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Archive for the ‘Reportagem’ Category

um véu e duas rodas

Alema, Anisah e Bushra

Em alguns países, o islamismo impede que mulheres andem de bicicleta. Por isso, Alema, Anisah e Bushra, londrinas filhas de muçulmanos, cresceram sem saber pedalar. Hoje, mesmo sob os olhares reprovadores, circulam orgulhosas em suas magrelas. Alema Akthar é uma das centenas de filhos de bengaleses nascidos na capital inglesa. Muçulmana praticante, ela tem 19 anos e, em meio às modernidades com as quais convive em Londres, toca um curso no mínimo curioso – para não dizer revolucionário. Depois de anos com uma inquietação no peito e nas pernas, resolveu não só aprender a andar de bicicleta, tarefa proibida para quem segue os preceitos islâmicos, mas também ensinar outras garotas como ela a pedalar.

Fez questão de me encontrar para falar sobre suas aulas antes que eu entrevistasse qualquer de suas alunas. Começou dizendo que seu curso existe há quatro anos em Londres e já ajudou mais de 300 muçulmanas entre 18 e 65 anos – a maioria imigrante de Bangladesh, Índia, Irã e Paquistão – a pilotar uma bicicleta. Por causa das crenças patriarcais da cultura daqueles países, muitas mulheres asiáticas (e mesmo as inglesas que nascem em famílias de imigrantes) estão imersas numa realidade de repressões e imposições.

Na Índia, por exemplo, meninas são forçadas a casar ainda crianças, são alijadas da escola, do convívio social e, porque não podem trabalhar, dependem financeiramente do marido e dos filhos homens. No Irã, mulheres que protestam em público por seus direitos, mesmo que pacificamente, não raro são agredidas pela polícia, presas e julgadas pelos crimes de violação à segurança nacional e à propaganda contra o governo. Em Bangladesh, uma mulher que recusa o flerte de um pretendente corre o risco de ter o rosto desfigurado pelo ácido que o próprio lhe atira como vingança; em outras ocasiões, pode ser vítima, mesmo na Inglaterra, do chamado “assassinato de honra”: ao negar um casamento arranjado ou se apaixonar por um homem que não tenha sido aprovado pela família, é morta pelo próprio pai ou outro parente do sexo masculino.

EMANCIPAÇÃO
Uma faceta, digamos, mais “prosaica” da cultura patriarcal de alguns países asiáticos está relacionada ao exercício físico. As mulheres são “desaconselhadas” a andar de bicicleta e praticar outros esportes quando atingem a adolescência, e isso é regra até o fim da vida. Porque esporte não é coisa para mulheres. Simples assim. A própria Alema só aprendeu a pedalar aos 16 anos. Nunca foi proibida pelos pais, mas jamais viu as mulheres de sua família pilotando uma bicicleta. Há apenas três anos ela ousou pôr as rodas nas ruas e conseguiu ir até mais longe que suas iguais: submeteu-se a treinos específicos de ciclismo e tornou-se uma instrutora qualificada. “Se eu posso fazer isso, imagino que outras meninas possam também”, diz, fiando-se no bom senso de pais como os dela, que, após absorverem a cultura inglesa, não se opuseram à “emancipação” da filha.

Jagonari, que significa “mulheres, despertem”, é o nome do centro cultural onde Alema trabalha e que oferece, além do curso de ciclismo, capacitação e alfabetização para mulheres da comunidade asiática concentrada em Whitechapel, bairro londrino povoado por imigrantes praticantes do islamismo. “Elas
precisam ficar em casa cuidando dos filhos enquanto os maridos trabalham e quase não têm vida social. O Jagonari é um lugar bilíngue, onde elas aprendem inglês, exercitam-se e interagem com outras mulheres”, explica Alema. Financiados com verbas do governo inglês, esses cursos são gratuitos para as alunas da comunidade. O de ciclismo ainda oferece empréstimo de bicicleta, mesmo após o fim do curso.

CORES DISTINTAS
Alema, em nossa segunda entrevista, desta vez realizada num parque, usava um véu cinza que ocultava quase toda a testa, metade das bochechas, pescoço e até os cantos dos olhos. Sob uma jaqueta parda, ela vestia um jilbab, a túnica negra que cobre as muçulmanas até os pés. Anisah e Bushra usavam seus véus – mas não jilbabs – nos mesmos moldes que Alema, porém, ousavam nas cores: o véu de Anisah era violeta vivo, o de Bushra, azul-celeste. Enquanto papeávamos, uma dona de casa bengalesa de 38 anos aproximou-se, atraída pelas meninas de véu, suas iguais, montadas em reluzentes bicicletas de alumínio. Alema perguntou-lhe se queria pilotar. A mulher riu e disse que não. Desconversou, mas admitiu que, provavelmente, o marido não aprovaria. “Você viu? Ela estava interessada, mas ainda não tem coragem. Isso é porque está em Londres há menos de seis meses. As mulheres imigrantes, depois de uns dez anos aqui, tornam-se muito mais livres”, disse Alema.

Uma década parece muito para que uma mulher, ali pelos seus 40 anos, conquiste autonomia para aprender a usar uma bicicleta. Alema, Anisah e Bushra, por serem inglesas, “emanciparam-se” antes. Talvez por terem nascido num ambiente tão díspar daquele de onde seus pais vieram, as jovens ciclistas não têm ideia da importância de suas pedaladas. As meninas do Jagonari desfazem preconceitos, redefinem comportamentos, transformam o mapa social de onde vivem e reconquistam liberdades básicas para suas iguais mais velhas. Quando vestem seus véus e jilbabs e montam em suas bicicletas, estão incitando nada menos que uma histórica revolução sobre rodas.

ENQUANTO ISSO, NO BRASIL.
Se o sheikh Mohamad Al Bukai fosse casado, não veria problemas em sua esposa andar de bicicleta. Nascido na Síria, há dois anos ele vive em São Paulo e é líder espiritual da mesquita do Pa­ri, uma das maiores do Brasil. Para ele, as res­trições impostas às muçulmanas em alguns países não são totalmente
fundamentadas na religião. “Trata-se de política, uma decisão de governos extremistas confundida com ensinamento religioso pelos leigos. Imagine se existia bicicleta quando escreveram o Alcorão”, exalta. A interpretação do livro sagrado muçulmano explica por que mulheres de uma mesma crença têm liberdades tão distintas em diferentes partes do mundo. Alia Fayd, 17 anos, aprendeu a andar de bicicleta com os pais, libaneses que migraram para o Brasil. A tia de Alia, Nazek AlAttar, 47, se lembra de uma infância de pedaladas na Síria. Elas são exemplos da comunidade muçulmana brasileira, que tem cerca de 30 mil pessoas*. “E, em sua maioria, é formada por turcos, sírios e libaneses, vindos de países bem menos radicais”, completa o sheikh. Não é o que acontece no Reino Unido, onde a maioria dos mais de 1,6 milhão de adeptos**, que fazem do islamismo a segunda maior religião de lá, é imigrante de locais considerados mais extremistas, como Paquistão (320.767 imi­grantes), Bangladesh (154.200), Irã (42.377), Iraque (32.251) e Afeganis­tão (14.890)***. [por Paula Rothman]

*Último Censo do IBGE, de 2000, apontava 27.239 muçulmanos. **2001 Census England and Wales. ***Institue for Public Policy Research, do Reino Unido.

Reportagem publicada na ed 86 (abril/09) da revista TPM

Foto: Marina Chevrand

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Emicida

Numa lanchonete da rua Marconi, no miolo do centro de São Paulo, Leandro Roque de Oliveira, de 23 anos, pediu uma vitamina mista. Quando o garçom colocou a bebida na mesa, uma surpresa: o líquido preenchendo o copo era cor-de-rosa-chiclete-de-morango-vivo, e não aquele laranja lívido do mamão que dá cor às tradicionais vitaminas mistas. E aí, vai beber assim mesmo?, perguntei. Claro!, respondeu Leandro, sem reticências. Com ele não tem tempo (nem vitamina) ruim. Aprendeu a ser assim no fim da década de 80, quando, aos quatro, cinco anos, sentia umas pontadas de fome e, a fim de acalmá-las, frequentava cultos cristãos no bairro pra descolar algo de comer depois da pregação do pastor. A comida era pouca em casa para ele, a mãe (desempregada à época), o pai e os três irmãos. “Pra qualquer santo que desse comida eu tava rezando”. Rezando e cantando: foi pra Jesus que Leandro fez suas primeiras rimas. Ele via como cantavam os fiéis na igreja e reproduzia os louvores em casa, mas com letras suas. Senhooooor Jesuuuus, entoava sozinho, com a voz fininha, de rato, como ele mesmo descreve.

Leandro aprendeu a ignorar o tempo ruim quando tomava uns sapecos da mãe ao tentar se imiscuir entre os adultos nos bailes black que ela e o pai ajudavam a organizar na rua onde moravam, no bairro Vila Zilda, zona norte de São Paulo. James Brown,  Marvin Gaye e The Manhattans esquentando o povo lá fora e Leandro, ainda criança, cobiçando a música do lado de dentro da casa. Não se deixava vencer, no entanto, e buscava refúgio onde houvesse: se não tinha Gaye nem Brown, ele ouvia Xuxa (!) na vitrola. Quando Xuxa exauriu seu gosto e paciência, ele apelou para si mesmo, para as rimas que continuou criando com a intenção de suprir sua necessidade por música – eram poucos os discos em casa e grande a vontade de encaixar rimas nos sons que ouvia. Fechado, meio bicho do mato, Leandro nunca quis mostrar a ninguém as letras de rap, histórias em quadrinhos e os zines que criava. Tinha vergonha. Quando cedeu, aos 15 anos, e mostrou um rap seu para um amigo, não se arrependeu. “Ele ficou maluco”,lembra.

