Joguei o vaso de babosa, os discos, revistas, fotos, quadros, a vitrola portátil, a tv laranja, joguei as roupas, peça por peça, depois aos bolos; joguei as panelas, os pratos, os copos, talheres, joguei os panos de prato e eles planaram e se estenderam no vento ao próprio gosto, uns abertos, outros fechados em si mesmos. Joguei os livros e no ar eles se abriram como se armassem o voo que sempre quiseram voar, garças brancas, amareladas, garças de inúmeros sulfites sobrepostos como asas de múltiplas gramaturas e histórias, garças tatuadas de linhas negras, paralelas, grafadas com Times New Roman corpo 10. Joguei garrafas de água, latas de atum, pacotes de arroz e açúcar e cada um deles gritou ao seu modo assim que rompeu o lacre que o mantinha preso ao destino que alguém ao acaso lhe impingiu – embalagem e embalado. Depois do grito – Splash! Plaft! Pof!, estavam livres para ser sem a existência do outro: garrafa de um lado, água do outro; lata de um lado, atum do outro. Joguei a bicicleta, a mesa de centro, o fogão de duas bocas; joguei a cadeira de trabalho, o computador com o trabalho inacabado num email recém-escrito e não enviado e joguei o porta lápis de plástico que portava, então, só canetas que não funcionavam. As bocas abertas nos prédios vizinhos invejavam a liberdade das coisas inanimadas que se desvinculavam de mim e se desconjuntavam e se esparramavam livres ainda no espaço; as bocas abertas invejavam meu desprendimento daquelas coisas que eram as mesmas coisas que as mantinham atadas àquelas caixas onde elas, e as coisas, viviam. E das bocas abertas eu invejava seu apego às coisas que era, em segredo, proteção contra o desprendimento filosófico e encarnado capaz de fazer, além de coisas, pessoas voarem do oitavo andar.
« ratos




olá, sabrina!
estava notando que tu está tão mais bela ultimamente como se fosse um crescente.
assim como os animais enjaulados, as coisas nem precisam de nós como queremos acreditar.
grande beijo!
eu acho as coisas que perco às vezes!
depois da cera depilatória e das salsichas alemãs em conserva, os comentários são a invenção mais estranha que a indústria concebeu no período posterior à revolução .
está claro que a revolução industrial acabou praticamente com a antropologia, mas voce poderia muito bem dizer que escrever o nome nas cuecas com aquelas canetas atômicas e alho desidratado são muito mais peçonhentos ao avanço da sociedade como um conjunto que culpar os comentários por esvaziar-se em si só enquanto seu propósito inicial.
sei que voce se sente desconfortável com essa condição de comentarista, mas voce tem que entender que assim como quem comenta voce me deixa em uma situação à merce da necessidade de mandar voce parar com isso agora, obrigado mesmo assim.
Sabrina,
Aquela tábua que te “lembra o pinnball caseiro feito com pregos e elásticos que se seus irmãos faziam na década de 80″ é uma tábua para tricotar ou fazer crochê -creio eu-. As linhas dançam por entre os pregos e vão formando o objeto.
Adoro ler a vida que você dá às palavras.
Um beijo!
Esta chuva teria um efeito semelhante se fosse de roupas de grife e perfumes franceses comprados por impulso? Só pergunto para entender melhor…
Sabrina, que texto animal.
Eu não escrevia há muito tempo, escrevi hoje, e aproveitei para olhar na minha aba de favoritos, já vi que fiz certo.
Pena que eu li o seu depois que escrevi o meu: serviria de uma ótima inspiração.
Um aceno de admiração a primeira vista. Vi seus textos no projeto Mulheres Centrais, dos meus amigos da Garapa.
Cheguei aqui.
Vi, revi, desvi.
Saravá!
muito obrigada, Vitor.
é uma honra.
saravá
Sabrina, parece que foi ontem. E o pior é que foi. Beijos.
e foi, nao foi?
como voce está querido?
grande beijo!