Os azulejos laranja do boteco carioca ao lado da rodoviária são da década de 70. Os garçons são de 60 e 50, o cozinheiro veio dos 40 e o cheiro de sebo da casa é anterior a todos eles e a eles sobreviverá. Só ela é que veio depois, de 1983. Mas essa casualidade não tira sua fluidez pra andar entre o que é velho e entre os velhos sem tropeçar. Eles, os velhos, gostam bastante quando ela chega. Suspendem por um segundo a viagem da pinga à boca só pra adorar as coxas dela e o mistério da virilha, bunda e xoxota que se escondem atrás de apenas três palmos de um tecido preto. Desgraçadamente, eles não verão aquele galhardo tríptico que nasceu em 83 e adora shorts. Pois não, moça? Ela quer a cerveja mais gelada e um PF gordo. Muito arroz, feijão, batata frita e um ovo mal frito, pingando. Não são onze da manhã ainda e ela repete o PF. O caldo de feijão que sobra no fundo da travessa de metal faz liga com a farofa e a gema mole impregnando as bordas do prato. O ventilador de teto dispersa o bafo carioca pros lados e pra baixo fazendo o suor escorrer mais depressa. Às onze em ponto ela pede a segunda cerveja. Gelada, posta entre as pernas, a garrafa amaina os calores do tríptico oitentista.




Que estilo inconfundível, garota!Quando imprimi o texto para ler junto com outros, ele veio sem o nome do autor, mas assim que comecei soube de quem era.
Ele tanto aparece quando vc descreve o final do mundo, quanto pinta uma cena cotidiana.
Adorei (aliás, como sempre)!
Ei querida
tudo bem com vc?
muito obrigada! quanto à cena cotidiana, quisera que ela fosse mais cotidiana mesmo..
quanto ao fim do mundo, torçamos pra que ele seja rápido, e nao cotidiano.
um beijo grande!