Arrastado pro palco

Em 2001, participou como ouvinte de um worskshop sobre rap “para não iniciados” que aconteceu no Itaú Cultural, em São Paulo. Leandro foi “arrastado” para o palco por um maluco que se sentou ao lado dele e insistiu, durante toda a palestra, que eles deveriam pegar o microfone e improvisar um rap ali mesmo, de surpresa. No intervalo do workshop, o desejo foi cumprido. O homem puxou Leandro pelo braço e subiu com ele ao palco. O anônimo cantou primeiro, de improviso, e passou o microfone a Leandro. Na vez deste, porém, as palavras duraram uma única frase, e o menino que fluía nos louvores a Jesus, de repente, travou. Foi horrível, ele disse. Voltou pra casa não querendo comparecer no segundo dia de palestra. Mas compareceu – em casa, escreveu e decorou um rap com a intenção de apresentá-lo no dia seguinte como um autêntico improviso. Subiu ao palco de novo, pegou o microfone e. esqueceu toda a letra. Tempo ruim? Que nada. Leandro improvisou (sem truques) e foi aplaudido.

Leandro Roque de Oliveira é, hoje, E.m.i.c.i.d.a, rapper e MC da nova geração cada vez mais expoente graças à trinca talento, visibilidade via internet (Myspace) e fidelidade do público que se encarrega da propaganda boca-a-boca. Além de ser uma sigla (Enquanto Minha Mente Compor Insanidades Domino a Arte), Emicida (quase homicida) é também uma provocação: assassino de MCs. O músico deu-se a alcunha ao enfrentar e vencer muitas batalhas contra MCs. Nessas batalhas (ou rinhas, como são chamadas), organizadas em campeonatos oficiais ou eventos de rua, vence quem mais humilhar o adversário com rimas improvisadas (ou freestyle). “Eu já aposentei vários caras”, ele garante. Alguns MCs saem tão humilhados da disputa que não ousam competir nunca mais. O Youtube traz dezenas de vídeos dessas rinhas. Muitos deles mostram Emicida desintegrando o oponente com suas rimas ácidas, debochadas e precisas. Magrelo e de olhos inofensivos, o rapper da zona norte vira um totem de ironia e calma quando ouve os impropérios dos adversários. Emicida sabe que a tranquilidade é a virtude que o ajuda a encontrar as palavras que mais ferem o oponente e que, além disso, livram-no de morrer pela boca dizendo o que não deve – uma rima mal colocada, uma ofensa boba ou uma réplica sem coerência.

Dois reais na minha mão

Agora mesmo Emicida está sem tempo pra duelar, compor raps ou se dedicar aos shows pelo país – cerca de 10 por mês em tempos de maré boa. O rapper e MC empreende uma outra correria: vender 1000 cópias por semana de sua primeira mixtape, lançada em maio desse ano. Pra quem já mordeu cachorro por comida, até que eu cheguei longe é o título do CD com 25 faixas que ele gravou durante três meses em parceria com amigos e que financiou com grana do próprio bolso e pelo próprio selo, Laboratório Fantasma. O título da mixtape surgiu de uma história real do rapper. Num episódio tragicômico, Emicida mordeu Afrodite, a cadelinha da família, quando ela lhe roubou o único pedaço de pão que ele tinha pra comer em casa. E o tempo ruim, de novo, pôde menos contra ele: o MC fez do episódio título de projeto independente que está vendendo a rodo.

Desde que começou a comercializar a mixtape, no início de maio, o músico tem atingido a audaz meta de um milhar por semana vendido a preço popular – dois reais a cópia em camelôs e dez reais em lojas do centro de São Paulo – a produção de cada cópia sai por cerca de um real. Em todos os pontos de distribuição é ele mesmo quem negocia a revenda com lojistas e donos de barracas. Pra chegar mais longe, Emicida faz freestyle na rua e até nos trens da cidade, apresenta o produto aos que o assistem e vende, à la ambulante, os CDs – nos trens, porém, o trabalho é mais difícil por causa da fiscalização. Na mão do músico a cópia também sai por dois reais. Os pedidos chegam ainda via e-mail, alguns de fora de São Paulo e outros até do exterior, como Japão e Irlanda.

O processo de produção das mixtapes é totalmente artesanal. O próprio MC, com a ajuda da namorada, do irmão e de amigos, é quem grava e numera os CDs em casa, imprime os encartes com as músicas e carimba o logotipo nas embalagens (feitas em papel pardo rústico). À custa de burlar a lógica burocrática e custosa da indústria musical, Emicida projeta-se cada vez mais no mercado e faz o que poucos artistas independentes conseguem: viver só de música.

No dia em que combinamos essa entrevista, Emicida chegou ao centro de São Paulo acompanhado por dois jovens. Amigos, pensei. Mas eram fãs que o reconheceram na rua e colaram nele pra pedir autógrafo. “Pô, Emicida, tem a moral de me dar um autógrafo aí, na humilde, cara?”, pediu Isaías, o fã, trêmulo de tão nervoso. “Pô, moleque, deixa disso”, suavizou o MC, com humor – mas gostando da honraria, claro. Caderno assinado e foto tirada ao lado do tiete, Emicida se despediu dos rapazes com aperto de mão e um sorrisinho de contentamento, como se uma certeza reverberasse nele secretamente: pra quem já mordeu cachorro por comida, até que eu cheguei longe.

 

ENTREVISTA

Acha que teus pais são responsáveis pelo teu dom pra música?
Meu pai era DJ no bairro. Mas eu tive pouco contato com ele. Meu pai morreu quando eu tinha seis anos. Eu sei mais que ele era DJ porque as pessoas me contam. Nem os discos dele eu vi, ele deu pra uns amigos, foi um vacilo. Minha mãe me ligou esses dias e disse que eu era a continuação dessa parada. Acho que o pai da minha mãe também fazia alguma coisa com música. Acho que tem alguma coisa meio ancestral, tipo alguém vai ter que fazer música nessa família. Os dois outros não conseguiram, mas eu tô tentando (risos).

E o lance da rima freestyle, de onde vem?
Eu comecei improvisando. Acredito que o improviso nasce de uma necessidade. Você precisa fazer alguma coisa e não tem os meios pra isso, então acaba descobrindo sua própria maneira de fazer. Eu já gostava de música e escutava muito por causa do ambiente. Comecei a cantar porque não tinha CD, não tinha disco. Tinha um disco ou outro, tipo um da Xuxa. Depois que tinha decorado tudo da Xuxa queria outras coisas. Nessa época tinha bastante culto (evangélico) perto da minha casa, teve até na minha casa. Então comecei a inventar meus próprios hinos de igreja. Eu era pequeno, tinha uns cinco ou seis anos.

Chegava a mostrar os hinos pra alguém?
Mostrava nada! Morria de vergonha. Lembro que tinha um gravador na minha casa. Aí eu aprendi a mexer e gravar minhas músicas. Eu já era mais velho aí, uns oito anos. Não escrevia as letras, fazia tudo de improviso.

Você tem algumas dessas gravações?

Tenho algumas, uns clássicos, eu cantando meus primeiros raps e tocando as bases num teclado. Minha mãe me deu um teclado uma vez. eu nem sei tocar, até hoje, mas tocava (risos).

Essa gravação então é histórica, você criança, com a voz bem fina, né?
Nossa! Voz de rato! Era o auge da voz de rato (risos) iiiiii, iiiiiiiii, iiiiiiii (faz uns ganidos). Você ouve a parada e diz: meu, isso é dublagem. É engraçado ouvir isso hoje, fico com a cara formigando. É legal escutar sozinho.

(o celular toca, Emicida atende)

Era um cara pedindo mixtape. Eu tô tipo os camelôs do centro (risos). Deixo nas lojas, na galeria (do Rock, no centro de Sp), nos camelôs mesmo.

Os caras te pagam na hora?
Claro! Na hora! Eu quero ganhar dinheiro (risos). Os caras tão ganhando dinheiro pra caralho, não fizeram nada na produção do CD e tão ganhando o maior dinheiro em cima. É bom porque agora tenho lugares fixos pra deixar o CD. Acaba muito rápido, os caras vendem uns 100, 200 por semana. De resto é a gente mandando pra fora de São Paulo. Recebi uma encomenda agora do Japão, me mandaram um email pedindo 40 CDs.

Quem é esse cara do Japão, é de alguma loja?
Não sei, nem conheço.

Como ele chegou até você?
Ah, mano, tenho fã pra caralho no Japão. e no mundo também (risos). Tenho vários contatos de gente que quer distribuir em Portugal, na França. só preciso me organizar.

Você tem alguém te ajudando a administrar isso?
Não, eu tô tocando essa parte. Na verdade eu gosto de ver todas as etapas da coisa. Meu irmão tá me ajudando um pouco nisso, mas eu é que to tocando mesmo. É bom isso porque quanto mais as coisas vão crescendo, menor a chance de alguém me passar pra trás, porque aí vou conhecer todos os processos e saber como tudo funciona.

