade de um objeto) e capacidade de envolver o consumidor.

O inglês Ab Rogers é um dos designers mais respeitados de Londres, com projetos seus – especialmente de criação de novos espaços – enriquecendo prédios como os do Design e Science Museum, a galeria de arte Tate Modern, o Victoria and Albert Museum (todos em Londres), uma filial da grife Comme des Garçons e o Centro Pompidou, esses dois últimos em Paris. Rogers faz daquelas três diretrizes – usabilidade, estética e interatividade – as linhas mestras do seu trabalho e, com elas, (e mais a irreverência e o gosto por cores que lhe caracterizam), cria espaços que são verdadeiras obras de arte, apesar de Rogers ver diferenças conceituais claras entre arte e design.

Em 2003, a loja de óculos Michel Guillon, localizada no centro de Londres, encomendou-lhe um projeto para uma nova sede. A princípio, pediram-lhe como cor básica o bege. Rogers, para começar, fez a contra-proposta: bege não, azul, azul intenso. Depois, pensou em algo que não fosse convencional como os balcões cobertos com tampos de vidro sob os quais os óculos costumam repousar todos misturados e indistintos, longe do alcance do consumidor. Rogers optou por um muro de 14 metros de comprimento forrando toda a loja, cravejado por 462 compartimentos que servem como mostruários para cada par de óculos, transformando os objetos em peças únicas e exclusivas. Estavam presentes na originalidade do muro e na vivacidade do azul o pensamento estético do designer. A usabilidade veio com uma sacada mecânica. Cada mostruário move-se automaticamente, em momentos determinados, fazendo com que cada compartimento saia do muro e retorne (como uma gaveta abrindo e fechando) e chame a atenção do cliente para que o pegue. Ao transformar a loja de óculos num ambiente vivo, onde os óculos, elementos principais, comunicam-se com os clientes, Rogers logrou alcançar a diretriz do design que lhe é mais cara: a capacidade de entreter o espectador/consumidor de maneira lúdica. É então que a forma de um produto ou espaço vai além, e se transforma em conteúdo. O resultado do trabalho de Ab Rogers para a loja Michel Guillon: um aumento de 30% nas vendas de óculos.

“Acho que o designer tem que estar atento, sim, à sua audiência, mas não penso que ele tenha que trabalhar exatamente como o cliente quer porque o cliente nem sempre sabe o que quer, e é parte importante do trabalho do designer traduzir isso. Um bom exemplo é o trabalho que fiz para a Michel Guillon”, diz Rogers.

Além das três diretrizes e da conversa com o cliente, Rogers também considera importantes para a produção de uma boa obra de design, a capacidade de o profissional trabalhar com limitações (seja de tempo ou de dinheiro investido no projeto), o equilíbrio entre criatividade e praticidade – o que significa saber encontrar o meio termo entre a viagem artística e a possibilidade real de criar um objeto ou espaço úteis – e, mais que tudo, a sinceridade intelectual na hora de criar. Sobre a sinceridade, Rogers explica: “significa tomar decisões pelas razões certas. Não estamos preocupados em ser originais o tempo todo e nem queremos copiar o que os outros estão fazendo. Estamos preocupados em saber qual solução o cliente precisa, como ela pode ser desenvolvida, desenvolvê-la e ir além das expectativas do cliente”. Está dito.

Faz pouco mais de dois anos que desembarquei no aeroporto de Heathrow e notei as primeiras peculiaridades inglesas. Dois anos comportam dias suficientes para que um latino maleável – como a maioria dos latinos – se acostume ao sotaque britânico, ao frio, à fleuma bretã e à caótica mistura de culturas, no caso de Londres, destino preferido de imigrantes vindos de todas as partes do mundo. Mas dois anos não comportam suficientes dias para que um não-inglês (latino ou não), acostume-se à riqueza estética da capital inglesa. Eu, pessoalmente, sigo me surpreendendo com as boas peculiaridades do design londrino de todos os dias. Confira a seguir a entrevista exclusiva concedida por Ab Rogers à revista View e as fotos feitas por André Penteado na capital da criatividade estética.

ENTREVISTA: Ab Rogers

Colourful guy: Ab Rogers

Colourful guy: Ab Rogers

 

Design de brincadeira

Olhos azuis, camisa rosa, cachecol amarelo, abrigo laranja, calça azul e sapatos caramelo-claro. Faltam poucas cores, e sobram outras, ao arco-íris de Ab Rogers. Apaixonado por diversidade cromática e com uma criatividade lúdica, Rogers é um dos mais respeitados designers da Europa. Seus projetos são feitos para serem vistos e incorporados pelo público – e com bom humor, que se diga. Na sua casa-escritório em Wimbledon, extremo sul de Londres, o designer recebeu a reportagem da revista View para uma conversa e sessão de fotos. Tanto repórter quanto fotógrafo saíram de lá com a clara sensação de terem visto, em Rogers, uma representação quase gráfica da versátil inventividade da estética londrina.

Do que você gosta mais no seu trabalho como designer?

Gosto mais da excitação, de descobrir novas coisas e soluções divertidas e criativas para os projetos.

 

Quando você cria um projeto, você se vê fazendo arte ou há uma diferença entre arte e design?

Eu vejo diferenças, sem dúvida. Quando faço design estou lidando com um problema, estou buscando soluções inventivas pra ele. Na arte eu busco inspiração, porque a arte não tem fronteiras nem limites, como temos no design. O design tem que ser basicamente prático e produzível, e tem que se adequar aos limites financeiros que você tem para trabalhar. Nesse aspecto, acredito que quanto mais limitações você tem, melhor, de certa forma, porque te faz mais criativo.

 

Você pode me dar um exemplo de um trabalho em que você teve limitações importantes?

