A negra magrinha de cabelos curtos chegou em casa toda puta largando o pacote do açougue em cima da mesa e brigando comigo e me dando tapas de leve na nuca e perguntando sem querer saber a resposta por que eu havia saído descalça daquele jeito bem no dia do fim do mundo?!. Eu disse ´desculpa preta mas perdi meus sapatos pr´uma gota que caiu bem em cima deles, aqui ó, tá vendo?´, e ergui o pé direito até a altura do ventre da preta que já quase me lembro como se chama, quase me lembro, sim!, se chama Cida a negra magrinha de cabelos curtos e toda espigadinha como dizia minha avó. Cida pegou meu pé como se ele fosse um cacho de uvas muito delicado e o aparou por baixo com a mão em concha cuidando pra que nenhum movimento brusco terminasse de arrancar a pele que estava toda desbeiçada pendendo do calcanhar feito casca de tomate cozido. A gota de sol teve efeito de napalm e o estrago só não foi maior porque a bota ortopédica branca que eu usava no dia estava dois números acima do meu e foi justo naqueles dois números extras na ponta que a lava caiu primeiro me dando três milésimos de sorte pr´eu tirar as botas antes que a lava comesse meus pés de uma vez. Eu nunca tinha visto a Cida chorar até aquele dia. Ela só ralhava comigo de brincadeira e ria das minhas cagadas e de uma cagada em especial de quando comi escondida atrás da porta do quarto uns cinco ou seis batons vinte-e-quatro-horas de uma caixa com dez que meu pai trouxe do Paraguai pra minha mãe e a Cida adorava relembrar isso e me dar tapas na bochecha e me chamar de praga sempre que terminava de recontar a história mais pra si mesma do que pra mim. Eu nunca tinha visto a Cida chorar e isso aconteceu quando ela pegou meus pés queimados e viu de perto que eles nunca mais seriam os mesmos e que sempre haveria uma cicatriz neles a me lembrar que o mundo tinha acabado bem antes d´eu poder conhecê-lo. Cida ficou muito compenetrada quando chorou. O tórax dela estremecia pra dentro, sufocado, querendo represar o manancial de tristeza que se formava e ela não sabia onde desaguar. Depois de um suspiro muito profundo Cida voltou a ser Cida de um jeito que eu entendia: me deu um tapa de leve no rosto me chamou de praga e foi até a cozinha pegar azeite e vinho e pano de prato pra apaziguar minha ferida do jeito que ela tinha aprendido com o bom samaritano na bíblia que lia todos os dias enquanto esperava a água do arroz secar. Só quando a Cida entrou na cozinha e eu olhei pra ela de costas é que vi que da ponta da cabeça até a cintura ela estava completamente queimada e sem pele, como se a lava, em vez de gota, fosse uma língua que lambeu a Cida de cima até embaixo arrancando dela todo o negrume da pele preta. Cida estava cor-de-rosa. E devia arder infinitamente. Mas ela não deu um pio sobre seu azar. Ungiu meus pés com azeite e vinho, enrolou os dois em panos de prato com água fria e voltou pra cozinha a preparar os peitos de frango que comprou pra me fazer grelhados com arroz feijão purê de batata farinha e banana. A preta que me azeitava a infância nunca mais saiu de lá.
…
Quando acordei no chão do circo eu já não tinha cinco anos de idade, mas trinta. Meus pés estavam intactos, mas o mudo lá fora não. A Cida é a quinta foto de um sonho que não se revela.




olá,sabrina!
nada mais sublime que os bons tempos em que se podia ver e sentir o objeto de nossas mais doces lembranças…
grande beijo!!!
ei meu querido
o cheiro das coisas passadas pode ir ficando mais fraco, mas nao sai nunca do olfato. alento.
beijo grande pra vc!