O que você fazia antes de começar a se dedicar à tua música?

Fiz de tudo. Já fui pedreiro, pintor, vendi hot-dog, fazia cestas artesanais, trabalhei na feira, fiz ilustrações. Ainda sou ilustrador – no ano passado ilustrei um livro infantil. Ainda faço uns trampos de ilustra de vez em quando. Já fiz estágio numa produtora musical. Mas hoje só faço música, graças ao bom Jesus.

Privilégio viver de música, não?
Putz, vivo com minha mina num apartamento e tô tranquilo. As pessoas não se dão tanto pras coisas que elas acreditam, e por isso as coisas em que elas acreditam acabam não se dando tanto pra elas também. Ninguém pula de cabeça na parada. Eu sou maluco. Como não tenho outra opção, tenho que fazer essa parada de música dar certo.

Você achava que poderia viver de música?
Eu nunca achei que desse pra viver de música. Eu sempre escrevi pra mim, tá ligada? Demorei muito tempo pra mostrar uma rima pra alguém, morria de vergonha. Fazia história em quadrinhos, fanzine, mas tudo era pra mim. Tinha um camarada meu, o Dijose, que foi o primeiro cara pra quem eu mostrei uma rima, aí ele ficou maluco. Eu tinha uns 15 anos.

Como foi esse estágio na produtora sobre o qual você falou?
O Carlos Magalhães, um amigo meu, me ligou uma vez e disse que tinha um trampo de dublagem pra desenho animado no estúdio onde ele trabalhava. Eu tinha uns 17, 18 anos. Eles precisavam de um cara que fizesse rimas. Eu nem sabia que existia isso de pôr voz em desenho animado. Nem dormi, fiquei empolgadão. Os caras me colocaram na cabine, fiquei horas gravando, fazendo freestyle. Eu era fechadão, tinha dificuldade pra me comunicar com as pessoas. Eu chegava no estúdio, não trocava ideia com ninguém e ficava assim ó (Emicida cruza os braços e faz cara de mau). Até porque eu era do rap, né? E a referência de rap que eu tinha era dos caras nas fotos com essa cara (faz cara de mau de novo). Tinha um cara lá, o Filipe Tixaman, que era um cara mais da rua, que falava gíria, aí ele começou a trocar ideia comigo e pensei: esse cara é um dos meus(risos). Ele que traduzia o que os caras falavam pra mim no estúdio e o que eu falava pros caras. Os caras depois me chamaram pra fazer um outro trampo parecido e depois me convidaram pra fazer um estágio lá.

Foi lá que você aprendeu mais de música?
Pô, foi. Eu não tinha idéia que as pessoas compunham uma canção, gravavam, mixavam, masterizavam, lançavam. pra mim era mágico, tipo, você fez uma música boa e puf, aparece o CD. Depois que eu vi etapa por etapa. Foram esses caras que me ensinaram.

Como é tua rotina de produção de rap? Você escreve muito?
Escrevo todo dia, umas duas músicas por dia. Isso ajuda pra caramba no freestyle, porque tenho muitas opções de rima na minha cabeça. Escrevo do que eu vivo, as situações que eu vejo, sobre meus amigos.

Como é a cena de freestyle aqui no Brasil?
Tem muita gente que faz meia boca e pouca gente que faz bem, que respeita o freestyle e que estuda. No Rio de Janeiro o ponto forte é a batalha, e na batalha o MC evolui pra caralho. Aqui em São Paulo rolou uma febre de freestyle mas já acabou. Aqui a gente tem uma cultura de sessão de improviso, e não rimo eu contra você, rimo eu com você, entende? Fazemos uma parada juntos. No Rio é batalha mesmo. Por isso os MCs lá são mais propensos a serem melhores em batalhas.

Dá pra estudar improvisação?
É muito louco. Por ser uma parada totalmente auto-didata, cada um tem seu próprio método. Tem uns caras que moram na biblioteca, ficam lendo pra caralho e aquilo entra na cabeça dos caras. Se eu ler vários livros travo minha cabeça. Eu gosto de ler quando tô a fim. Agora eu tô lendo um livro do Louis Armstrong porque eu gosto. Isso, um dia, talvez, venha a acrescentar numa rima. Mas em geral eu vejo filme pra caramba, leio notícias. Agora eu já tenho consciência de como eu rimo. Então eu só busco informações novas pra preencher isso com outro conteúdo. Mas na antiga eu ficava na biblioteca. Teve uma época que eu inventei que ia ler o dicionário.puta que o pariu! Eu nem passei daquela primeira página do (dicionário) Aurélio chamada Convém Ler. (risos). Não rola, não dá pra ler um dicionário! Uma vez me falaram que o (MC) Marechal, lá do Rio de Janeiro, que é foda, um monstro mesmo, não escrevia nada, que ele só improvisava. Aí eu ouvi um rap dele e pensei: caralho, ele faz tudo sair de improviso! Aí falei pô, preciso ser foda que nem esse cara. Então comecei a me internar mesmo, estudar, pra ficar bom. Mas depois eu descobri que ele escrevia as letras mesmo. (risos). Uma vez também um amigo me deu um dicionário de rimas.

Te ajudou?
Não (risos). Foi tão inútil quanto ler o Aurélio. Na hora que ele me deu a parada pensei: caralho, vou escrever vários raps! Cheguei em casa, abri o livro, escrevi umas 15 paradas que não entendia, com umas palavras difíceis. tá lá até hoje o livro, empoeirando.

Quando você faz freestyle, você condiciona tanto seu cérebro pra buscar essas palavras que ele fica dividido em dois e você pensa muito rápido, você tá vivenciando uma situação mas pensando em outra

Você consegue explicar o que se passa na tua cabeça quando você está improvisando?
É muito louco isso, as pessoas não entendem. Passam mil coisas na minha cabeça quando estou rimando, fico olhando em volta, pra mim é tão normal como falar. Por exemplo, a gente tá conversando aqui, mas tô vendo que o garçom tá ali lavando louça, tem uma mulher ali do outro lado conversando com um bebê no colo. Quando eu rimo, eu procuro descrever o que eu vejo.

Mas tem as rimas pra dificultar, não?

Aí é que tá o lance. Quando você faz freestyle, você condiciona tanto seu cérebro pra buscar essas palavras que ele fica dividido em dois e você pensa muito rápido, você tá vivenciando uma situação mas pensando em outra. Eu posso estar numa situação que eu não gosto e ficar tranquilo, porque na minha cabeça eu tô em outro lugar.

Eu vi alguns vídeos na internet de batalhas das quais você participou. Teve até uma que você encostou no MC enquanto detonava ele na rima e ele ficou puto, mandou você não encostar nele. Quando o cara está te detonando, o que você pensa? Você chega a ficar nervoso?
O lance do freestyle é você mostrar pras pessoas que o cara que tá na tua frente é ridículo (risos). Essa é a meta. Você tem que ficar tranquilo pra pensar direito. Se o cara conseguir falar uma parada que entra na tua mente, aí fudeu, porque você vai ficar pensando o tempo todo naquela frase e vai se confundir. Tem que deixar ele falar e, talvez, rebater algumas coisas específicas que ele fala. Pode ser que de alguma coisa que ele fale vai surgir a derrota dele. Na batalha de freestyle o que leva os caras à derrota ou à vitória é o que eles dizem.

Rola briga nas batalhas?
Rola um desentendimento ou outro, mas nunca passa de uma discussão. As pessoas olham o rap de fora e acham que é tenso, mas não é, é muito tranquilo.

Vocês são amigos nos bastidores?
(risos) Olha, rola um olhar meio assim (faz um olhar meio superior, enviesado). De todos os caras de São Paulo com quem eu batalhei, eu me relaciono com vários. Do Rio de Janeiro, eu troco uma ideia com o Beleza, com a Negra Rê; com os outros a gente se cumprimenta só, não rola uma amizade. Tem uns caras que ficam putos porque eu ganhei deles no Rio, e eu sou de São Paulo.

É a rixa histórica, né?
É, isso sempre teve e vai ter pra sempre, mas eu quero que se foda, não fui eu que dividi os Estados. (risos).

Eu vi tua batalha contra a Negra Rê. Você detonou a menina.
(gargalhadas) Essa é clássica!!

Como é a batalha com mulher? Você costuma pegar mais leve ou isso não tem nada a ver?

Cara, o grande lance é ser uma batalha de MCs. Se você for pesar na da mina porque ela é uma mina, ela vai responder o quê? Que eu sou um cara? É ridículo. Isso tem que ser levado pro nível de MC. O que está em jogo não é o sexo das pessoas, mas as rimas delas, as atitudes. Pra mim a mina que batalha não é uma mina, é um MC como outro qualquer. Tem uns caras que mandam a mina ir lavar louça, dizem que o lugar dela é na cozinha. só que isso é tão velho, pô, enche o saco até.

De onde veio EMICIDA (Enquanto Minha Imaginação Compor Insanidades Domino a Arte)?
Vem de assassino de MCs porque sempre fui fissurado em batalhas. Quando escrevi o nome achei do caralho, mas aí fiquei pensando na sigla e achei mais legal, mas aí não dá pras pessoas dizerem “ei enquanto minha imaginação compor insanidades domino a arte, chega aí!” (risos). Então ficou Emicida mesmo, assassino de MC. já aposentei vários caras. (risos)

O cara desiste de competir, fica mal mesmo?