Agora estamos trabalhando para uma rede britânica de restaurantes localizados em estradas chamada Little Chef, que já está no mercado há 50 anos. Nós tivemos apenas três meses para reestruturar todo o design da rede e uma verba pequena, 800 libras por metro quadrado (cerca de 2.700 reais) – normalmente trabalhamos com duas mil libras (cerca 6.700 reais) por metro quadrado para uma loja, mas como é um restaurante, seria ainda mais. Só optamos por trabalhar com materiais que pudessem ser encontrados num prazo de semanas, não meses. Tinha que ser um projeto que divertisse as pessoas, mas sem assustá-las, que respeitasse normas de segurança e higiene e que fosse ambientalmente correto. Era bastante desafiador. Então pensamos o projeto, apresentamos ao cliente, mas ele não gostou, por diversos motivos. Então voltamos ao escritório, descartamos o projeto e criamos outro rapidamente. Poderíamos ter discutido com o cliente, dado argumentos dizendo que o projeto era bom e que a opinião dele era equivocada, mas isso custa tempo e dinheiro, então decidimos refazer o quanto antes. Usamos materiais simples, com custo menor, mas ainda assim muito poéticos, muito lúdicos. No banheiro, por exemplo, criamos um sistema que emite cheiro de pão e café, porque muitas pessoas param no restaurante só para ir ao banheiro, e precisamos convertê-las em consumidores também. O som da descarga é som de ovos fritando, para fazer a pessoa pensar em comida o tempo todo. Brincamos ao máximo com o ambiente, em parceria com o chef Heston Blumenthal, responsável pelo cardápio do Little Chef. Blumenthal é excêntrico e provocador, já os donos do restaurante são mais focados em negócio, então foi um desafio casar as duas mentalidades e fazer os dois felizes.

 

É importante para o designer considerar sempre o gosto estético e a bagagem cultural do cliente para o qual trabalha?

Acho que o designer tem que estar atento, sim, à sua audiência, mas não penso que ele tenha que trabalhar exatamente como o cliente quer, porque o cliente nem sempre sabe o que quer, e é parte importante do trabalho do designer traduzir isso. Um bom exemplo é a loja de óculos Michel Guillon. Eles me pediram uma loja bege. Sugeri algo mais excitante, um azul vivo para a loja toda. Depois convenci o cliente a investir dinheiro numa estrutura de mostruário móvel em toda a loja, para fazer os óculos mais vivos, como se fossem objetos únicos. Eles aceitaram, e hoje a loja vende 30% mais óculos do que quando o mostruário era estático. Foi um projeto comercial que desenvolvemos, mas inspirado pela arte.

 

O que faz uma boa idéia de design se tornar um produto vendável?

Tem que ser algo interativo para o consumidor, algo com que ele possa brincar, e que possa se comunicar com diferentes audiências; deve ter uma linguagem excitante. O escultor Tony Cragg desenhou um garfo de jardinagem para a rede de supermercados inglesa Sainsbury´s que, quando não está sendo usado, ele se torna uma escultura no jardim, então, no fim, o garfo está sendo usado o tempo todo, ou como garfo apenas, ou como escultura. Não tenho dados de quão vendável é esse produto, mas é um produto brilhante. É preciso haver um equilíbrio entre a utilidade e a fantasia do produto.

 

De onde você tira inspiração?

De todos os lugares. Das folhas de outono caindo (sem querer ser romântico), das viagens ao litoral que costumo fazer com minha família, do mar, de um livro, de exposições de arte, de filmes, de fantasia em geral, de tudo, basicamente.

 

No seu escritório vocês adotam alguma prática de design sustentável (termo que significa a utilização de materiais e métodos de produção que sejam menos agressivos ao meio ambiente)?

Sim. Nós tentamos sempre pensar nisso. Algo muito simples é a questão da luz, procuramos usar o máximo de luz natural em nossos projetos para reduzir o consumo de energia. Fizemos um projeto sustentável para a Love Life Story, uma marca ecológica aqui de Londres, um misto de restaurante e empório. Nesse projeto, por exemplo, não imprimimos nada do projeto para evitar o desperdício de papel, e apresentamos as informações ao cliente usando um pen drive.

 

Acha que é possível pensar em design ecológico em todos os projetos ou só em casos específicos?

Acho que é possível ter essa consciência constante de que temos que reduzir o volume de energia consumido, ainda mais nos projetos grandiosos. Mas é difícil aplicar esses princípios a todos os projetos. Por exemplo, reduzimos o uso de fibra de vidro em alguns trabalhos. Por um lado, é um material ruim, ecologicamente falando, mas, por outro, é um material que dura muito. Nós tentamos fazer um design sustentável, mas não posso dizer que trabalhamos 100% assim.

 

Você disse numa entrevista que é mais fácil inspirar as pessoas através de um design lúdico do que através de um design apenas acadêmico. Isso serve para qualquer tipo de design?

Eu disse isso referindo-me mais ao meu ponto de vista, ao meu modo de trabalhar. É claro que há pessoas que preferem o aspecto mais acadêmico de uma obra, outras preferem a interatividade, o aspecto lúdico. Mas em geral, sendo lúdico ou acadêmico, um projeto ou uma peça de design devem ser sinceros. O que eu detesto num trabalho é a falta de sinceridade.

 

O que você quer dizer com sinceridade numa peça de design?

Significa tomar decisões pelas razões certas. Não estamos preocupados em ser originais o tempo todo e nem queremos copiar o que os outros estão fazendo. Estamos preocupados em saber qual solução o cliente precisa, como ela pode ser desenvolvida, desenvolvê-la e ir além das expectativas do cliente. É o caso da loja de óculos Michel Guillon: ele queria algo ordinário, e nós o convencemos a fazer algo extraordinário, e acabou sendo original. Isso é um design sincero.

 

 

Reportagem especial da série Mind the Glasses (sobre moda e design em Londres), publicada na edição 94 (fev 2009) da revista View.

