A criação aniquilada merecia uma metáfora: uma lona azul e branca, vagabunda, cobrindo bichos vivos do lado de dentro e exilando domadores mortos do lado de fora. O circo permaneceu em pé, mas os circenses não. Público não havia – era segunda-feira quando o mundo acabou, dia de folga no Super Trupe Imperador. Nenhum bicho se manifestou quando entrei na ala das jaulas. Eram dezenas, com macacos, elefantes, tigres, cachorros e cavalos, todos em silêncio. Irmanamo-nos à custa da misericórdia filha da puta que nos manteve vivos. Àquela altura éramos imortais, já que nem o fim tinha sido bastante pra destruir nossa carne dura. Atrás de uma das jaulas anunciava-se um pé humano, inteiro, de um corpo deitado de bruços. Aproximei-me. Pela bunda e coxas lisas, era mulher. Fora poupada da gota de sol, mas morrera, sei lá como. Virei o corpo de barriga pra cima. Era mulher mesmo, com barba e bigode postiços, e já fedia. Os cabelos estavam empastados, tinha uma franja à altura da sobrancelha, e uma boca entreaberta, carnosa, os dentes secos e os olhos arregalados. A barba descolava pelas costeletas. Um macaco levantou-se e caminhou de uma ponta à outra da jaula. Me olhava como se implorasse. Pela mulher ou por mim? Pedia. Fome? Coloquei a cabeça da mulher no meu colo e encostei a minha cabeça numa pilastra de madeira. O mundo poderia acabar repetidas vezes, infinitamente, que nada seria mais forte do que o primeiro cagaço de fim absoluto que eu acabava de sentir. Era tão forte que eu já estava morta antes de morrer. Um ruído escapou da boca da mulher. Um arroto mínimo. Os gases que ainda estavam nela saíam pelo orifício maior. Aproximei meu ouvido pra perceber melhor o ranger de tripas. O macaco que me olhava mais de perto gritou, agarrou-se à jaula e a chacoalhou ferozmente. Os outros dez ou quinze símios fizeram o mesmo, e dispararam uma rebelião encarcerada. De repente, o Super Trupe Imperador reviveu aos gritos, safanões de grades, rugidos e exasperações da fauna remanescente. Fiquei atordoada. Um frio paralisante na barriga, pernas e braços. Amoleci e enrijeci num segundo. Lembrei-me da criação em estado natural, e viva, minha família e amigos. Mas já era tarde. Colei minha boca na boca da morta, com força. O bigode dela entrava no meu nariz. Meu corpo sem roupa colou, na horizontal, no corpo dela, em maiô violeta. Os macacos atiravam serragem em mim. Meu corpo cada vez mais teso, igualando-se ao da morta, queria entrar no dela. Mordi sua boca, o nariz, a bochecha, apertei seus seios, as coxas. Encontrei um vão na cava do maiô esgarçado, entre as pernas, e meti a mão lá. Estava seco e refratário. Meti assim mesmo. Meu peso sobre seu ventre fez a mulher expelir os gases também pelo nariz. Os gritos dos bichos só cresciam. Fúria deles e minha. Comi a mulher. Comi a mulher com a mão. No fundo, eu queria gozar, não o corpo, mas a morte dela. Eu tinha inveja da morte dela. Programei a câmera pra disparar em 15 segundos a quarta foto. Voltei ao chão, na horizontal, minha cabeça entre as pernas da mulher barbada. A criação aniquilada merecia aquela metáfora: eu, imortal, bebendo a morte em violeta.




Hmm, gostinho de metano. Estupendo, guria.
mto obrigada, querido! metano é afrodisíaco. chorume entao… humm.
beijo!
Somente uma imortal sorveria a morte dessa forma tão viole (n)ta. Eletrizante!
Querida Maria Teresa, que bom que tenha gostado!
a imortalidade tem dessas coisas: torna a gente onipotente e inimputavel. um dia chegamos lá. grande beijo!
Óia, mia fia. As foto demoooooora pra revelá. Sabi, as vez farta papé, as vez farta os quimico pra fazê as ampriação.
Mais aqui no estudio de nóis aqui nóis fala que faz, intão nóis faz.
Beijo
Adelaide, misinfi, deus é testemunha. teu lugar ta garantido.
beijo!
olá, minha querida!
toda a humanidade gritou: vou bom para você também? e do silêncio da devastação viu-se apenas a fumaça que se entrelaça no ar de um cigarro de palha sabor cereja.
como diria o filósofo ronald mcdonalds: amo muito tudo isso!
grande beijo!!!
ei meu querido
td bem? o cigarro de palha sabor cereja veio mto a calhar. sim, foi mto bom pra todos, inclusive para os macacos, que pela primeira vez na vida olharam pra um casal de humanos e disseram: deus, como eles se parecem com a gente! acima de deus, só o ronald com sua filosofia hiperbólica.
beijo grande!