Alguns ficam. Algumas batalhas são tão humilhantes pro cara que o mundo cai e ele não batalha mais. Eu já perdi batalhas, mas nunca foi algo de cair o mundo pra mim, foi de boa porque sei o que eu sou, mas tem uns caras que não têm a mesma certeza e acabam desistindo.

Qual foi a batalha mais difícil que você já teve?
Procurar emprego (gargalhadas).

Boa. mas essa foi bem vencida, você até virou o patrão.
Agora eu sou o dono! Se quiser uma mixtape fala comigo (risos).

(o celular toca, Emicida olha de quem é a chamada, mas não atende)

Putz, é aquele mesmo mano. Ele quer uma camiseta igual essa minha aqui (na camiseta está escrito Na Humilde). Eu falei que acabou a parada e ele tá há uma semana ligando todo dia. Vou começar a fazer que nem aquelas minas que passam telefone errado pros caras. (risos)

Falando agora da mixtape, quais são suas expectativas pra ela?
Uma das coisas que quero é estudar como funciona toda essa parada de distribuição. Quero mandar pra vários lugares, administrar isso. Outra coisa é dar um levante na cena porque a parada tá bem devagar mesmo. Tem pouquíssimos lançamentos rolando. Quero criar uma expectativa em cima do meu nome e vir com um disco em seguida. A mixtape tem músicas de 7 anos atrás, coisas que eu fiz e ficaram paradas em casa.

Você tem ideia de quanto tempo vai ficar testando o mercado até lançar o primeiro álbum?
Não sei quanto tempo isso vai levar. Isso é um problema também, porque por eu ser dono das minhas coisas tenho todo o tempo do mundo pra fazer isso. Posso ficar vendendo mixtape por uns 15 anos. Meu foco vai ser distribuir essas cópias. Acho que em três meses vamos ter vendido umas 10 mil cópias.

Você está bancando toda a produção e distribuição da mixtape com a sua grana?
Eu tô fudido, meu aluguel tá atrasado dois meses! (risos) Mas a grana tá vindo. Com essa produção artesanal eu consegui baratear pra caramba os custos, dá pra distribuir a preço justo, é quase dado. Dois reais é nada pra quem compra. A gente levou três meses pra gravar. Só transporte e comida pra mim, só pra mim (enfático), nesse período, foram uns dois mil reais do meu bolso. Os caras que participaram da produção, os músicos, os caras do estúdio fizeram tudo na camaradagem.

Quantas cópias vocês venderam até agora?
Estamos na segunda semana, chegando em duas mil cópias. Estamos dentro do nosso cronograma. Na próxima semana a gente tem que estar nos três mil, senão a gente começa a perder, aí fudeu.

Como é a história dos CDs que você retirou das lojas porque os caras estavam vendendo com preço mais alto?

Tirei de uma loja da galeria (do centro de São Paulo) e carimbei dez reais na capa. Coloquei esse preço pros caras da loja ganharem a grana deles também mas respeitando o piso dos fãs, aí os lojistas estavam vendendo a 15, 20 reais.

Como você descobriu isso?
Um moleque me mandou um email dizendo que viu a mixtape na loja a 15, mas não comprou porque sabia que os 15 reais não iriam pra mim. A grande ilusão dos caras era achar que eu não era doido pra ir até lá e tomar os CDs da loja no dia seguinte ao lançamento. Mas eu sou (risos). Eu tinha fechado com um cara só pra repassar aos outros lojistas, mas ele tava revendendo a 15. Quando me viu fez aquela cara de “fudeu”. Peguei todos os CDs que estavam com ele.

Eu soube que você está se apresentando com uns caras de jazz também. Como é isso?
Putz, é do caralho, é um trio de jazz, os caras tocam uns bebop, acho demais. Eu fazia umas parcerias com a banda Projeto Nave, e o baterista deles toca num trio de jazz. Ele me chamou pra fazer uns shows e deu certo. Em casa eu ouvia uns discos de jazz e ficava tentando colocar rima nas músicas, é um tempo diferente, era um desafio pra mim. Eu sinto que tenho que encaixar minha rima em qualquer música. Fizemos umas paradas no Studio SP, em Santo André, acho que no Bar B vai rolar também (todas as casas em São Paulo). Eu tô devendo um freestyle pra vários caras.

Nos teus raps você fala muito que tem uma missão. Que missão é essa?
As pessoas estão muito distantes hoje em dia e eu acredito que tenho potencial pra fazer elas se reaproximarem. Meu maior esforço é fazer com que elas deixem de se ver pelas diferenças que têm e se vejam naquilo que têm de igual. Quero fazer todo mundo cantar junto porque a música tem esse poder.

Reportagem publicada no site da revista Trip.

Foto: Enio César, Janaína Castelo

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EXPEDIÇÃO BOGOTÁ

Entre os dias 27 de julho e 27 de agosto, a cidade de Bogotá terá suas histórias anônimas descobertas, publicadas e lidas por gente da Colômbia, Brasil e, quiçá, de outros países da América Latina.

 

O projeto 30 vidas de Bogotá é uma parceria minha com o site da revista Trip e nasceu após os dois anos e meio que vivi em Londres,  durante os quais me dediquei, entre outras coisas, a escrever perfis de anônimos. Decidi levar adiante – agora em outra cidade - esse interesse por histórias de pessoas que encontro pelas ruas, bares, ônibus e outros espaços públicos.

 

Durante os 30 dias exatos que passarei em Bogotá, sairei todos os dias às ruas da cidade procurando gente (mulheres, homens, idosos, jovens, adultos e crianças) disposta a me contar uma história pessoal – qualquer história. Com o relato em mãos – além de fotos e vídeos que farei pela cidade –, voltarei pra casa onde estarei hospedada, escreverei a história e a publicarei nesse blog aqui: www.revistatrip.com.br/blogs/30vidas (no ar a partir do dia 27). Cada um dos 30 textos será publicado em português e espanhol.

 

No dia seguinte à publicação da história, fotos e vídeos no blog, a narrativa será impressa (algumas cópias), numerada e ´´perdida´´ em espaços públicos da cidade – bancos de ônibus, praças, cafés, bares, cemitérios, bibliotecas.

 

O objetivo do projeto 30 vidas de Bogotá é descobrir e disseminar histórias de gente comum, que tenham um viés lírico, cômico ou trágico, sem a pretensão de que sejam lições de vida para os leitores, mas esperando que reflitam uma parcela da riqueza cultural e pessoal que existe em qualquer cidade do mundo e que, de outra forma, talvez nunca fosse conhecida.

 

A ideia é que, depois de Bogotá, o projeto 30 vidas passe por outras cidades, ainda a serem definidas, e que podem estar em qualquer continente. O único critério é que nelas existam pessoas e suas histórias.

 

Abraço,

  

Sabrina

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mulher agriao link estadao

Reportagem escrita por Lucas Pretti (blog do caderno Link, Estado de S. Paulo)

 

mulher agriao b-coolt

Nota escrita por Paloma Sa no B-Coolt ed. 88

 

Vídeo feito por Ivo Duran no segundo dia de caça ao tesouro na Av. Paulista

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foto JAF

fotos JAF

Parecia irrefutável o raciocínio que Letícia expôs aos colegas e ao professor durante aquela aula sobre como preparar um currículo atraente e, com ele, conseguir um bom emprego. “Se você não tem dinheiro, não tem bom estudo; se não tem bom estudo, não tem um bom currículo; e sem um bom currículo você não consegue um emprego legal”, ela disse. Alguns de seus colegas menearam a cabeça afirmativamente, concordando com o pressuposto. Não havia saída, portanto: pessoas com menor poder aquisitivo não terão, nunca, a chance de construir um currículo à altura de um emprego desejável. A réplica àquele argumento veio do raciocínio rápido de Henrique, sentado numa cadeira logo atrás de Letícia. “Mas existe muita gente com dinheiro que não quer estudar”, rebateu o rapaz de óculos e cabelos espetados. De novo as cabeças menearam afirmativamente, mas dessa vez uma nova verdade (ou uma verdade ainda escondida)começou a mudar e moldar as convicções daqueles alunos: não é tanto o dinheiro, mas a vontade determinada, o que garante um bom estudo, um currículo apresentável e, por fim, um bom emprego.
 
Bruno de Souza

Bruno de Souza

Bárbara Carveche

Bárbara Carveche

Charles Damasceno

Charles Damasceno

 

 

 

 

 

 

 

 

E falta de vontade é um problema do qual os 15 alunos daquela sala não padecem. Eles acordam cedo todos os dias (muitos deles antes das seis da manhã) e vão à escola – cursam o ensino médio em colégios públicos de Santo Amaro, zona sul de São Paulo. Terminada a aula, no início da tarde, eles encaram pelo menos uma hora de ônibus para chegar a Moema, onde estava localizada, até meados de março, a sede provisória do curso profissionalizante no qual estão inscritos. O curso começa às duas da tarde. Antes, porém, eles almoçam na padaria da esquina: alternam no prato coxinhas, sanduíches, empadas e o que mais a fome pedir; refrigerante e suco amenizam o calor seco da capital. Às duas em ponto a aula começa. Os alunos chegam à sala, vão à sala contígua onde guardam seus pertences e vestem, por cima da roupa, o avental branco que lhes confere profissionalismo – mal começaram o curso e já se parecem com técnicos em um laboratório. Mas ali não há formalismos. O professor escolhe no computador uma música qualquer que seja do repertório dos pupilos e que os distraia durante alguns minutos da rotina puxada de frequentar duas escolas. Há até funk. A audiência aprova. Avental posto, eles se sentam, ajeitam-se, trocam as derradeiras palavras com os colegas ao lado e depois ficam em silêncio após a primeira frase de boas-vindas do professor. Dali até às seis da tarde, e durante quatro horas de cada dia útil de 2009, o que Letícia, Henrique e os outros 13 alunos do curso farão será construir um currículo humano e profissional digno do posto que desejam ocupar, seja este qual for. E o melhor: no curso ninguém precisa desembolsar nem um centavo para estudar, seja um centavo para o ônibus, para a coxinha, para os aventais ou os livros e cadernos. Nada. O aprendizado, nesse caso, é “pago” apenas com a vontade.