Fotos: André Penteado

 

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Tove Freed: crazy about vintage

Tove Freed: crazy about vintage

Ao contrário das modas dos anos 80 e 90, que aparecem e somem das ruas de Londres, a moda vintage, que data dos anos 50 para trás, não é sazonal. O apreco pelo que é histórico é comum entre os ingleses, que preservam o clássico ao fazê-lo presente na vida contemporânea

 

Londres é a capital do mundo que melhor combina o antigo com o novo. Basta cruzar uma das pontes sobre o Tâmisa e ver, de um lado do rio, castelos centenários com tijolos à vista, torres, fortes e enormes portas de madeira e ferro maciços; do outro lado do Tâmisa, prédios com design moderno, cheios de vidro, tons prateados e armações metálicas que apontam para o futuro. Essa convivência amigável e complementar entre o histórico e o contemporâneo se extende à culinária, ao gosto musical e à moda londrina. Esta última, como reflexo cultural da sociedade, explica por que o vintage nunca sai de moda na capital inglesa: mais que uma tendência, o vintage londrino é um esforço particular dos que se interessam por moda para combinar e perpetuar o melhor dos velhos e modernos tempos, assim como os castelos medievais e arranha-céus futuristas que formam uma paisagem coesa à beira do Tâmisa.

Tecnicamente, a moda vintage é composta por peças de roupas e acessórios da década de 60 para trás. A moda a partir dos anos 70 até os 90 é considerada retrô. A diferenciação entre os dois conceitos está não só estética das roupas, mas também na sua qualidade e preço. As peças vintage são consideradas mais exclusivas, melhor produzidas e mais valiosas que as peças retrô. “Sem dúvida, a qualidade da fabricação e o caráter único das peças vintage são suas principais características. É claro que existe o vintage barato, mas o mais comum é que ele tenha sempre alta qualidade. Quando você toca e vê essas peças percebe logo que elas foram feitas para durar. Às vezes uma peça tem 50, 60 anos, e está em perfeitas condições”, explica o nigeriano radicado em Londres, Jeff Ihenacho, dono da One of a Kind, uma das mais importantes lojas vintage de Londres (confira abaixo entrevista exclusiva com Ihenacho). “Antigamente, a produção das roupas era quase artesanal, detalhista, as pessoas tinham verdadeira paixão pela costura e pela moda. Hoje em dia a quantidade é tão ou mais importante que a qualidade, daí que as roupas sejam produzidas em massa, apenas por máquinas, sem a preocupação das grandes empresas com a exclusividade”, completa.

Segundo Ihenacho, cuja loja é visitada por artistas, modelos e designers famosos que buscam no passado inspirações para suas criações contemporâneas, os londrinos que consomem moda vintage estão em busca de diferenciação e originalidade – já que cada peça é exemplar único. Não se trata de sair da One of a Kind, por exemplo, como um personagem de época, montado da cabeça aos pés, mas de mesclar uma blusa dos anos 50 com um jeans padrão comprado em 2008, ou de harmonizar uma bolsa de couro original dos 40 com um tênis All Star pra lá de básico – sim, os londrinos são ousados –, vindo da prateleira de uma grande loja de departamentos. “A melhor solução para não ficar datado é balancear as décadas nas roupas”, ensina Ihenacho, ele mesmo adepto dessa miscelânea de tempos e estilos.

O grande ícone vintage de Londres, estampado em quadros, roupas, bolsas e até nas ultra-kitsch canecas vendidas em lojas de souvenirs, é a atriz belga Audrey Hepburn, protagonista de clássicos cinematográficos como Sabrina, Breakfast at Tiffany´s e My Fair Lady. Linda e naturalmente elegante, Audrey é até hoje referência em moda dos anos 50 e 60 para as mulheres inglesas que apreciam a alta-costura. Nas calçadas londrinas é comum encontrar vultos de Audrey presentes nos óculos quadrados big-size, lenços e faixas de cabelo, vestidos acinturados e chapéus. As lojas vintage, concentradas nas regiões de Bricklane, Notting Hill, Camdem Town e Old Street, o quadrilátero mais cool de Londres, celebram o vintage até em seus pormenores; além das roupas típicas com mais de 50 anos, é possível encontrar também móveis, revistas, brinquedos, posters, cartões postais e até bottons originais com fotos e slogans de políticos americanos que foram candidatos há décadas.

Em Londres, o vintage não é moda de uma estação, como as tendências oitentistas e noventistas que vem e vão cada vez que os estilistas mudam suas coleções. O apreço pelo clássico e histórico, que se respira em cada esquina dessa cidade com mais de dois mil anos é, antes de tudo, uma necessidade estética e cultural. Os londrinos sabem, quase que intuitivamente, que é o que bom e belo, como o vintage e os castelos à beira do Tâmisa, nunca perece.

 

 

Entrevista Jeff Ihenacho

Radical exclusividade

 

Jeff Ihenacho: also crazy about it

Jeff Ihenacho: also crazy about it

  

O especialista em vintage Jeff Ihenacho, de 41 anos, recebeu-me para a entrevista numa salinha apertada de sua loja One of a Kind, em Notting Hill. Forrada de araras e armários, a salinha é um recanto exclusivo da loja, cuja entrada de clientes só é autorizada com hora marcada. Nela, Ihenacho mantém, como verdadeiros tesouros, as roupas e acessórios vintage mais valiosos que angariou ao longo dos 14 anos da One of a Kind. Os preços das peças dão uma idéia de sua relevância histórica: um vestido Emilio Pucci e outro Valentino, cada um vendido a 50 mil libras (cerca de 150 mil reais), um Ives Saint Laurent de 30 mil libras (90 mil reais), fora bolsas e outros acessórios cujos preços ultrapassam 10 mil libras cada. Há também peças sem preço, como algumas criadas pelo estilista britânico John Galliano durante sua graduação da universidade de moda. Essas eu não vendo nem para ele, caso um dia ele as queira para montar um arquivo pessoal, garante Ihenacho. Segundo ele, essa é a essência do vintage: uma exclusividade tão radical que, às vezes, nem o dinheiro compra.

