Aquilo durou dois dias, pouco mais. Aquela força toda, alma de bicho. Depois acabou. Virei gente de novo. Minguada e fraca. Caí semimorta à porta da Igreja do Desterro. A igreja em pé; eu mais cravada no chão do que ela. Os sinos tocavam, ouvi três ou quatro badalos e caí. Abri os olhos e alguém já me carregava nos braços, um homem, e me colocava estendida no altar, uma vela acesa em cada ponta, crucifixo de prata no meio, o metal frio encostando na minha cintura. A fumaça de incenso nublava a igreja toda e deixava a cara do São Sebastião opaca. Reconheci pelas flechas. O homem que me carregou até lá se afastou do altar de um jeito esquisito, uma reverência, a cabeça baixa, não me olhava, e foi se juntar aos homens e mulheres sentados lado a lado, mudos, na primeira fileira de bancos da igreja. Gente. Era a primeira vez desde o desmundo que via meus iguais vivos. Nem tão iguais. Todos queimados, as caras despeladas, derretidas, o tórax e braços enegrecidos de poeira e fogo. As mãos de alguns, juntas, entrelaçadas, pareciam romãs gigantes, róseas e doloridas. Eu sem me mexer, uma natureza morta sobre o altar – mas eu tinha mais pele e viço que todos ali, uns dez ou doze que juntos não teriam couro pra um só corpo. Minhas pálpebras semicerradas e meus olhos revirando nas órbitas procurando os olhos do homem que me levou até lá pra ele me explicar o que era aquilo tudo. Mas ele não me olhava. A mulher sentada numa das pontas do banco levantou e pegou o turíbulo ainda fumegante que estava atrás do altar, às minhas costas, e começou a incensar a igreja toda. Primeiro as laterais da nave, depois o meio; incensou as mãos deformadas da gente que esperava por ela com os braços estendidos. Depois me incensou, e o entorno todo do altar. Arrastou uma cadeira pra perto de mim, subiu nela, e com o turíbulo passeava sobre meu corpo fazendo chegar fumaça até dentro dos meus olhos. São Sebastião era já uma nuvem só, e também a mulher, e as velas, o crucifixo. A igreja toda sob espessa névoa. Sufocada pelo incenso desfaleci outra vez. Ouvi que se levantaram e se aproximaram do altar. Umas mãos ásperas, outras úmidas, foram grudando no meu corpo com força, dos pés ao pescoço. Atavam-me ao altar com as próprias mãos. Eu tinha consciência, mas não energia. Minhas pálpebras coladas como num sono profundo. Eu querendo acordar, mas meu corpo não. Até que uns dentes cravaram no bico do meu seio direito com uma força descomunal e eu acordei com o som do meu próprio grito. No meio da névoa, a cabeça erguida num tranco, descobri meu sangue e o bico do meu peito entre os dentes do homem que me deitou sobre o altar. Com a língua ele botou meu mamilo pra dentro da boca e o mastigou feito chiclete. Meu segundo grito não saiu, nem o terceiro. No quarto, também surdo, deixei cair a cabeça de novo no altar. A dor vinha em ondas concêntricas, todas partindo do meu bico que já não existia. Meu corpo estava colado à força naquela placa de mármore pelas mãos que me sujeitavam, e entendi, de repente, que eu era a oferenda viva daqueles dez ou doze bichos sem pele.
ratos »




Sabrina,
Você realmente tem talento para a escrita. Sua intenção de despertar medo, aflição e curiosidade neste pequeno texto funcionou tanto para mim como – tenho certeza – para outros que leram e ainda lerão. Parabéns!
Abraços!
ei querida, tudo bem?
que bom que sentiu medo, aflição e curiosidade.
sentiu nojo tb? era a ideia :0
beijo grande!!
Seus textos são bem íntimos, profundos e elegantemente descritos com muitos detalhes . São ricos de conteúdo e de emoção. Tudo bem claro, de uma genialidade íntima !
Parabéns talvez seja uma palavra constante a você, sendo assim digo : Continue .
Ei Thays
tudo bem contigo?
obrigada, mesmo, pelo elogio. E te agradeço ainda mais pelo ´´continue´´.
beijo!
sabrina
nossa vc é muito criativa espero q vc continue assim
bjss
oi Debora
td bem?
obrigada!
beijo
sabrina
eu acho que no fim do mundo de verdade vai pior do que isso tudo que esta acontecendo
oi tudo bem, amei parabens…