Saiu do papel

A Fundação Abióptica, braço social da organização que congrega empresas e profissionais do setor óptico, demorou uma década para sair do papel. Graças à doação de R$ 200 mil feita em 2007 pela própria Abióptica à Fundação e à cessão, por parceiros do setor, de outros bens e serviços – como uniformes, tênis, lentes, roupas, conhecimento técnico e mesmo dinheiro –, a instituição pôde lançar esse ano seu primeiro curso profissionalizante, o de Montador Óptico, para jovens provenientes da rede pública de ensino e poder aquisitivo insuficiente para arcar com uma formação extra-escolar. Letícia, Henrique, Dayane, Otávio, Eduardo, Bruna, Charles e mais oito jovens entre 16 e 19 anos já estão sendo beneficiados pelo curso, que terá duração de um ano e acontece todos os dias durante a semana. O parceiro fundamental da Fundação Abióptica é a Fundação Projeto Pescar, criada em 1976 em Porto Alegre pelo empresário Geraldo Linck. Na mão oposta do assistencialismo, a Fundação Projeto Pescar tem como objetivo oferecer a jovens cursos básicos de formação profissional e humana que os capacite a ingressar no mercado de trabalho. Com o know-how adquirido ao longo de mais de três décadas de trabalho, a Fundação Projeto Pescar tornou-se uma franquia social, e oferece às instituições parceiras, como a Fundação Abióptica, todo o conhecimento e suporte de que dispõe para implantar e fazer dar certo os projetos educacionais que seus parceiros pretendem levar adiante.

Franklin Rodrigues

Franklin Rodrigues

Henrique Silva

Henrique Silva

Iza Damasceno

Iza Damasceno

 

 

 

 

 

 

 

 

Norberto Farina, presidente do Pescar, da Fundação Abióptica e sócio-diretor da óptica Mitani, foi, ao mesmo tempo, inspirador e incisivo no discurso que fez durante a aula inaugural aos estudantes da primeira turma de montadores ópticos. “Com essa estrutura, nós estamos dando 51% da oportunidade a vocês. A única coisa que exigimos são os 49% de comprometimento de cada um”. Diante de uma platéia de jovens que, naquele primeiro dia, não tinham total certeza sobre os desafios que encontrariam pela frente e nem se era aquilo mesmo que desejavam – incertezas típicas da adolescência – Farina falava como se vislumbrasse um futuro promissor para cada um dos alunos e, ao mesmo tempo, como se temesse pela inconstância própria da juventude, capaz de abortar grandes projetos a meio caminho. “Vocês ainda não conseguem enxergar isso, são muito novos, mas acreditem numa coisa: sem educação vocês não vão a lugar algum, estão fora, e vocês não terão uma segunda chance”, disse Farina, entrecortando o discurso por duas vezes ao se emocionar.

O diretor-executivo da Abióptica, Bento Alcoforado, endossou o discurso do colega. Já Rui de Souza Lima Jr., diretor-financeiro da Sàfilo e, agora, da Fundação Abióptica, contou aos alunos sua própria trajetória de vida, marcada por uma miríade de percalços financeiros na infância e adolescência e um histórico de superações e aproveitamento de oportunidades que, de alguma forma, serviram de parâmetro aos jovens que o ouviam. Ao final dos discursos inaugurais, Farina e Lima Jr. se comprometeram diante de mais de duas dezenas de pessoas a disponibilizar, cada um, uma vaga em suas respectivas empresas aos formados da primeira turma.

Dayane Lopes

Dayane Lopes

Eduardo Nascimento

Eduardo Nascimento

Letícia Basílio

Letícia Basílio

 

 

 

 

 

 

 

 

… o santo desconfia

Cerca de uma centena de estudantes de escolas públicas da zona sul de São Paulo se inscreveram no curso oferecido pela Fundação Abióptica e foram avaliados por seus conhecimentos básicos de língua portuguesa e matemática. Também foram entrevistados pela coordenadora operacional da Fundação Abióptica, Fabiana Yoshikawa, e pelo professor do curso, Luis Carlos Pinguelo, para deixar claro suas expectativas e disposições em relação ao projeto. Desse grupo, foram escolhidos 15 jovens. Pinguelo visitou a casa de cada um deles e avaliou suas condições sócio-econômicas. “O mais importante, no entanto, era conhecer os pais e explicar o projeto para eles, porque são eles que apóiam os filhos nos estudos, são eles que os incentivam”, disse o professor.

Já se sabe que o santo desconfia quando a oferta é polpuda demais. Curso de um ano, alimentação, transporte e uniforme… tudo de graça?! “Os pais achavam que não éramos sérios, que logo daríamos um papel pra eles assinarem com alguma cobrança”, conta Pinguelo, entre risos. Picaretagem, pensaram os pais. Mas o professor foi sensível e rápido na resposta: “esse curso é tão sério que eu nem estou te dando papel pra assinar”, disse ele a um dos santos desconfiados, indicando que a palavra, naquele caso, valia mais que um contrato formal. Desfeitas as (naturais) resistências, os pais, duas semanas depois do início das aulas, já estavam cumprindo seu papel de apoiadores dos filhos e testemunhando mudanças de atitude “inimagináveis”.

sentados pelo chão

Os meninos que antes passavam grande parte do tempo livre jogando bola na rua, ou em casa jogando videogame, agora ocupam as poucas horas de ócio que têm fazendo a lição de casa que os professores do ensino médio lhes pedem. As meninas, fãs da TV, dos telefonemas e conversas demoradas com as amigas no MSN, agora aproveitam até as aulas vagas no colégio, as viagens de ônibus e o período da noite em que estão em casa para darem conta das tarefas escolares. Há até quem, durante o fim de semana, sinta falta do curso da Fundação, e lamenta – com sinceridade, que se diga – o fato de não poder passar mais tempo nas aulas do professor Pinguelo. “O curso termina às seis. Quando dá seis e meia, às vezes eu tenho que mandá-los pra casa, porque eles não saem daqui”, diverte-se o professor. Milagres da motivação.

Lucas Cardoso

Lucas Cardoso

Sirlene da Cunha

Sirlene da Cunha

Lucas Ribeiro

Lucas Ribeiro

 

 

 

 

 

 

 

 

No dia em que visitei os alunos para a produção desta reportagem, estavam todos sentados no chão da sala, em roda, divididos em três grupos e concentrados na produção do currículo fictício que o professor lhes havia pedido. Do dono do currículo, sabiam poucos detalhes, como nome, idade e escolaridade. A partir dessas informações, cada grupo foi incumbido de criar um currículo diferente. No grupo um, o currículo deveria ser muito bom; no dois, mediano, e no três, um currículo ruim, pouco informativo e nada atraente. Passei por cada um dos grupos e testemunhei o entrosamento dos alunos – nem todos eram colegas antes do curso, já que foram selecionados em três diferentes escolas. Em cada grupo havia um aluno que desenhava muito bem e que, obviamente, recebeu a missão de criar o retrato do currículo. Invariavelmente, as três turmas gastaram pelo menos 60% do tempo pensando no desenho e seus detalhes: põe cabelo espetado; não, espetado não, careca! Careca?! Tá bom, põe um cabelo ralinho. E esse nariz? Tá gigante! A sobrancelha tá ao contrário, muda isso aí! Não, tá bom assim. E se a gente desenhar o professor? (risos). Do grupo um surgiu uma dúvida crucial: a repórter já estava há muito tempo com o grupo três; estaria ela ajudando o grupo na tarefa? “Não, claro que não”, tranquilizou-os o professor, não sem antes me contar e se divertir com a suspeita. Eu precisava dividir melhor meu tempo entre eles.

Katlyn Balbino

Katlyn Balbino

Otávio Barbosa

Otávio Barbosa

professor Luís Pinguelo

professor Luís Pinguelo

 

 

 

 

 

 

 

 

Havia na sala de aula uma dessas bagunças organizadas, gente argumentando, contra-argumentando, opiniões em conflito e a busca por soluções. Mas ninguém precisou ser repreendido pelo barulho ou reconduzido ao tema por divagar em assuntos paralelos, como é comum acontecer nas classes dos colégios públicos. Em grande parte, claro, porque uma turma de 15 alunos é muito mais “manejável”  do que uma de 30 ou 40, como as que os heróicos professores da rede pública conduzem todos os dias. Mas também é verdade que a flexibilidade do currículo do curso de Montador Óptico e a didática amigável do professor Luis Carlos Pinguelo contribuem para esse interesse natural dos alunos. Apenas 40% do currículo do curso está relacionado aos temas técnicos da óptica – e os que ali se formarem não precisarão ser, necessariamente, montadores; terão conhecimento suficiente para se tornarem, também, vendedores e balconistas altamente qualificados, profissionais em falta no setor óptico, ou, ainda, auxiliares habilitados a trabalhar em outras áreas. Isso porque os demais 60% do curso estão relacionados a conhecimentos gerais de cidadania, meio ambiente e relacionamento interpessoal, tão necessários à vida profissional.