 

 

Quando você começou a trabalhar com moda?

Eu vim para Londres em 1985, mas comecei a trabalhar com moda em 1993. Eu comecei comprando roupas para pessoas como designers, que buscavam peças que inspirassem suas coleções, e outras apaixonadas por moda, e que tinham muito dinheiro. As pessoas confiavam no meu gosto, no meu olhar para roupas de qualidade, e por isso me encomendavam as peças.

 

E de onde veio essa sensibilidade para moda?

Quando era criança, ainda na Nigéria, era um menino excêntrico, e de alguma forma sempre tive interesse por moda. Nos meus uniformes da escola eu procurava colocar alguma cor, modificar o uniforme – e fui muitas vezes punido por isso. Quando vim para Londres, minha mãe me levava aos mercados de Portobello Road e Bricklane, e outros lugares conhecidos pelo vintage. Ela entendia muito de moda, era uma pessoa elegante, e sempre misturava vintage com moda contemporânea. Eu absorvi tudo isso dela.

 

Daí seu interesse específico por moda vintage?

Sim, sem dúvida.

 

Quais características diferenciam uma peça vintage de uma contemporânea?

Sem dúvida, a qualidade da fabricação e o caráter único das peças vintage são suas principais características. É claro que existe o vintage barato, mas o mais comum é que ele tenha sempre alta qualidade. Quando você toca e vê essas peças percebe logo que elas foram feitas para durar. Às vezes uma peça tem 50, 60 anos, e está em perfeitas condições. Antigamente, a produção das roupas era quase artesanal, detalhista, as pessoas tinham verdadeira paixão pela costura e pela moda. Hoje em dia a quantidade é tão ou mais importante que a qualidade, daí que as roupas sejam produzidas em massa, apenas por máquinas, sem a preocupação das grandes empresas com a exclusividade.

 

Onde você encontra tantas peças para abastecer sua loja?

Eu busco muitas fontes privadas, de particulares, como estilistas, senhoras elegantes, pessoas que me ligam de outras partes do mundo para oferecer as roupas têm. Também vou a mercados, brechós e leilões. Gosto de conhecer o fornecedor, de saber mais sobre a peça, o material de que é feita, como foi feita, por quem foi usada, histórias específicas sobre a roupa. Essas informações acrescentam mais caráter à peça e os clientes gostam de saber desses detalhes.

 

Quais critérios você considera ao comprar uma peça para vender na One of a Kind?

Sou muito específico e restrito. O primeiro critério é a condição física da roupa, se está conservada. Depois a qualidade da costura, o tecido, o tipo de fabricação, e se é realmente vintage. Eu não compro nada em caixas ou em grandes quantidades. Tudo que compro é único, avalio peça por peça antes de comprar.

 

Você prioriza marcas famosas?

Não. As roupas não precisam sequer ter marca, precisam é ser muito boas, excepcionalmente boas.

 

Quantos óculos você tem aqui?

Tenho milhares, desde as décadas de 40 até 80. Tenho óculos em casa também, enfeitando meus móveis, são parte da minha coleção pessoal e esses eu não vendo. Muitos estilistas e designers vêm à minha loja buscar inspiração para novas coleções, e muitos dos óculos contemporâneos têm sua fonte inspiradora em modelos vintage.

 

Você poderia citar alguns dos grandes designers que buscam inspiração para óculos na sua loja?

Profissionais da Dolce & Gabbana, Police e Armani estiveram aqui recentemente. A maioria  dos designers que compram roupas aqui tendem a comprar acessórios também.

 

Qual foi o fornecedor mais interessnte do qual você comprou roupas?

Há cerca de dez anos, conheci uma senhora inglesa muito distinta – ela já faleceu – que tinha um guarda-roupa fantástico, desde a qualidade e beleza até as histórias sobre as peças que ela me contou. Ela me disse que na década de 50 ou 60 foi a uma festa usando um dos seus vestidos, tiraram fotos dela e, tempos depois, a rainha da Inglaterra apareceu com uma réplica do vestido . Ela tinha um estilo incrível e me vendeu todo o guarda-roupa. Designers e artistas famosos ficaram alucinados com as peças porque nunca tinham visto nada parecido.

 

Parece que os londrinos têm um especial interesse por vintage. Existe alguma coisa no ambiente de Londres que talvez promova essa moda?

Em termos de moda, a Itália tem o design e a França (Paris, especificamente) tem o glamour. Mas Londres é quem fornece a inspiração para a criação. Londres é a cidade com mais apelo à moda e à inspiração criativa por seu aspecto cosmopolita, pela mistura de culturas do mundo inteiro em uma mesma cidade; tudo é mais colorido e interessante aqui. Depois, os ingleses gostam de originalidade, e o vintage, com suas peças únicas, oferece isso, essa exclusividade. Você nunca está igual a ninguém quando está usando uma peça vintage.

 

Você acha que o vintage é uma moda perene ou que tem data para acabar?

A moda vintage está aí há muito tempo, o que acontece é que as pessoas estão mais atentas a ela só agora. E sempre haverá gente ligada às roupas históricas, à qualidade dessa moda única.

 

 

Especial: Tove Freed

A garota de rosa shocking

 

feminism, fashion, green consciousness: all in pink

feminism, fashion, green consciousness: all in pink

 

Cor-de-rosa nos vestidos, nas saias, nas blusas, nos acessórios e no tom de pele, que já é naturalmente rosada. A sueca Tove Freed, de 23 anos, tem pelo menos duas centenas de roupas e acessórios pink vintage em seu guarda-roupa, que coleciona e usa todos os dias, com variações ocasionais de peças pretas, marrons, verdes ou brancas. “Visto-me de acordo com o meu humor e rosa é a cor dominante, porque me inspira alegria e acho que isso se reflete nas pessoas ao meu redor também”, diz Tove, que, ao se “produzir”, também gosta de imaginar que é outra pessoa e que está em outros lugares.