Filmes, programas de TV, dinâmicas de grupo e teatro são frequentemente utilizados como instrumentos de apoio às aulas. E os alunos apreciam essa variedade que dificilmente encontram nas salas de aula convencionais. Quando Pinguelo deixou o recinto por alguns minutos para buscar folhas sulfite, perguntei aos alunos o que achavam do professor. Entre as afirmações de “muito legal, gente boa e divertido”, uma me chamou mais a atenção: “ninguém tem medo de perguntar nada pra ele”, disse-me um dos alunos, e os demais concordaram. Também, pudera: já no primeiro dia de aula, Pinguelo fez um trato com os pupilos: ninguém ali precisaria ter vergonha de perguntar nada – e não haveria espaço para tiração de sarro de quem pergunta – porque para ele, como professor, não há perguntas bobas nem desnecessárias.

Por isso, acostumados que estão a perguntar o que lhes dá na telha, naquele dia nem a repórter escapou às questões: você voltará outras vezes pra visitar a gente? Quantos anos você tem? Vai publicar nossa foto? É difícil ser jornalista? Quando vai sair a revista? Onde ela sai?A gente vai ganhar uma cópia pra levar pra casa? A possibilidade de darem uma entrevista e saírem nas páginas de uma publicação que circula no Brasil todo deixou-os mais que animados. A revista será publicada em abril e, claro, cada um receberá uma cópia (ou duas, porque há a cópia dos pais também). Tenho quase certeza de que quando receberem o exemplar, afoitos, eles buscarão a página da reportagem e quererão ver, primeiro, a foto na qual aparecem, e, em seguida, os próprios nomes impressos nas páginas: Henrique, Sirlene, Letícia, Bárbara, Charles, Lucas (o Cardoso), Michelle, Iza Karla, Katlyn, Dayane, Bruno, Eduardo, Lucas (o Rodrigues), Otávio e Franklin. Estarão todos lá (ou melhor, aqui), impressos e familiares aos olhos de cada um dos alunos. Depois lerão o texto, primeiro individualmente, em seguida uns para os outros (agora mesmo há alguém lendo), comentando um trecho aqui e ali, rindo, identificando-se nas aspas e nas atitudes descritas. Os alunos da Fundação Abióptica guardarão seus exemplares da View com muito cuidado, numa gaveta, talvez embrulhados num envelope pardo ou numa sacola de supermercado – umidade e sol não vão bem com papel. As revistas ficarão tão bem guardadas que os personagens dessa história eventualmente se esquecerão delas. Mas haverá o dia – daqui dez, 15 anos, talvez – em que os alunos, já bem empregados e com a vida cada vez mais próspera, terão a ocasião de contar a alguém o trajeto que percorreram até chegarem à maturidade profissional e pessoal que tanto esforço exigiu deles. Com saudosismo, tirarão as revistas do fundo da gaveta, lerão a reportagem em voz alta e de novo se lembrarão, orgulhosos de si mesmos, do dia em que, de avental branco, lápis e borracha nas mãos, começaram a preparar o currículo que lhes transformaria a vida para sempre.

Reportagem publicada na ed. 95 da revista VIEW (abril/2009)

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Alema, Anisah e Bushra: revolução sobre rodas

Alema, Anisah e Bushra: revolução sobre rodas

Alema, Anisah e Bushra cresceram sem saber pedalar, mas hoje circulam orgulhosas em suas magrelas

Em alguns países, o islamismo impede que mulheres andem de bicicleta. Por isso, Alema, Anisah e Bushra, londrinas filhas de muçulmanos, cresceram sem saber pedalar. Hoje, mesmo sob os olhares reprovadores, circulam orgulhosas em suas magrelas. Alema Akthar é uma das centenas de filhos de bengaleses nascidos na capital inglesa. Muçulmana praticante, ela tem 19 anos e, em meio às modernidades com as quais convive em Londres, toca um curso no mínimo curioso – para não dizer revolucionário. Depois de anos com uma inquietação no peito e nas pernas, resolveu não só aprender a andar de bicicleta, tarefa proibida para quem segue os preceitos islâmicos, mas também ensinar outras garotas como ela a pedalar.

Fez questão de me encontrar para falar sobre suas aulas antes que eu entrevistasse qualquer de suas alunas. Começou dizendo que seu curso existe há quatro anos em Londres e já ajudou mais de 300 muçulmanas entre 18 e 65 anos – a maioria imigrante de Bangladesh, Índia, Irã e Paquistão – a pilotar uma bicicleta. Por causa das crenças patriarcais da cultura daqueles países, muitas mulheres asiáticas (e mesmo as inglesas que nascem em famílias de imigrantes) estão imersas numa realidade de repressões e imposições.

Na Índia, por exemplo, meninas são forçadas a casar ainda crianças, são alijadas da escola, do convívio social e, porque não podem trabalhar, dependem financeiramente do marido e dos filhos homens. No Irã, mulheres que protestam em público por seus direitos, mesmo que pacificamente, não raro são agredidas pela polícia, presas e julgadas pelos crimes de violação à segurança nacional e à propaganda contra o governo. Em Bangladesh, uma mulher que recusa o flerte de um pretendente corre o risco de ter o rosto desfigurado pelo ácido que o próprio lhe atira como vingança; em outras ocasiões, pode ser vítima, mesmo na Inglaterra, do chamado “assassinato de honra”: ao negar um casamento arranjado ou se apaixonar por um homem que não tenha sido aprovado pela família, é morta pelo próprio pai ou outro parente do sexo masculino.

 

EMANCIPAÇÃO

Uma faceta, digamos, mais “prosaica” da cultura patriarcal de alguns países asiáticos está relacionada ao exercício físico. As mulheres são “desaconselhadas” a andar de bicicleta e praticar outros esportes quando atingem a adolescência, e isso é regra até o fim da vida. Porque esporte não é coisa para mulheres. Simples assim. A própria Alema só aprendeu a pedalar aos 16 anos. Nunca foi proibida pelos pais, mas jamais viu as mulheres de sua família pilotando uma bicicleta. Há apenas três anos ela ousou pôr as rodas nas ruas e conseguiu ir até mais longe que suas iguais: submeteu-se a treinos específicos de ciclismo e tornou-se uma instrutora qualificada. “Se eu posso fazer isso, imagino que outras meninas possam também”, diz, fiando-se no bom senso de pais como os dela, que, após absorverem a cultura inglesa, não se opuseram à “emancipação” da filha.

Jagonari, que significa “mulheres, despertem”, é o nome do centro cultural onde Alema trabalha e que oferece, além do curso de ciclismo, capacitação e alfabetização para mulheres da comunidade asiática concentrada em Whitechapel, bairro londrino povoado por imigrantes praticantes do islamismo. “Elas precisam ficar em casa cuidando dos filhos enquanto os maridos trabalham e quase não têm vida social. O Jagonari é um lugar bilíngue, onde elas aprendem inglês, exercitam-se e interagem com outras mulheres”, explica Alema. Financiados com verbas do governo inglês, esses cursos são gratuitos para as alunas da comunidade. O de ciclismo ainda oferece empréstimo de bicicleta, mesmo após o fim do curso.

 

 

Anisah e Alema durante passeio no parque com a instrutora Lesley

Anisah e Alema durante passeio no parque com a instrutora Lesley

 

ESPORTES E VÉUS

Uma atividade que pode parecer corriqueira para qualquer mulher ocidental exige esforço e determinação dessas alunas. No curso, elas aprendem a desviar de obstáculos, guiar por lugares estreitos e sinuosos e entender placas de trânsito – para, finalmente, pilotar nas ruas. Tudo em meio aos olhares de transeuntes que nunca viram uma mulher muçulmana, com o véu a ocultar os cabelos e uma túnica negra sobre o corpo, andar de bicicleta em público.

Mas, afinal, o islã teria algo a ver com a proibição da prática de esportes por mulheres? Era preciso ser delicada na abordagem desse assunto porque, desde julho de 2005, quando atentados à bomba contra o transporte público de Londres mataram, pelas mãos de muçulmanos extremistas, mais de 50 pessoas, tocar em temas ligados aos costumes islâmicos se tornou uma tarefa espinhosa. Mas, como Alema não tocava no tema, decidi ser direta. “Existe algo explícito no Alcorão proibindo as mulheres de se exercitarem?”, perguntei. “Absolutamente nada”, responde. “Senão, as mulheres não ousariam ter aulas de ciclismo. No entanto”, e aí Alema foi mais precisa, “é fato que, no islã, meninas e meninos, em teoria, não devem se misturar sem necessidade, e isso se torna também uma barreira para a prática de esportes, que são, majoritariamente, praticados por meninos.”

Os braços de Anisah Khadim tremulam ao segurar o guidão. A pequena praça ao lado do centro Jagonari é o lugar perfeito para as pedaladas da iniciante de 13 anos, uma das mais jovens alunas do curso. Anisah diz não ter vontade de pilotar na rua, mesmo que um dia domine a bicicleta sem claudicar. “Há muitos carros”, diz a inglesa filha de bengaleses. Bushra Chowdhury, outra inglesa com raízes em Bangladesh, tem 20 anos e pedala há quatro meses. Está visivelmente mais segura na direção do que a colega Anisah, ciclista há apenas duas semanas. Bushra olha sempre para a frente, não vacila e até ousa um pouco mais na velocidade. Ela, que tem pavor de coisas que se movem, de aranhas a carros, também diz que não pretende ir pra rua com a bicicleta por­que “as pessoas dirigem como lunáticas hoje em dia”. Já a instrutora Alema é pura confiança. Ela pilota na praça, na rua e até acena com uma das mãos quando repara que eu a observo. Apesar da diversidade de experiências, as três jovens são unânimes em duas afirmações: a primeira, de que andar de bicicleta é agradável pela sensação de liberdade; a segunda, de que os olhares reprovadores de alguns homens asiáticos mais velhos ainda as deixam desconfortáveis e ofuscam a liberdade adquirida.

 

CORES DISTINTAS

Alema, em nossa segunda entrevista, desta vez realizada num parque, usava um véu cinza que ocultava quase toda a testa, metade das bochechas, pescoço e até os cantos dos olhos. Sob uma jaqueta parda, ela vestia um jilbab, a túnica negra que cobre as muçulmanas até os pés. Anisah e Bushra usavam seus véus – mas não jilbabs – nos mesmos moldes que Alema, porém, ousavam nas cores: o véu de Anisah era violeta vivo, o de Bushra, azul-celeste. Enquanto papeávamos, uma dona de casa bengalesa de 38 anos aproximou-se, atraída pelas meninas de véu, suas iguais, montadas em reluzentes bicicletas de alumínio. Alema perguntou-lhe se queria pilotar. A mulher riu e disse que não. Desconversou, mas admitiu que, provavelmente, o marido não aprovaria. “Você viu? Ela estava interessada, mas ainda não tem coragem. Isso é porque está em Londres há menos de seis meses. As mulheres imigrantes, depois de uns dez anos aqui, tornam-se muito mais livres”, disse Alema.

Uma década parece muito para que uma mulher, ali pelos seus 40 anos, conquiste autonomia para aprender a usar uma bicicleta. Alema, Anisah e Bushra, por serem inglesas, “emanciparam-se” antes. Talvez por terem nascido num ambiente tão díspar daquele de onde seus pais vieram, as jovens ciclistas não têm ideia da importância de suas pedaladas. As meninas do Jagonari desfazem preconceitos, redefinem comportamentos, transformam o mapa social de onde vivem e reconquistam liberdades básicas para suas iguais mais velhas. Quando vestem seus véus e jilbabs e montam em suas bicicletas, estão incitando nada menos que uma histórica revolução sobre rodas.

 

ousadia púrpura de Anisah

ousadia púrpura de Anisah

ENQUANTO ISSO, NO BRASIL (por Paula Rothman)

Se o sheikh Mohamad Al Bukai fosse casado, não veria problemas em sua esposa andar de bicicleta. Nascido na Síria, há dois anos ele vive em São Paulo e é líder espiritual da mesquita do Pa­ri, uma das maiores do Brasil. Para ele, as res­trições impostas às muçulmanas em alguns países não são totalmente fundamentadas na religião. “Trata-se de política, uma decisão de governos extremistas confundida com ensinamento religioso pelos leigos. Imagine se existia bicicleta quando escreveram o Alcorão”, exalta. A interpretação do livro sagrado muçulmano explica por que mulheres de uma mesma crença têm liberdades tão distintas em diferentes partes do mundo. Alia Fayd, 17 anos, aprendeu a andar de bicicleta com os pais, libaneses que migraram para o Brasil. A tia de Alia, Nazek AlAttar, 47, se lembra de uma infância de pedaladas na Síria. Elas são exemplos da comunidade muçulmana brasileira, que tem cerca de 30 mil pessoas*. “E, em sua maioria, é formada por turcos, sírios e libaneses, vindos de países bem menos radicais”, completa o sheikh. Não é o que acontece no Reino Unido, onde a maioria dos mais de 1,6 milhão de adeptos**, que fazem do islamismo a segunda maior religião de lá, é imigrante de locais considerados mais extremistas, como Paquistão (320.767 imi­grantes), Bangladesh (154.200), Irã (42.377), Iraque (32.251) e Afeganis­tão (14.890)***.

*Último Censo do IBGE, de 2000, apontava 27.239 muçulmanos. **2001 Census England and Wales. ***Institue for Public Policy Research, do Reino Unido.

 

FOTOS: Marina Chevrand

Reportagem publicada na revista TPM, ed 86, abril/2009

 

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great landscapes of London

great landscapes of London

Ele é capaz de agregar valor a um produto ou espaço físico, atrair clientes e aumentar vendas. O design pode mudar o rumo de qualquer produto físico comercial. Em Londres, o design, em muitos aspectos, não é só diferencial, mas pré-requisito para que um produto ou espaço sejam dignos de receber um olhar de interesse do consumidor inglês, acostumado às artes e à criatividade 

Quando desembarquei no aeroporto internacional de Heathrow, em Londres, em fins de setembro de 2006, logo notei importantes diferenças no ambiente da capital inglesa em relação à capital paulista, que havia deixado há apenas um dia. Pessoas altas, cabelos louríssimos ou ruivos, e o inconfundível inglês britânico que se ouvia ao redor. É verdade que o gigantismo de Heathrow ainda me lembrava São Paulo, com escadas e esteiras rolantes encurtando as longas caminhadas entre um ponto e outro. Mas foi no claustrofóbico metrô que fica dentro do aeroporto e que conduz ao centro da cidade, que notei uma segunda grande diferença: apesar de compacto, com teto baixíssimo e poltronas pequenas azul real, os vagões do metrô londrino são apinhados de cartazes com propagandas de empresas privadas e mensagens institucionais do governo. Não há espaço desperdiçado: plataformas de embarque, corredores, o entorno das bilheterias e até as paredes que ladeiam as escadas rolantes viram suporte para publicidade. Algumas dessas propagandas são verdadeiras obras-primas de design gráfico, com um acurado senso estético e preocupação em fazer das imagens e palavras uma peça única em termos gráficos, e por isso repletas de significado. Outras são inovações tecnológicas: painéis eletrônicos, dezenas deles, que não param de exibir imagens e seduzir os olhos mesmo de quem passa apressado diante deles.

E não foram necessárias muitas viagens de metrô ou caminhadas pela cidade para perceber que a preocupação com o design, seja dos cartazes, das roupas, dos óculos, das construções, da decoração dos pubs ou dos cortes de cabelo, é algo recorrente na vida londrina de todos os dias, fruto, certamente, da educação formal recebida desde cedo que ressalta o valor das artes, da cultura e da criatividade em geral.

O design é o tempero de toda obra material e é o que lhe agrega valor. É ele que nos faz crescer os olhos sobre a beleza de um produto, por exemplo, e nos faz optar por ele em detrimento de outro de mesma utilidade, mas com desenho convencional. Design, porém, não tem a ver só com aparência bem elaborada. Pelo menos não na concepção geral e moderna de design, que envolve, além de estética, os conceitos de usabilidade (termo livremente traduzido do inglês e que designa a utilidade e praticidade de um objeto) e capacidade de envolver o consumidor.

O inglês Ab Rogers é um dos designers mais respeitados de Londres, com projetos seus – especialmente de criação de novos espaços – enriquecendo prédios como os do Design e Science Museum, a galeria de arte Tate Modern, o Victoria and Albert Museum (todos em Londres), uma filial da grife Comme des Garçons e o Centro Pompidou, esses dois últimos em Paris. Rogers faz daquelas três diretrizes – usabilidade, estética e interatividade – as linhas mestras do seu trabalho e, com elas, (e mais a irreverência e o gosto por cores que lhe caracterizam), cria espaços que são verdadeiras obras de arte, apesar de Rogers ver diferenças conceituais claras entre arte e design.

Em 2003, a loja de óculos Michel Guillon, localizada no centro de Londres, encomendou-lhe um projeto para uma nova sede. A princípio, pediram-lhe como cor básica o bege. Rogers, para começar, fez a contra-proposta: bege não, azul, azul intenso. Depois, pensou em algo que não fosse convencional como os balcões cobertos com tampos de vidro sob os quais os óculos costumam repousar todos misturados e indistintos, longe do alcance do consumidor. Rogers optou por um muro de 14 metros de comprimento forrando toda a loja, cravejado por 462 compartimentos que servem como mostruários para cada par de óculos, transformando os objetos em peças únicas e exclusivas. Estavam presentes na originalidade do muro e na vivacidade do azul o pensamento estético do designer. A usabilidade veio com uma sacada mecânica. Cada mostruário move-se automaticamente, em momentos determinados, fazendo com que cada compartimento saia do muro e retorne (como uma gaveta abrindo e fechando) e chame a atenção do cliente para que o pegue. Ao transformar a loja de óculos num ambiente vivo, onde os óculos, elementos principais, comunicam-se com os clientes, Rogers logrou alcançar a diretriz do design que lhe é mais cara: a capacidade de entreter o espectador/consumidor de maneira lúdica. É então que a forma de um produto ou espaço vai além, e se transforma em conteúdo. O resultado do trabalho de Ab Rogers para a loja Michel Guillon: um aumento de 30% nas vendas de óculos.