Além da estética, o uso de roupas vintage cor-de-rosa é uma manifestação quase político-filosófica para Tove: “ao usar rosa, prego ideais feministas e defendo a feminilidade; não quero me adequar às normas masculinas da sociedade. E quando compro vintage, difundo ideais ambientais, de reciclagem, porque não quero consumir sem pensar nas consequências”.

Tove trabalha na loja vintage Retro Clothing, em Notting Hill, rodeada por tudo aquilo de que gosta e com a vantagem de ganhar desconto para as peças vintage (rosa) que compra.

 

 

Fotos: André Penteado

Reportagem da série especial Mind the glasses, suplemento sobre tendências de moda e design em Londres da revista View, ed 93, dezembro/2008

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sketchbook de stuart bannocks

sketchbook de stuart bannocks

Criatividade é questão de audácia e falta de vergonha para inventar sem ter medo do resultado. E Londres é o caldeirão onde fervem, além de cultura, essas duas qualidades. A View foi atrás de alguns despudorados para entender, na prática, de onde vem essa criatividade que exala em cada esquina da capital inglesa

Os executivos londrinos usam moicano e vão para o trabalho de bicicleta; as mulheres vestem terninhos, tênis e meia-calça colorida; as crianças, ainda bem novas, carregam alguns megabytes de rock dos bons nos seus iPods, e os jovenzinhos de 18, 20 anos, terminam o colégio e, com a mesada dada pelos pais, saem viajando pelo mundo durante um ano só pra ver como é o universo além do umbigo. Os londrinos são uns despudorados quando o assunto é criatividade. Não guiam-se pelos aplausos ou vaias da arquibancada; são levados pelo próprio gosto e pela torrente de cultura que lhes chega quase de graça durante toda a vida: o colégio e universidade são praticamente 100% financiados pelo governo, a maior parte das galerias e museus não cobra entrada, assim como as bibliotecas (uma em cada bairro, e ativas!); viajar de avião a países vizinhos na Europa chega a ser mais barato que andar de ônibus durante uma semana na cidade; livros são quase item de cesta básica, baratos e vendidos até em lojinhas de conveniência; políticas públicas promovem o intercâmbio entre diferentes culturas por meio de festivais de cinema, teatro, dança e música. O verão é a época mais fértil para essas iniciativas, já que os ingleses desentocam e se atiram em praças e parques da cidade para curtir o sol e os festivais a céu aberto.

Com esse caldo cultural em constante ebulição, os habitantes de Londres não poderiam ser menos criativos. Em cada esquina da cidade é possível encontrar gente que se dedica a inventar algo diferente no visual, na decoração da bicicleta, numa performance de rua, no jardim, nos produtos que vende, no enfeite da porta de casa, na rotina que vive. E como regra básica de todas essas invenções alternativas, a falta de pudor é o motor de uma criatividade que não se acanha por nada.

Bicicleta? Só se for de celulose

O designer inglês Stuart Bannocks, de 21 anos, recém-formado pela universidade londrina Goldsmiths, é um desses criativos que não se importam com o embaraço público em prol de uma boa idéia. Bannocks gosta de filosofia e não raro usa conceitos filosóficos em suas obras gráficas, tornando-as ainda mais cheias de conteúdo. Foi um desses conceitos que ele adaptou a seu projeto de conclusão de curso. Stuart quis verificar quão próxima é a idéia que as pessoas têm sobre um determinado objeto e quanto esse objeto corresponde à idéia que as pessoas têm dele. Complexo? Talvez, mas na cabeça de Bannocks o conceito ficou bem visível. O designer construiu uma bicicleta de papelão em tamanho natural e circulou com ela sob o braço por algumas estações de metrô onde a entrada de pessoas com suas bicicletas é estritamente proibida. Na sua jornada surreal com a pseudo-bike pelos túneis londrinos, Bannocks não foi barrado por absolutamente nenhum segurança ou funcionário do metrô. “A bicicleta de papelão ocupava o mesmo espaço que uma bicicleta normal, tinha exatamente o mesmo formato, mas na cabeça das pessoas aquilo NÃO era um bicicleta de verdade”, conta o designer, com um sorrisinho de quem se divertiu com o experimento.

A discussão de Bannocks foi mais longe e deu manga para um outro projeto similar e ainda mais sério. Ele construiu um conjunto de “armas” inofensivas – bananas, colheres e passes de metrô foram fisicamente modificados e ganharam cara de revólveres e facas – para criticar um ponto delicado da atual realidade Londrina: após os atentados terroristas de julho de 2005, quando quatro bombas foram detonadas nos metrôs e em um ônibus na capital inglesa, não existem mais protótipos de suspeitos nem do que pode ser uma arma. Qualquer um pode ser barrado na rua pela polícia por atitude suspeita – que varia desde uma pausa para descanso no banco da praça até tirar fotos de paisagens ou vestir camisetas com desenhos de armas. Não raro, ônibus e metrôs são evacuados às pressas no meio do trajeto e a polícia acionada quando uma sacola de supermercado é econtrada repousando sem dono sobre o banco ou chão do veículo. Até que se prove o contrário, toda e qualquer sacola, mala ou pasta solitária – ainda que não tenham cara de arma – se tornaram, para a polícia inglesa, bombas camufladas prestes a explodir. Desde 2005 não há mais limite para a síndrome persecutória das autoridades britânicas e nem para a imaginação de quem se dedica a caçar pêlo em ovo.

E toda essa discussão gráfico-filosófica nasceu na cabeça de Bannocks por causa de uma habilidade que ele e praticamente toda a espécie humana têm: a habilidade de observar o mundo à nossa volta e transformá-lo de alguma forma.