“Acho que o designer tem que estar atento, sim, à sua audiência, mas não penso que ele tenha que trabalhar exatamente como o cliente quer porque o cliente nem sempre sabe o que quer, e é parte importante do trabalho do designer traduzir isso. Um bom exemplo é o trabalho que fiz para a Michel Guillon”, diz Rogers.

Além das três diretrizes e da conversa com o cliente, Rogers também considera importantes para a produção de uma boa obra de design, a capacidade de o profissional trabalhar com limitações (seja de tempo ou de dinheiro investido no projeto), o equilíbrio entre criatividade e praticidade – o que significa saber encontrar o meio termo entre a viagem artística e a possibilidade real de criar um objeto ou espaço úteis – e, mais que tudo, a sinceridade intelectual na hora de criar. Sobre a sinceridade, Rogers explica: “significa tomar decisões pelas razões certas. Não estamos preocupados em ser originais o tempo todo e nem queremos copiar o que os outros estão fazendo. Estamos preocupados em saber qual solução o cliente precisa, como ela pode ser desenvolvida, desenvolvê-la e ir além das expectativas do cliente”. Está dito.

Faz pouco mais de dois anos que desembarquei no aeroporto de Heathrow e notei as primeiras peculiaridades inglesas. Dois anos comportam dias suficientes para que um latino maleável – como a maioria dos latinos – se acostume ao sotaque britânico, ao frio, à fleuma bretã e à caótica mistura de culturas, no caso de Londres, destino preferido de imigrantes vindos de todas as partes do mundo. Mas dois anos não comportam suficientes dias para que um não-inglês (latino ou não), acostume-se à riqueza estética da capital inglesa. Eu, pessoalmente, sigo me surpreendendo com as boas peculiaridades do design londrino de todos os dias. Confira a seguir a entrevista exclusiva concedida por Ab Rogers à revista View e as fotos feitas por André Penteado na capital da criatividade estética.

ENTREVISTA: Ab Rogers

Colourful guy: Ab Rogers

Colourful guy: Ab Rogers

 

Design de brincadeira

Olhos azuis, camisa rosa, cachecol amarelo, abrigo laranja, calça azul e sapatos caramelo-claro. Faltam poucas cores, e sobram outras, ao arco-íris de Ab Rogers. Apaixonado por diversidade cromática e com uma criatividade lúdica, Rogers é um dos mais respeitados designers da Europa. Seus projetos são feitos para serem vistos e incorporados pelo público – e com bom humor, que se diga. Na sua casa-escritório em Wimbledon, extremo sul de Londres, o designer recebeu a reportagem da revista View para uma conversa e sessão de fotos. Tanto repórter quanto fotógrafo saíram de lá com a clara sensação de terem visto, em Rogers, uma representação quase gráfica da versátil inventividade da estética londrina.

Do que você gosta mais no seu trabalho como designer?

Gosto mais da excitação, de descobrir novas coisas e soluções divertidas e criativas para os projetos.

 

Quando você cria um projeto, você se vê fazendo arte ou há uma diferença entre arte e design?

Eu vejo diferenças, sem dúvida. Quando faço design estou lidando com um problema, estou buscando soluções inventivas pra ele. Na arte eu busco inspiração, porque a arte não tem fronteiras nem limites, como temos no design. O design tem que ser basicamente prático e produzível, e tem que se adequar aos limites financeiros que você tem para trabalhar. Nesse aspecto, acredito que quanto mais limitações você tem, melhor, de certa forma, porque te faz mais criativo.

 

Você pode me dar um exemplo de um trabalho em que você teve limitações importantes?

Agora estamos trabalhando para uma rede britânica de restaurantes localizados em estradas chamada Little Chef, que já está no mercado há 50 anos. Nós tivemos apenas três meses para reestruturar todo o design da rede e uma verba pequena, 800 libras por metro quadrado (cerca de 2.700 reais) – normalmente trabalhamos com duas mil libras (cerca 6.700 reais) por metro quadrado para uma loja, mas como é um restaurante, seria ainda mais. Só optamos por trabalhar com materiais que pudessem ser encontrados num prazo de semanas, não meses. Tinha que ser um projeto que divertisse as pessoas, mas sem assustá-las, que respeitasse normas de segurança e higiene e que fosse ambientalmente correto. Era bastante desafiador. Então pensamos o projeto, apresentamos ao cliente, mas ele não gostou, por diversos motivos. Então voltamos ao escritório, descartamos o projeto e criamos outro rapidamente. Poderíamos ter discutido com o cliente, dado argumentos dizendo que o projeto era bom e que a opinião dele era equivocada, mas isso custa tempo e dinheiro, então decidimos refazer o quanto antes. Usamos materiais simples, com custo menor, mas ainda assim muito poéticos, muito lúdicos. No banheiro, por exemplo, criamos um sistema que emite cheiro de pão e café, porque muitas pessoas param no restaurante só para ir ao banheiro, e precisamos convertê-las em consumidores também. O som da descarga é som de ovos fritando, para fazer a pessoa pensar em comida o tempo todo. Brincamos ao máximo com o ambiente, em parceria com o chef Heston Blumenthal, responsável pelo cardápio do Little Chef. Blumenthal é excêntrico e provocador, já os donos do restaurante são mais focados em negócio, então foi um desafio casar as duas mentalidades e fazer os dois felizes.

 

É importante para o designer considerar sempre o gosto estético e a bagagem cultural do cliente para o qual trabalha?

Acho que o designer tem que estar atento, sim, à sua audiência, mas não penso que ele tenha que trabalhar exatamente como o cliente quer, porque o cliente nem sempre sabe o que quer, e é parte importante do trabalho do designer traduzir isso. Um bom exemplo é a loja de óculos Michel Guillon. Eles me pediram uma loja bege. Sugeri algo mais excitante, um azul vivo para a loja toda. Depois convenci o cliente a investir dinheiro numa estrutura de mostruário móvel em toda a loja, para fazer os óculos mais vivos, como se fossem objetos únicos. Eles aceitaram, e hoje a loja vende 30% mais óculos do que quando o mostruário era estático. Foi um projeto comercial que desenvolvemos, mas inspirado pela arte.

 

O que faz uma boa idéia de design se tornar um produto vendável?

Tem que ser algo interativo para o consumidor, algo com que ele possa brincar, e que possa se comunicar com diferentes audiências; deve ter uma linguagem excitante. O escultor Tony Cragg desenhou um garfo de jardinagem para a rede de supermercados inglesa Sainsbury´s que, quando não está sendo usado, ele se torna uma escultura no jardim, então, no fim, o garfo está sendo usado o tempo todo, ou como garfo apenas, ou como escultura. Não tenho dados de quão vendável é esse produto, mas é um produto brilhante. É preciso haver um equilíbrio entre a utilidade e a fantasia do produto.

 

De onde você tira inspiração?

De todos os lugares. Das folhas de outono caindo (sem querer ser romântico), das viagens ao litoral que costumo fazer com minha família, do mar, de um livro, de exposições de arte, de filmes, de fantasia em geral, de tudo, basicamente.

 

No seu escritório vocês adotam alguma prática de design sustentável (termo que significa a utilização de materiais e métodos de produção que sejam menos agressivos ao meio ambiente)?

Sim. Nós tentamos sempre pensar nisso. Algo muito simples é a questão da luz, procuramos usar o máximo de luz natural em nossos projetos para reduzir o consumo de energia. Fizemos um projeto sustentável para a Love Life Story, uma marca ecológica aqui de Londres, um misto de restaurante e empório. Nesse projeto, por exemplo, não imprimimos nada do projeto para evitar o desperdício de papel, e apresentamos as informações ao cliente usando um pen drive.

 

Acha que é possível pensar em design ecológico em todos os projetos ou só em casos específicos?

Acho que é possível ter essa consciência constante de que temos que reduzir o volume de energia consumido, ainda mais nos projetos grandiosos. Mas é difícil aplicar esses princípios a todos os projetos. Por exemplo, reduzimos o uso de fibra de vidro em alguns trabalhos. Por um lado, é um material ruim, ecologicamente falando, mas, por outro, é um material que dura muito. Nós tentamos fazer um design sustentável, mas não posso dizer que trabalhamos 100% assim.

 

Você disse numa entrevista que é mais fácil inspirar as pessoas através de um design lúdico do que através de um design apenas acadêmico. Isso serve para qualquer tipo de design?

Eu disse isso referindo-me mais ao meu ponto de vista, ao meu modo de trabalhar. É claro que há pessoas que preferem o aspecto mais acadêmico de uma obra, outras preferem a interatividade, o aspecto lúdico. Mas em geral, sendo lúdico ou acadêmico, um projeto ou uma peça de design devem ser sinceros. O que eu detesto num trabalho é a falta de sinceridade.

 

O que você quer dizer com sinceridade numa peça de design?

Significa tomar decisões pelas razões certas. Não estamos preocupados em ser originais o tempo todo e nem queremos copiar o que os outros estão fazendo. Estamos preocupados em saber qual solução o cliente precisa, como ela pode ser desenvolvida, desenvolvê-la e ir além das expectativas do cliente. É o caso da loja de óculos Michel Guillon: ele queria algo ordinário, e nós o convencemos a fazer algo extraordinário, e acabou sendo original. Isso é um design sincero.

 

 

Reportagem especial da série Mind the Glasses (sobre moda e design em Londres), publicada na edição 94 (fev 2009) da revista View.

Fotos: André Penteado

 

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