Atitude criativa

Se é verdade que o despudor e a audácia para criar sem se importar com a opinião alheia são um motor da criatividade, também é verdade que a observação atenta e analítica da realidade é o carvão que alimenta esse motor. Se Bannocks, como designer gráfico, não tivesse observado a vida londrina nos jornais, nas conversas com amigos, professores, nas ruas e no comportamento das pessoas, sua audácia estaria incubada ainda, presa pela falta de idéias que a fizessem aflorar. E isso vale para qualquer profissional, do artista plástico ao engenheiro, do chef de cozinha ao fashionista, do escritor ao comerciante. Os cadernos (chamados sketchbooks) onde Stuart Bannocks anota e desenvolve suas idéias são, em si mesmos, arquivos das observações que ele faz à esmo e coleciona. Nas páginas caóticas dos cadernos do designer – mais de 100 volumes – há rabiscos, letras, frases, recortes de jornal, embalagens, desenhos, formas e cores. Cada uma das páginas contém o início, meio ou finalização de uma idéia que ele teve e desenvolveu da maneira mais clássica: empunhando uma caneta e forçando o cérebro a concatenar as idéias e preencher a brancura das folhas. Postura própria de um criativo.

sketchbook two

sketchbook two

sketchbook three

sketchbook three

Os despudorados de Londres – ingleses ou não – estão por toda parte. A View conversou com dois deles, especialistas no assunto, para entender, na prática, o que é essa criatividade que exala em cada esquina. Além de Stuart Bannocks, entrevistamos também o artista plástico e professor Rod Judkins, que leciona processo criativo na universidade Saint Martins, uma das melhores em design e moda da Europa. Em entrevista exclusiva à revista, Judkins deixa entrever os passos que conduzem ao aproveitamento máximo dos talentos que cada um tem.

ENTREVISTA

Rod Judkins: a diferença entre o ordinário e o memorável

artista plástico Rod Judkins

artista plástico Rod Judkins

Rod Judkins, 52 anos, é artista plástico formado pelo Royal College of Art (Inglaterra) e professor de processo criativo há mais de uma década na universidade Saint Martins (Londres), uma das mais importantes da Europa. Judkins, como artista, tem obras expostas nas principais galerias inglesas.

Como você definiria critividade?

Para mim criatividade é saber olhar a realidade sob um novo ângulo e revelar uma verdade ainda desconhecida.

E como você descreveria uma pessoa criativa?

As pessoas criativas pensam de uma maneira única e diferente. Essa habilidade tem a ver com ser uma pessoa de mente aberta, flexível e sem idéias fixas ou pré-concebidas. Embora existam pessoas cuja mente é naturalmente flexível e conceitual – o que favorece a criatividade – é possível desenvolver essa habilidade.

Quando falamos de criatividade pensamos logo em artistas. Existem vendedores, professores, contadores ou outros profissionais não-artistas criativos?

Sem dúvida. São pessoas que precisam descobrir soluções inovadoras para os desafios que enfrentam. A diferença é que os artistas estão sempre buscando meios de serem sempre mais criativos e não se contentam com o ordinário. Enquanto um professor poderia ficaria feliz com uma aula dada bem, mas de forma padrão, um artista procuraria um jeito de tornar essa aula memorável.

Como o ambiente pode influenciar alguém para ter uma mente mais ou menos aberta?

O ambiente em que você vive é muito importante para estimular a criatividade. Se você, por exemplo, trabalha num lugar onde se sinta livre para experimentar coisas novas sem medo de cometer erros, então a criatividade será beneficiada. Andy Warhol (artista plástico norte-americano) é um bom exemplo disso. A porta do seu estúdio (mundialmente conhecido como The Factory) estava sempre aberta para que as pessoas entrassem, olhassem o que ele estava fazendo e até para que ajudassem em algum trabalho se quisessem. Seus assistentes se sentiam livres para sugerir ideias e ajudá-lo de diferentes maneiras. Warhol tinha mente aberta e não se preocupava em ser original o tempo todo.

Como professor de processo criativo, quais são os aspectos dessa disciplina que seus alunos consideram mais difícil de assimilar?

É relativamente difícil para eles pararem de julgar a si mesmos e de se preocuparem com a opinião dos outros sobre suas criações. O que eu digo para eles é que precisam suspender o julgamento logo no início do trabalho e assim criarem livremente até o fim.

O processo criativo é diferente para cada diferente professional. Existe, no entanto, algo que é comum a todos os processos, independentemente se é realizado por um artista plástico ou por um vendedor, por exemplo?

Sim. O que é comum é a busca ao nosso redor por todas as soluções possíveis para desenvolver um projeto, não importando quão ridículas ou excêntricas podem parecer essas soluções no princípio.

Como artista, você têm algum método específico para fomentar a criatividade?

Eu mantenho sempre comigo um caderno onde anoto as idéias que me ocorrem; para mim criatividade é uma questão de observar e tomar nota de todos os aspectos da cultura que nos rodeia.

ENTREVISTA

Stuart Bannocks: muito além da primeira idéia

“Na minha opinião, o mais importante na criação é saber qual a melhor forma de comunicar uma idéia, e isso significa fazer as coisas como elas devem ser feitas, e não necessariamente como eu quero fazê-las. Não tem a ver com estilo, mas com a razão de ser das coisas”.

Stuart, você tem alguma metodologia para começar a criar algo?

Há algumas coisas que procuro evitar fazer. Por exemplo, não aposto na primeira idéia que me vem à cabeça. Pode ser mto boa, mas se eu aceitá-la posso bloquear outras 20 ótimas idéias que viriam depois. Também tento me manter longe do computador; como uma ferramenta de execução ele é ótimo, mas como gerador de idéias não é bom. Eu trabalho com um caderno de idéias no qual coleciono imagens, recortes, desenhos, esboços, tudo o que encontro e que pode me servir de inspiração.

Como, exatamente, você usa esse caderno?

Eu começo a rabiscar uma página, desenho formas, coisas aleatórias que podem não significar nada, mas é uma forma concreta de eu começar a fazer alguma coisa, a ter uma idéia. Sou uma pessoa muito ativa, quando estou pensando preciso fazer algo físico. Os meus cadernos servem para isso, para me ajudar a imergir num assunto, a pensar sem parar. É daí que vêm as boas idéias. Faz seis anos que produzo esses cadernos. Devo ter mais de 100.

Onde você busca referências para sua criatividade?

Eu procuro saber o que as pessoas boas na minha área estão fazendo, leio livros, revistas e blogs. Gosto de ver trabalhos muito bons e outros muito ruins. Por exemplo, pego panfletos distribuídos na rua com um design terrível e tento entender o raciocínio da pessoa para chegar naquele resultado. Eu gosto de ir a Bricklane (reduto de criativos ao leste de Londres) e olhar à minha volta, de andar nos trens e metrôs da cidade, olhar as propagandas nas estações, os jornais, as pessoas entrando e saindo dos vagões. É bom para mim ter esse tipo de contato com o externo.

Qual foi a mais estranha fonte de inspiração que você já teve?

Fechaduras de banheiro. Se você pensar, o mecanismo para fechar a porta de banheiro é um só, mas existem inúmeros designs para esse mesmo mecanismo. Não existe um padrão para essas fechaduras, mas seria possível criar. Eu gosto dessa variedade e do fato de que ninguém tenha criado a fechadura definitiva para banheiros (risos).

Você criou algo a partir dessa fonte?

Ainda não.

Talvez a fechadura definitiva?

Talvez, é possível (risos).

Primeira reportagem da série especial Mind the glasses, suplemento sobre tendências de moda e design em Londres da revista View, ed 91, setembro/2008

Fotos: André Penteado

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mauricio-00110

foto/andré penteado

Com apenas 27 anos e cabeça ultra-fértil, o designer Maurício Stein é pago para vasculhar brechós, ir a festas, visitar outros países e descobrir  o futuro da moda eyewear no mundo

 

  O designer de óculos Maurício Stein vinha de um longo dia de trabalho quando chegou, às 6.30pm, à estação de metrô Old Street, no centro de Londres. Ele havia passado a manhã e tarde daquela quarta-feira vasculhando araras e prateleiras dos brechós da cidade. Entrou em 18 atrás de chapéus, estampas, roupas e óculos. Se empolgou com alguns objetos, encheu as sacolas e terminou o dia com menos 800 libras – quase 3 mil reais gastos em “velharias”.  Mas para Stein o dinheiro não é tanto assim e as velharias, nas mãos dele, viram modelos exclusivos de óculos que se multiplicam e vão parar nos rostos de milhares de consumidores na Europa e no mundo, entre eles, no da top model inglesa Kate Moss.

Com apenas 27 anos de idade, o gaúcho Maurício Stein trabalha como trend hunter (termo em inglês que significa “caçador de tendência”) no setor de óculos das lojas de roupas e acessórios Topshop – dona da marca Kate Moss – e Topman, duas das mais importantes de Londres e ambas pertencentes à rede de lojas da gigante britânica Arcadia Group. Stein estudou design industrial em Porto Alegre, trabalhou como designer de jóias e móveis no Brasil e chegou em Londres há três anos para fazer mestrado e se especializar em design de móveis.

Mas o dinamismo da capital inglesa o levou por onde quis. O gaúcho trabalhou como garçom, vitrinista e assistente de vendas, o mestrado nunca aconteceu e um ano depois de sua chegada em Londres, trabalhar como  designer de óculos, que não estava nos planos, surgiu como profissão e loteou seu talento. “Estudei desenho industrial, mas também gostava de moda. Procurei emprego nessa área e comecei a trabalhar como designer de acessórios na Anglo Accessories, empresa ligada ao Arcadia Group e que é contratada para produzir os óculos que abastecem as linhas da rede. Depois de um tempo fui designado para produzir com exclusividade os óculos da Topshop e Topman”, diz.

Como um dos principais responsáveis pela criação dos óculos que vendem dezenas de milhares de unidades e que ditam a tendência eyewear no Reino Unido e em mais de 20 países onde a Topshop e Topman existem, Maurício Stein é o homem do futuro, aquele que deve enxergar a tendência com pelo menos dois anos de antecipação.

Para essa tarefa, o designer conta com uma agenda de tarefas no mínimo lúdicas – entre elas, a visita semanal a brechós – e com um orçamento generoso da Arcadia Group (ele não revela quanto) para investir em pesquisa.

A participação em festivais de música na Inglaterra e outros países – cerca de 20 ao ano – é outra tarefa de Stein. Em cada um desses festivais ele vai com a missão de observar pessoas às quais chama de trend setters, ou seja, aquelas que ditam tendências – em geral artistas, músicos e gente ligada à moda. “São pessoas que não usam uma roupa porque viram alguém usando na revista, mas porque acharam uma blusa perdida em casa, pegaram os sapatos da avó, os óculos do irmão, misturaram tudo e fizeram a própria moda. Os elementos da tendência já estão nos sapatos delas, nos óculos e roupas. Outras pessoas vão começar a imitá-las e, em um ano, um ano e meio, aquilo que parecia esquisito vai explodir e virar moda”, explica.

 O designer ainda vai a festas como parte do seu trabalho. Até dezembro de 2007 a BoomBox, realizada periodicamente no bairro de Old Street, era uma das principais, reunindo numa mesma pista de dança centenas de trend setters. Com o fim da BoomBox no ano passado, surgiu o karaokê Sing Along  Electricity, também em Old Street e igualmente um mar de referências à espera do anzol de Stein.

 

Tenedências além-mar

Para marcas globais como Topshop e Topman, presentes em regiões singulares como Kwait e Indonésia, a pesquisa de tendência apenas em Londres não é suficiente para oferecer um panorama fiel da moda futura. Então, o trend hunter atravessa os oceanos para caçar referências. A cada ano ele viaja ao menos uma vez para o Japão, Espanha, França, Itália e China. Em cada país visita fábricas, lojas, clubs, restaurantes, vai a shows e festivais e, claro, observa as pessoas e tira foto de tudo como uma espécie de olheiro implacável. Ele não perdoa nem a caixinha com design interessante que veio embalando sua comida.

As idéias, segundo Stein, vêem de qualquer lugar: filmes, músicas, história em quadrinhos e até das listras de uma abelha que por acaso cruze seu caminho. Numa viagem que fez ao Brasil, por exemplo, ele visitou a feira de usados típica de Porto Alegre chamada Brique da Redenção. Lá no fim da feira encontrou uma barraca apinhada de óculos. “O dono da barraca passava nos asilos recolhendo os óculos dos velhinhos e vendia tudo a um, dois reais. Tinha coisas interessantíssimas das décadas de 60 e 70. Enchi uma sacola e trouxe para Londres. Com base neles criei óculos para a Topman. De uma linha com 30 óculos, três eu criei usando o que encontrei na feira. Que europeu vai imaginar que está usando os óculos inspirados nos velhinhos de Porto Alegre?”, diverte-se.

Na Anglo Accessories há uma espécie de arquivo com todas as fotos e objetos de referência colhidos por Stein e seus colegas. “Isso oxigena o setor de criação”, conta. A construção desse armazém de idéias, no entanto, é só metade do trabalho do trend hunter. Há ainda o momento crucial de juntar os elementos dispersos e transformá-los num quadro coeso que redundará numa tendência e, em seguida, em dezenas de modelos de óculos. Segundo o designer, é o momento de “viajar”.

 

Profissão abstrata

Durante a entrevista, Stein se surpreendeu com a natureza do próprio trabalho. “Criar óculos parece abstrato, não é mesmo?!”. Sim. Mas mesmo a abstração tem lá sua lógica. “A gente pensa nas referências que pesquisou, imagina um grupo de pessoas para elas, depois pensa os óculos com base nesse grupo e nas informações de mercado que a empresa nos dá; em seguida, criamos os modelos e os apresentamos para os compradores da empresa, que são os responsáveis por dizer quais óculos vão para as lojas e quais não vão”, descreve Stein.

A reunião com os compradores é fundamental, diz o trend hunter. “Eles entendem de design, mas entendem mais de mercado, do que vende ou não, e isso é bom, senão nossos óculos não iam vender porque só íamos colocar coisas loucas nas lojas” (risos).

Mas em Londres até as loucuras vendem. Stein pensou nuns óculos cujo fio que passa por dentro da armação e dá cor à sua estrutura era o mesmo fio que servia para pendurar os óculos no pescoço do usuário. “Vendemos muito desse modelo!”. Com uma colega designer, ele criou um par de óculos com lentes em forma de coração. “A Kelly Osbourne (atriz e filha do músico Ozzy Osbourne) apareceu no jornal usando esses óculos. Foi louco ver aquilo”, comemora, orgulhoso das próprias “viagens”.

 

 

 Fenômenos e tendências

Caçar tendências tem ficado complexo nos últimos cinco anos. Stein diz que o fenômeno da globalização homogeneizou a moda. Quando foi ao Japão em 2007 para oxigenar as idéias, encontrou a juventude nipônica copiando a inglesa. “O mundo está híbrido”, reclamou. Por isso, na opinião dele, os países mais propensos a ditar novas tendências são aqueles de cultura mais “isolada”, como Islândia e Dinamarca.

Outra consequência da globalização na moda é a releitura de passados cada vez mais recentes. “Nos anos 90 existiu o revival dos anos 70, nos anos 2000 o revival dos anos 90, e nessa era de informação rápida, coisas que eram legais há cinco anos já estão sendo resgatadas de novo. É como o cachorro correndo atrás do próprio rabo; uma hora ele vai morder o rabo e, quando esse choque acontecer, vai ter que surgir algo totalmente novo”.

E esse novo, diz o designer, pode estar num passado de 100 e até de 600 anos. “Estamos pesquisando agora os óculos do início do século XX, feitos de um tipo de plástico chamado baquelite; eram modelos redondos, pequenos. Os óculos estão ficando menores, minimalistas. Também estamos buscando tendência na época Medieval. São períodos únicos que podem inspirar a fazer coisas novas”, diz Stein, deixando entrever o que existe em sua cabeça de trend hunter que vive bem longe, lá no futuro.

 

 

BOX

OVELHA NEGRA LUCRATIVA

Com 200 óculos na bagagem, o designer Maurício Stein desembarcou no Brasil em março de 2007 com uma missão: vender a brechós de Porto Alegre os óculos que produziu para as lojas Topshop e Topman e que foram rejeitados por elas. “Rejeitaram porque muitos eram vanguarda demais. Mas isso é normal. De mil óculos que a gente cria por ano, apenas 20% vão para as lojas”, revela. Em cada brechó, Stein explicou a história dos óculos aos compradores. “Disse que a maioria havia sido feita para a coleção da Kate Moss e que ela mesma aceitou os óculos, mas a empresa não. Alguns toparam comprar na hora, outros rejeitaram, dizendo que pareciam óculos de camelô porque não tinham marca (risos). O Brasil ainda é muito ligado a marca, e os meus óculos, que batizei de Rejected Samples (Exemplares Rejeitados), são a não-marca por excelência. Eu gosto disso”.

Dos 200 modelos “non-gratos”, 150 foram vendidos. Os outros 50 já estavam prometidos de antemão aos amigos e familiares de Stein, que os aceitaram felizes, sem qualquer objeção.

 

Reportagem publicada na revista View, ed 88, maio/2008

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